O que os brancos têm com isso?

ESTÁ provado, por meio de estatísticas oficiais, que 80% dos mortos pela letalidade das forças de repressão no país são negros; entre os policiais que morrem em serviço ou no horário de folga, 67% são negros também. A mortalidade infantil e materna é maior entre a população negra: as mulheres pretas estão mais sujeitas a violência obstétrica, e as crianças mais vulneráveis a contaminações.

No mercado de trabalho, o racismo estrutural continua causando seus estragos: 64,3% dos desempregados são negros. O salário dos brancos é 70% maior que o dos negros; as mulheres negras, em média, recebem apenas 44% do salário de um homem branco (menos da metade); o rendimento médio domiciliar (per capita) da população branca é de R$ 1.846, o da população negra ou parda não passa de R$ 934.

Quanto à liberdade, a diferença também é notória: em 2019, dos 657,8 mil presos que informaram cor e raça, 438,7 mil eram negros, ou seja, 66,7% da população carcerária. E pior, essa desproporção está aumentando no sistema prisional, inclusive entre as mulheres negras.

Em suma, no que diz respeito às dimensões fundamentais da existência humana (vida, trabalho e liberdade) – sem contar as necessidades (também fundamentais) de educação, cultura e lazer – há muita discrepância entre a condição dos negros e a dos brancos no Brasil. É uma desigualdade que mata e oprime, não apenas exclui.

Mas essa desigualdade ocasionada pelo racismo brasileiro não é um problema só dos pretos – como à primeira vista poderia parecer. Os brancos têm muito (ou tudo) a ver com isso. E a responsabilidade da população branca pode ser resumida em duas questões apenas: moral e política.

Primeiro a questão política: se os brancos querem mesmo viver numa democracia real (e não apenas formal), então devem começar pelo combate ao racismo que exclui, mata e oprime aqueles que são a maioria da população. Pois, jamais haverá democracia com a exclusão da maioria; isso sabemos desde que fundaram a democracia antiga (Grécia), refundada pelos modernos.

Agora a questão moral: até quando os brancos aceitarão – calados e indiferentes – serem os beneficiários diretos de um sistema injusto, que lhes garante maiores e melhores oportunidades, desde o berço até o túmulo, em detrimento da população negra?

É um clichê (aplicável à ascensão do nazismo na Europa), mas o silêncio dos indiferentes é tão responsável pelo racismo quanto a prática dos racistas; são coisas que acabam se confundindo no plano histórico, pois, praticar a injustiça e permitir que se a pratique dão na mesma, produzem o mesmo resultado.

Creio que não haverá meio-termo para a população branca do Brasil: ou lutamos todos (pretos e brancos) por uma democracia de verdade (substancial), e por uma sociedade efetivamente justa, ou afundamos todos no racismo e na injustiça. Me parece simples assim.

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Racismo violento

APÓS a morte de João Alberto, espancado violentamente por seguranças do Carrefour, e após o vice-presidente Mourão dizer que no Brasil não há racismo, os jornais de hoje publicam dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública confirmando o que já sabíamos e o vice-presidente parece não saber: os negros representam 80% das mortes provocadas pelas polícias no país.

Mas surgiu também um outro dado: dois terços dos policiais mortos em horário de folga ou em serviço também são negros. Quer dizer, os negros estão pagando com a vida seja quando são reprimidos pela polícia, seja quando integram as polícias para atuar na repressão.

Isso deita por terra a antiga tese de que tínhamos aqui um “racismo cordial”, o nosso racismo é violento – é estrutural e violento. Todo racismo, em si, já é uma forma de violência, mas o racismo brasileiro é praticado com a violência aberta do próprio Estado, como estratégia de necropolítica.

Portanto, está longe da realidade a ideia de que o Brasil vive uma “democracia racial”, onde haveria convivência pacífica e igualitária entre brancos e negros. Isso é um mito, uma mitificação alimentada pela ignorância de uns, pela indiferença de outros, e pelo racismo de todos.

Agora, vêm o presidente e seu vice dizer que o racismo não existe ou não é um grande problema do país. O negacionