Esqueça o escândalo

         IMAGINEM o que aconteceria se a candidatura do petista Fernando Haddad fosse acusada, por uma reportagem-investigação da Folha de S. Paulo, de receber 12 milhões de reais ilegalmente, como caixa dois, para comprar pacotes e espalhar centenas de milhões de mensagens pelo WhatsApp, a maioria delas mensagens fake, contra o partido (PSL) do candidato Jair Bolsonaro.

           Conseguem imaginar o bafafá?

           Claro que essa notícia teria bombado no Jornal Nacional da Rede Globo no mesmo dia; seria matéria de capa do Estadão e do jornal O Globo, daqui até a eleição; matéria de capa das revistas Veja, Istoé e Época, desta e da próxima semana; o Ministério Público já estaria no calcanhar dos empresários que fizeram isso; o tesoureiro do PT estaria preso preventivamente; e o candidato Fernando Haddad, no mínimo, teria sido arrastado numa condução coercitiva para prestar esclarecimentos na Polícia Federal.

            Mas não. Não aconteceu nada disso. A reportagem-denúncia da Folha de S. Paulo, revelando que empresários bancaram a compra de pacotes para o disparo em massa de mensagens anti-PT, indicando os nomes das empresas que deram esse apoio ilícito a Bolsonaro, revelando quem foram as empresas que prestaram esse serviço ilegal, e esclarecendo até o valor individual pago por cada mensagem, tudo tim-tim por tim-tim… não deu em nada.

          Os grandes jornais simplesmente ignoraram esse crime eleitoral; o Jornal Nacional da Rede Globo fez que não sabia de nada e que isso era uma acusação do Haddad; o Ministério Público não intimou ninguém; a Justiça Eleitoral não prendeu nenhum tesoureiro de campanha; e o candidato Bolsonaro (que já está liberadinho da silva, pelos médicos, até pra comparecer a debates) não sofreu nenhuma condução coercitiva; não foi sequer interpelado.

          Ao contrário. Reagiu ameaçando processar o jornal que o denunciou; processar seu oponente Fernando Haddad que nada fez; dizendo que tudo isso não passa de armação dessa quadrilha, desses bandidos, desses idiotas que estão lá no PT e que querem implantar no Brasil um socialismo igualzinho àquele que tem na Venezuela – e o pior: o jornal Folha de S. Paulo afinou e todo mundo acreditou (convenientemente) no candidato valentão.

         Essa reportagem da Folha revela um caso clássico de corrupção política. De caixa dois. De abuso do poder econômico. De sonegação dos valores de campanha, sem contar o crime digital das fake news espalhadas contra o PT. É caso, no mínimo, de cassação da chapa beneficiada – claro que dentro de uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE), com ampla defesa e contraditório – e subsequente investigação criminal.

           Nada disso acontecerá. Os petistas, que fizeram a reclamação eleitoral no TSE – aliás, como era de seu dever -, podem tirar o cavalinho da chuva.

      A democracia brasileira continuará sendo hackeada, e o voto dos eleitores de Bolsonaro seguirá digitalmente “blindado”. Ninguém consegue impedir essa enxurrada de fake news nem pôr na cabeça dos eleitores manipulados que eles estão sendo vítima de uma propaganda sórdida, como aquela que, surpreendentemente, levou o fanfarrão Donald Trump à Casa Branca.

            Por falar nisso, você bem que poderia “dar um Google” pra ver a fotografia do filho de Jair Bolsonaro ao lado de Steve Bannon, exatamente o homem que comandou a maracutaia do WhatsApp na eleição norte-americana do Trump, e que está fazendo a lavagem cerebral de eleitores em outros países com a finalidade de estabelecer a hegemonia ideológica da extrema-direita na América e em boa parte do mundo europeu.

         Foi assim, com essa manipulação digital por meio de algoritmos, robôs e computadores sofisticadíssimos que Steve Bannon enfiou o Trump na cabeça e na goela dos americanos, e agora está enfiando goela abaixo dos brasileiros um candidato tosco como Jair Bolsonaro, que, à custa de muita mentira, conseguiu aparecer aos olhos de boa parte do eleitorado como um político antissistema – e honesto.

              Abra o olho, companheiro!

            Não tem nada mais velho que o Jair Bolsonaro na política brasileira. Foi deputado por 28 anos e nada fez. Recebia auxílio-moradia e escarneceu de seus eleitores dizendo que utilizava esse benefício para – pasmem! – “comer gente”, ou seja, para alugar uma bela casa onde fazia sexo com gente de seu naipe – vê lá se isso são modos de quem quer ser presidente da república!

           É tão “velho” que ainda é daqueles políticos profissionais que fazem “política em família”: está no Congresso há quase três décadas e já enfiou mais três filhos na carreira. É tão honesto que confessou ter recebido propina da JBS; passou por outros seis partidos, todos eles investigados na Lava Jato; registrou um aumento de 168% de seu patrimônio desde 2006; e aumentou o patrimônio de seu filho Eduardo em 432%, só nos últimos quatro anos – tudo isso segundo a pesquisadora Silvana Krause, da UFRGS.

             É esse pacote que você tá comprando, amigão. Esqueça a reportagem da Folha de S. Paulo revelando o crime eleitoral de Bolsonaro, de seu partido, e dos empresários que o apoiam. Esqueça as fake news disparadas contra o PT. Esqueça que o Steve Bannon existe e faça um bom proveito do seu voto – só não vale reclamar depois, nem dizer que anulou ou votou em branco; essa desculpa eu já conheço desde os tempos do Collor.

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Debate, não

        SE um candidato à presidência da república nos Estados Unidos deixar de comparecer aos debates de campanha eleitoral, jamais chegará à Casa Branca. Isso nunca aconteceu naquele país: nenhum candidato (republicano ou democrata) deixou alguma vez de comparecer aos debates polarizados na reta final de campanha. E por quê?

      Porque isso seria considerado pelos norte-americanos como um grande desrespeito ao povo, e o candidato seria tido por covarde, impostor: quem se propõe a governar e liderar um país deve apresentar-se publicamente, com suas propostas, seus programas, suas ideias e argumentos; deve, portanto, expor o que pensa e revelar o que é: como político e como pessoa.

        No Brasil estamos assistindo o contrário. A maioria do eleitorado, neste momento, tende a votar num candidato que foge, que se recusa a debater suas propostas, seus programas e ideias. Um candidato que prega a violência e pede ao eleitor brasileiro que lhe dê um “cheque em branco”, pondo-o no Palácio do Planalto sem saber quais são seus verdadeiros planos, seus reais objetivos, quem são seus apoiadores…

         Mas, é compreensível que esse candidato não queira debater com seu opositor. Sua recusa tem aí uma meia dúzia de razões.

        Primeira delas: ele não tem um programa de governo claro, concreto e factível para submeter ao debate; não apresentou até hoje suas propostas para tratar os grandes e mais urgentes problemas brasileiros: retomada do crescimento econômico, administração da dívida pública, juros altos, política de câmbio (apreciado/depreciado), política externa, distribuição de renda, acesso à saúde e educação.

       Segunda razão: além de não ter um programa definido, trata-se de um candidato “vazio”; suas opiniões são monotemáticas e fundadas apenas no senso comum. Seu discurso é raso; quase infantil. O candidato não dispõe, sequer, dos recursos de retórica de que dispunha, por exemplo, um Fernando Collor, que também era “vazio”, populista, mas manejava alguma oratória.

     Terceira: as ideias do candidato são racionalmente insustentáveis; moralmente indefensáveis. Seu discurso é um discurso fundado no ódio, no preconceito e na discriminação. Está sempre irado e sua obsessão é matar. Ele abre a boca e perde voto. Tanto é verdade que a tática dele, nestes dias finais de campanha, é não dar sequer entrevistas – que dirá ir a debates.

     Quarta: o candidato sabe que não tem preparo nem condições intelectuais para enfrentar seu opositor num tête-à-tête; não tem a mínima condição de debater com alguém que ostenta formação humanística e multidisciplinar, como seu oponente, que é um intelectual formado em Direito, professor de Ciência Política, com pós-graduação em Economia e Filosofia – o candidato foge porque sabe que seria “engolido” pelo adversário.

        Quinta: o mau uso do português. O candidato fujão não consegue falar sem cometer graves erros de comunicação. (Não se trata apenas de “vícios de linguagem” – como os de Lula e de todos nós -, nem de pequenos erros que a linguagem oral tolera perfeitamente bem – são erros grosseiros de expressão.) Ou seja: além de não ter conteúdo, o candidato atropela a sintaxe e seria um desastre em qualquer duelo verbal.

      Última razão: ele não tem a serenidade e o comedimento necessários a qualquer debatedor. Sua comunicação é agressiva. A toda hora, na sua linguagem, surgem termos ameaçadores como “canalha”, “idiota”, “vagabundo”, “marginal” etc., revelando um notório destempero. Aliás, seus pares, no Exército, o consideravam “excessivamente ambicioso, agressivo e desequilibrado na argumentação”.

       Por todas essas razões, o ultradireitista que postula a presidência da república nestas eleições não comparecerá a debate algum. Este pleito eleitoral ficará marcado pela mentira (fake news); pela truculenta manipulação do eleitorado via WhatsApp; pela ausência do debate em torno de programas, e pela irracionalidade política que sufocou o senso crítico de muita gente – inclusive dos que se consideram letrados, instruídos e cidadãos conscientes.

      Não há política sem debate e informação. A essência da política é a divergência, o contraditório e a transparência das ideias. Só com isso é que se constrói o consenso e o bem comum – objetivos maiores da política, desde Platão.

      Esta será, portanto, uma eleição “no escuro”. É nas trevas, no obscurantismo que as ideias retrógradas e autoritárias encontram seu terreno fértil; foi nesse terreno que uma candidatura bizarra, que não era levada a sério por ninguém, se impôs e conseguiu seduzir grande parte do eleitorado brasileiro.

        Desse modo, mergulhada na mentira e na desinformação, pode-se dizer que esta será uma eleição-fake. Ou, uma antieleição, de um anticandidato, que manipulou seus antieleitores – quando a História apresentar a conta e faltar tudo – até a liberdade -, será mais fácil encontrar um dinossauro passeando por aí do que um eleitor que terá votado no candidato que fugia dos debates.

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Uma anticampanha inexplicável

       O CANDIDATO Jair Bolsonaro, por mais paradoxal que isso possa parecer, vive fazendo campanha contra si mesmo: é só abrir a boca e lá vem petardo contra a própria candidatura. E faz tempo. Desde o início de sua longa carreira política, como deputado, ele faz campanha contra si… e sempre acaba eleito; vai entender!

          Vejamos se não é verdade.

       O eleitorado brasileiro é composto por 52% de mulheres, portanto, a maioria dos eleitores. E o que faz o candidato para cativar o voto feminino? Diz que não empregaria uma mulher com salário igual ao de um homem; diz que quando teve uma filha mulher foi porque ele “fraquejou”; diz ainda que feminicídio é puro “mimimi”; e mais: segundo ele, tem mulher que não merece nem ser estuprada (há alguma que mereça, candidato?).

            Os negros, pretos, pardos, enfim, os afrodescendentes são maioria no país (51%). E o que diz o candidato para atrair essa fatia do eleitorado? Diz que seus filhos jamais se casariam com uma negra porque eles foram bem educados; e que os negros quilombolas são vagabundos, pois o mais leve que encontrou “pesava umas sete arrobas” – como se fosse um animal de engorda.

         Há pouco, uma pesquisa do instituto Datafolha revelou que 69% dos brasileiros consideram a democracia o melhor sistema de governo. E o que diz o candidato extremista para abocanhar essa enorme faixa do eleitorado democrata? Diz que é a favor da ditadura e que, se fosse eleito presidente, não hesitaria um minuto em fechar o Congresso e dar um golpe na democracia, pois – ainda segundo ele -, o voto não serve pra nada.

           O Brasil é um país religioso, considerado majoritariamente católico. E o que diz o candidato Bolsonaro sobre o quinto mandamento (Não matarás!) para cativar essa imensa maioria do eleitorado cristão? Diz que para pôr ordem no país é preciso matar uns trinta mil, mesmo que sejam inocentes; diz ainda que a ditadura militar instalada em 1964 errou porque matou muito pouco; e diz também que é a favor da tortura e da pena de morte.

        A diversidade sexual no Brasil é um direito defendido pelos democratas, tanto de esquerda quanto de direita – orientação sexual não tem ideologia. Não se trata apenas de uma reivindicação LGBTSI – as Paradas Gay põem milhões e milhões de pessoas nas ruas de todo o país. E o que faz o candidato extremista para captar o voto de todos esses milhões de defensores da causa? Diz que tem imunidade parlamentar para dizer que é, sim, homofóbico.

          O Brasil é um país com elevadas taxas de pobreza e exclusão social; são muitos milhões de compatriotas vivendo nessa condição. E o que diz (e faz) o candidato para captar esses milhões de votos? Diz que o Bolsa Família é uma mentira. Que pobre tem que trabalhar, como todo mundo. Que é contra as cotas para pobres. Que vai reduzir os impostos pagos pelos ricos.

          A imensa maioria dos brasileiros (creio) são pessoas pacíficas, avessas a qualquer tipo de violência. E o que diz o candidato para conquistar o voto dessa maioria de eleitores que desejam a paz? Diz que vai armar a população porque só uma guerra civil é que poderá pôr ordem na casa. E diz ainda que as crianças (como fez com seus próprios filhos) devem aprender a usar um revólver desde os cinco anos de idade.

            O país inteiro está encrespado com esse negócio da corrupção política, querendo prender tudo quanto é corrupto. E o que diz o candidato Bolsonaro sobre corrupção e honestidade, para seduzir esse eleitorado moralista? Diz que é sonegador. Que sonega tudo o que pode. Que recebeu, sim, 200 mil reais da JBS. E que seu partido recebe propinas porque todos os outros recebem.

            A classe trabalhadora é a classe majoritária no país, portanto, representa milhões de votos. E o que diz (e faz) o candidato da ultradireita para captar o voto dessa classe? Diz que trabalhador tem direitos demais, e vota a favor da reforma trabalhista que acabou de destroçar a CLT adotando o trabalho intermitente, o trabalho sem carteira assinada, a redução da licença-maternidade, redução do descanso remunerado, impossibilidade de reclamar na justiça etc., etc., etc.

          A economia brasileira, como se sabe, está desandando. Será uma debacle que atingirá milhões de lares, milhões de eleitores. E o que é que o candidato diz sobre seu programa quanto à geração de emprego, geração de renda e crescimento econômico para cativar esses eleitores aflitos com os rumos da economia? Diz simplesmente que não entende nada de economia.

            Como se vê, nem os opositores de Bolsonaro fariam uma campanha tão competente contra ele. O homem é um desastre! E detalhe: tudo isso aí acima está gravado, está na internet pra quem quiser ver e ouvir – não é boato, não é fake news – é só “dar um Google”. Mesmo assim, o candidato extremista tem ao redor de 60% da preferência do eleitorado, e só por milagre, por um triz, não ganhou a eleição no primeiro turno.

          Eu sei. Muitos vão dizer que esse paradoxo Bolsonaro é explicado pelo antipetismo. Isso não é bem verdade. Tem, sim, antipetismo, mas as pesquisas indicavam que se Lula fosse candidato ganharia a eleição com folga – e no primeiro turno. A soma das intenções de voto de todos os outros candidatos, inclusive do próprio Bolsonaro, jamais alcançaria os percentuais de Lula, que estava isolado na ponta.

        Já estão explicando esse “fenômeno Bolsonaro” até com teorias que têm um quê de conspiratórias: a eleição brasileira estaria sendo manipulada pela Cambridge Analytica, através do WhatsApp e Facebook, com mais de 400 robôs baseados na Califórnia, coordenados pelo mesmo homem (Steve Bannon) que manipulou o eleitorado norte-americano na eleição de Trump usando o algoritmo das pessoas e espalhando fake news, memes e piadas que enganaram até os que se achavam mais esclarecidos.

          Na verdade, será muito difícil – talvez até impossível -, explicar esse súbito “sucesso” eleitoral de um candidato que faz campanha contra si próprio; que se autodestrói eticamente. Na vida, tem coisa que não tem explicação!

        Não vá querer imaginar que a racionalidade humana prevalece o tempo todo. O eclipse da razão, como dizia Max Horkheimer, é algo que jamais poderá ser descartado. Pois a “razão subjetiva” (inexplicável por critérios racionais) uma hora ou outra sempre poderá prevalecer e instrumentalizar a “razão objetiva” – o problema é que o preço disso costuma ser alto, muito alto.

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Por quê?

         NUMA entrevista a um grande jornal de São Paulo, o professor Janson Stanley da Universidade de Yale (EUA), cientista político, disse não entender por que os brasileiros não acreditam no candidato Jair Bolsonaro quando ele se diz favorável à tortura, quando faz apologia da ditadura militar, quando ataca minorias, desdenha os direitos humanos e ameaça dar um golpe na democracia – o professor norte-americano não entende por que os brasileiros não levam nada disso a sério.

            O candidato da extrema direita já disse que não aceita outro resultado que não seja sua própria vitória; e seu vice, general Mourão, já admitiu pública e expressamente a possibilidade de dar um “autogolpe” em caso de baderna. Por aí se vê o “apreço” de ambos pela democracia e pela soberania do voto popular.

           A votação obtida por Bolsonaro no primeiro turno da eleição presidencial (46% dos votos válidos; 48,9 milhões de votos) parece revelar que boa parte dos eleitores brasileiros ou concorda com o discurso neofascista do candidato ou não acredita que ele, uma vez eleito, vá pôr em prática todas essas sandices que anda defendendo abertamente, sem escrúpulos – e desde muito tempo.

           Mas o porquê da votação expressiva no candidato da extrema direita não é assim tão facilmente explicável – creio que sua votação não se deve apenas ao fato de que uma parte dos eleitores pensa como ele e a outra parte não se importa ou não acredita nas coisas que ele pensa, e fala; o vice também gosta de reforçar o discurso autoritário e catastrófico do presidenciável.

          Está muito claro que a gigantesca votação de Bolsonaro, que por pouco não obteve a vitória já no primeiro turno, tem outras explicações – as catástrofes quase sempre são o resultado da convergência de muitos fatores.

          O primeiro deles: mesmo sendo um obscuro deputado do chamado baixo-clero (está na Câmara há trinta anos e até hoje não apresentou um projeto que preste); mesmo tendo enfiado três filhos na política, Bolsonaro, por algum motivo inexplicável, conseguiu aparecer aos olhos da massa como alguém que vem de fora, um outsider, capaz de moralizar e pôr ordem na política atual que ele mesmo pratica.

          Ao se apresentar como outsider antissistema, como alguém que está “fora e contra o sistema político que está aí”, o candidato da extrema direita seduziu e captou os votos daqueles que hoje estão desencantados e rejeitam a política; exatamente a mesma política que ele (Bolsonaro) e sua família reproduzem há três décadas – esse é um fenômeno difícil de explicar.

             Outro fator: os aliados de Bolsonaro (ou até mesmo a cúpula de sua campanha; não se sabe ao certo) fizeram uma “competente” guerra de fake news no WhatsApp e Facebook, inclusive desmoralizando o movimento #elenão, que foi um dos maiores da história, ao veicular fotos falsas de mulheres com peitos de fora, com mensagens escritas nas nádegas etc., tachando-as de vadias – o que levantou uma “onda” moralista contra o movimento, favorecendo o candidato.

      Fator muito relevante foi que o ultradireitista, por razões até mais ou menos compreensíveis, captou praticamente todos os votos conservadores da direita e da centro-direita, ou seja, “sugou” quase toda a votação dos candidatos Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, Álvaro Dias e Marina Silva – apenas os eleitores de Ciro Gomes se mantiveram fiéis ao político cearense.

          Um quinto fator: o ex-capitão Jair Bolsonaro conseguiu personificar o antipetismo; atraiu para si a expressiva votação daqueles que historicamente não votam no Partido dos Trabalhadores de jeito nenhum, nem têm qualquer simpatia por Lula da Silva – Bolsonaro surgiu aos olhos dessa massa como o único homem capaz de evitar a volta do PT, do lulismo e da corrupção que a mídia pespegou, como uma tatuagem, só nos petistas.

         Sexto: a estrondosa votação de Bolsonaro se deve em grande parte a uma “onda conservadora” que se levantou às vésperas da eleição, impulsionada, sobretudo, pelo trabalho de convencimento feito pelas igrejas evangélicas neopentecostais – com a “máquina de propaganda” de Edir Macedo à frente -, captando o voto dos estratos mais pobres; votos que certamente seriam de Lula e do PT.

          Por último: a elevada soma dos votos inválidos (brancos e nulos) e as abstenções, totalizando quase 30 milhões de não votantes, contribuiu matematicamente para o rebaixamento do percentual de votos válidos – o que explica a quase vitória do candidato Bolsonaro já na primeira rodada de votações.

           Deve haver algum ou alguns outros fatores que também expliquem o que fez com que, e por quê, os brasileiros votassem maciçamente no candidato da extrema direita. Todavia, esses fatores não respondem àquela indagação inicial do professor norte-americano: por que motivo os eleitores de Bolsonaro não acreditam que o discurso autoritário do candidato é uma séria ameaça à democracia brasileira?

         Falam muito – sobretudo a direita -, que o Brasil estaria caminhando para uma “venezuelização”, mas na verdade o país está mais próximo é da “fujimorização” peruana, ou seja, mais perto de um golpe (ou “autogolpe”) civil com apoio militar, como o que Alberto Fujimori aplicou no país vizinho.

        Para tanto, bastaria que Jair Bolsonaro, cumprindo suas ameaças contra o que considera “baderna”, fechasse o Congresso Nacional (até com a aquiescência deste último, majoritariamente conservador e alinhado com o mandatário ultradireitista), cooptasse ou calasse a magistratura conservadora, arrematando com a suspensão das garantias fundamentais previstas na Constituição Cidadã de 1988. Pronto!

           O que espanta – e muito -, é o óbvio paralelo que alguns traçam com a Europa dos anos 1930 e 1940: exatamente como os eleitores de Bolsonaro, os de Hitler e Mussolini (basicamente a classe média conservadora e “ordeira”) também não levavam a sério esses dois ditadores, e não acreditavam que eles poderiam fazer o que fizeram – até hoje os alemães e italianos se perguntam por quê.

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Pesquisas e palpites IV

       AS ÚLTIMAS pesquisas, feitas e divulgadas ontem pelos principais institutos (Datafolha, Ibope e Vox Populi), indicam que Jair Bolsonaro lidera a corrida presidencial com percentuais de intenção de voto entre 34% e 41%, seguido de Fernando Haddad, que teria entre 22% e 27% dessas intenções.

           A primeira conclusão (ou palpite) que se pode tirar daí é que, como já se previa, haverá mesmo segundo turno. Só uma “onda” gigantesca (tipo “tsunami eleitoral”) em favor de um ou de outro evitaria a segunda volta. Teremos, portanto, no segundo turno, o confronto direto entre o candidato da extrema direita e o postulante da esquerda.

         Na segunda rodada, as pesquisas indicam empate técnico entre os dois candidatos. Mas é cedo pra falar nisso. No jargão eleitoral, costuma-se dizer que o segundo turno é “outra eleição” – a dinâmica é outra, a lógica é outra, e é outra também a percepção e o posicionamento do eleitorado; não dá pra arriscar palpite nenhum, será uma eleição disputada no corpo a corpo, voto a voto.

          Mas algumas especulações (só especulações, hein?!) são possível. Por exemplo, em condições normais, e levando-se em conta o histórico de eleições passadas, quem passa para o segundo turno em primeiro lugar tem mais chance de vitória – nesse caso, Jair Bolsonaro seria o favorito para vencer e, a final, chegar ao Palácio do Planalto.

         Todavia, esta eleição de 2018 não está sendo disputada em “condições normais”; é uma eleição atípica. Assim é porque vive-se neste momento uma grande crispação do eleitorado; uma enorme polarização política; há também muita insegurança por parte do eleitorado – tanto é verdade que as pesquisas indicam empate técnico entre os dois primeiros colocados, no segundo turno.

           Ou seja, o resultado da eleição para a Presidência da República está em aberto; mais ou menos como aconteceu na eleição passada, entre Dilma e Aécio, quando a vitória da petista se deu por uma pequena margem de votos, e o resultado definitivo só foi conhecido bem no finalzinho da apuração.

           Por isso, meu palpite é de que a eleição, de novo, se dará pela contraposição entre petismo e antipetismo. Dizem, porém, que agora há outros ingredientes influenciando o processo eleitoral como, por exemplo, a incerteza maior do eleitorado, a forte campanha pelo WhatsApp, o abuso de fake news, a influência da internet superando a da tevê etc., o que tornaria qualquer previsão algo arriscado; não dá pra falar muita coisa.

            Concordo que não há previsão segura neste momento – se é que algum dia houve em alguma eleição. Mas, parece-me que o pleito deste ano, mais uma vez, será definido pelo confronto das forças conservadoras, de direita, agrupadas em torno do candidato Jair Bolsonaro, e as forças progressistas, de esquerda, posicionadas ao lado de Fernando Haddad – fácil ver, portanto, que teremos um novo petismo versus antipetismo.

            Acontece que, desta feita, o petismo está acuado; basta dizer que seu maior líder (Lula da Silva) está preso e amordaçado: não pode fazer campanha, não pode votar e não pode sequer falar. Já o antipetismo está solto (“saiu do armário” com força), pode fazer campanha e falar à vontade – apesar de que o candidato Bolsonaro e seu vice quando falam nem sempre ajudam suas próprias campanhas.

          Pelas pesquisas, podemos perceber que o país continuará dividido, os ânimos e a polarização continuarão firmes… e tendem a prosseguir mesmo após as eleições – até quando? Dificilmente o voto do povo (qualquer que seja o resultado das eleições) pacificará o país – o candidato da extrema direta já disse que não aceita derrota.

             O candidato da esquerda, por outro lado, disse que respeita a vontade soberana do povo, aceita qualquer resultado, mas a esquerda – e boa parte da população -, tem dificuldades para aceitar a prisão e o amordaçamento de Lula sem crime comprovado – essa será uma “ferida permanentemente aberta”; parece que a paz nos virou as costas e resolvemos flertar com a guerra; ou com o abismo – será uma longa noite.

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Pesquisas e palpites III

        A PESQUISA do instituto Datafolha divulgada hoje revela que o candidato Jair Bolsonaro continua liderando as intenções de voto com 32%, seguido de Fernando Haddad com 21%. Revela também duas novidades: o líder cresceu 4 pontos percentuais nos últimos dias; e a rejeição a Fernando Haddad também cresceu, saltou de 32% para 41% – os demais candidatos, pela pesquisa, continuam fora do páreo.

             Por esses números do Datafolha, e também pela última pesquisa do Ibope que traz resultados semelhantes, já são possíveis algumas conclusões, ou palpites. Salvo um tsunami eleitoral – aquelas “ondas” irracionais na “boca da urna” -, teremos mesmo o segundo turno; e será entre os dois primeiros colocados nas pesquisas – nenhum deles tem condições de vencer na primeira rodada.

           A pesquisa Datafolha revela dois dados interessantes: mesmo depois de enfrentar um dos maiores protestos públicos contra sua candidatura – o movimento #Elenão das mulheres, no último sábado – Jair Bolsonaro não sofre nenhuma perda e, paradoxalmente, cresce 4 pontos, inclusive no segmento feminino – uma batalha travada na internet (com muita fake news) conseguiu neutralizar, e até reverter os efeitos do gigantesco movimento das mulheres contra Bolsonaro.

       O outro dado é o crescimento expressivo (9 pontos percentuais) da rejeição a Fernando Haddad. É óbvio que isso animou a turma da extrema direita e deixou a esquerda meio depressiva, ou alarmada. Pode ser que esteja em curso o mesmo fenômeno que elegeu João Dória contra o mesmo Fernando Haddad na última eleição para prefeito de São Paulo – mais isso é apenas uma hipótese.

            O aumento das intenções de voto em Jair Bolsonaro tem, sim, uma explicação; revela algo que já era previsível: a elite brasileira e a classe média conservadora está mesmo disposta a votar em qualquer coisa para derrotar o PT; e votará até no fascismo – até no capiroto, se for necessário -, para impedir a volta do PT ao poder, pois isso significaria a derrota do golpe de 2016.

           Para tanto, a elite golpista, o agronegócio, a classe média e as igrejas evangélicas neopentecostais se lançaram de corpo e alma na campanha de Bolsonaro – neste momento, ele é a única “tábua de salvação” contra a estrela do PT.

            O aumento da rejeição ao candidato Fernando Haddad também se explica por aí, e por um outro fenômeno inusitado: tanto a elite quanto a classe média arregaçaram as mangas e se atiraram à militância: estão fazendo o “boca a boca”, o “corpo a corpo”,  que só os petistas faziam – preste atenção: alguém desses estratos sociais mais elevados, na rua ou nas redes, tentará captar o seu voto; ou demonizar o partido de Haddad.

             Já as igrejas evangélicas fundamentalistas (neopentecostais) têm feito diariamente o trabalho de cabalar o voto dos pobres – que seriam do Lula -, demonizando a candidatura Haddad com o “discurso do medo”: medo da corrupção, medo da “quadrilha petista”, medo da “venezuelização”, medo de rebeliões e levantes como o das mulheres, medo do “bolivarianismo” etc. – percebe-se nitidamente que as pessoas andam com medo; e o medo é a grande arma do fascismo.

           Nesse ponto, o discurso da extrema direita – apesar de seu candidato boquirroto viver dizendo que “bandido bom é bandido morto”, que a ditadura deveria matar mais do que matou, que a tortura é aceitável e que a população deve andar armada -, por mais paradoxal que seja, esse discurso aparece como o “discurso da paz, ou da ordem” – Bolsonaro e seus correligionários vivem falando em Deus, Família e Moralidade.

       Enquanto isso, Haddad fala em mudança social, transformações estruturais da sociedade, combate a privilégios, justiça social, incorporação dos pobres na economia etc. Discurso da mudança. Essas coisas “perturbam” a ordem; qualquer mudança é sempre uma “perturbação” da ordem – mesmo que seja uma mudança para melhor, para uma ordem mais justa; são coisas que assustam a elite e a classe média conservadora.

          Nesta altura, muitas hipóteses, especulações e palpites são possíveis. Mas não há nada de tão novo nisso tudo. Muito embora não haja mais o fla-flu PT versus PSDB – e haja agora o crescimento de um candidato que até outro dia era uma caricatura (nem a direita o levava a sério!) -, fato é que as coisas se traduzem mais uma vez na velha dicotomia: petismo versus antipetismo.

            O petismo venceu as quatro últimas eleições, e venceria esta também se o candidato fosse Lula. Resta saber se a transferência dos votos de Lula para Haddad será suficiente para assegurar mais uma vitória da esquerda.

       Senão, o jeito é “já ir” se preparando para viver sem direitos trabalhistas, sem seguridade social, sem nossas empresas públicas e estratégicas, sem nossas riquezas naturais, sem democracia e sem soberania nacional – tudo isso está no programa e nas promessas do candidato da extrema direita; é só conferir.

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A Justiça e o acaso

          ESTAMOS, como se sabe, na última semana que antecede as eleições. E justamente nesta última semana, “por acaso”, o sistema de justiça proferiu algumas decisões que têm, ou poderiam ter, grande impacto no resultado do pleito; por isso, seria interessante examiná-las.

            O Supremo Tribunal Federal, por decisão não unânime, houve por bem cancelar 3,3 milhões de títulos dos eleitores que não fizeram o cadastramento biométrico. “Por acaso”, a maioria desses títulos (52%) é das regiões Norte e Nordeste, onde, como se sabe, o candidato do PT, “por acaso”, tem a imensa maioria dos votos.

            Por esses dias, um juiz federal de Goiás comunicou ao Exército que estava disposto a determinar o recolhimento das urnas eletrônicas, às vésperas da eleição. “Por acaso”, essa decisão prejudica o candidato do PT – que quer eleições democráticas e está em vias de vencer nas urnas -, e beneficia seu oponente, Jair Bolsonaro, que põe em dúvida a votação eletrônica e já disse que não aceita derrota – quer eleição de um resultado só.

      Nesta semana, o juiz do STF, Luiz Fux, proferiu decisão monocrática (e ilegal) proibindo o jornal Folha de S. Paulo de entrevistar o ex-presidente Lula na cadeia, contrariando decisão anterior de seu colega Ricardo Lewandowski e violando tanto a liberdade de imprensa quanto o direito de expressão. “Por acaso”, essa decisão esdrúxula de Fux prejudica o candidato do PT, pois cala o maior líder petista e presidente de honra do partido.

            Essa entrevista já havia sido autorizada pelo ministro Lewandowski, que não deu bola pro Fux e manteve seu despacho anterior, autorizando a fala de Lula. Mas, para aumentar a trapalhada e a insegurança jurídica no STF, seu presidente Dias Toffoli vem agora e proíbe novamente a tal entrevista. “Por acaso”, essa decisão de Toffoli, como a de Fux, é claramente prejudicial ao candidato do PT.

         Ontem, o juiz Sérgio Moro, por iniciativa própria, juntou a delação do ex-ministro Antonio Palocci – feita há seis meses – num processo criminal que não tem nada a ver com ela e autorizou a mídia a divulgar seu conteúdo. “Por acaso”, essa decisão prejudica (e muito) e candidato do PT – não pelo que ela contém – pois já foi até recusada pelo MP por falta de provas – mas pelo factoide que representa e que permitirá todo aquele conhecido escarcéu por parte da mídia.

            Faz tempo que esse juiz de Curitiba perdeu a noção de seu papel, mergulhando num ativismo político e num lawfare que, “por acaso”, só tem prejudicado o PT e os petistas – desde as vésperas do impeachment de Dilma, quando divulgou ilegalmente uma conversa telefônica da ex-presidenta com o ex-presidente Lula.

            Ainda há poucos dias, o Ministério Público ajuizou ações penais contra o candidato do PT, Fernando Haddad, e o do PSDB, Geraldo Alckmin. Claro que a ação prejudica os dois candidatos, mas, “por acaso”, prejudica mais o petista, que é favorito para vencer as eleições, enquanto que o tucano patina na casa dos 8% de intenções de voto, sem chance de vitória – está na corrida como “cavalo paraguaio”.

           Sejamos francos: não é acaso demais? Não é sintomático que todas essas decisões – todas elas -, há poucos dias do pleito eleitoral, praticamente na boca da urna, sejam prejudiciais só ao candidato do PT?

             Sabemos que o Brasil está vivendo um momento de muita polarização e turbulência política. Há muito boato e suspeita de golpe no ar. Seria interessante que o Poder Judiciário, aliás, como é mesmo de sua missão constitucional, se preservasse um pouco mais e não alimentasse essas inseguranças com decisões que, no mínimo, possam parecer tendenciosas, direcionadas.

            Foi com essa preocupação que o renomado jornalista Jânio de Freitas da Folha de S. Paulo – dono de um currículo reconhecido nacional e internacionalmente -, escreveu há poucos dias que, nesta reta final das eleições, tendo em vista o ponto a que se chegou com as intervenções judiciais na política, o perigo passa a ser “algum petardo de juiz ou procurador para perturbar a disputa eleitoral”.

           O próprio ministro Gilmar Mendes, com essa  mesma preocupação, disse publicamente que, em véspera de eleições, costuma haver um abuso do poder de litigar e de decidir por parte de Ministério Público e Judiciário. E olhe que não é qualquer um que está dizendo isso, não – é um ministro da Suprema Corte. E disse mais: disse que é preciso pôr um freio nessas coisas.

            Que a democracia brasileira estivesse ameaçada pela farda não é aceitável, mas é até compreensível – a América Latina tem um largo histórico de golpes miliares -, mas que a toga, encarregada de defender a ordem jurídica e o regime democrático, se constituísse, ela também, numa ameaça ou numa suspeita, aí chega a ser desanimador – a insuspeição do Judiciário é a razão moral de sua existência.

            Não sei não, mas pelo visto essa turma da toga ainda é capaz de aprontar alguma até o dia das eleições; e, “por acaso”, só pode ser alguma coisa prejudicial ao candidato do PT – como sempre; confira se não.

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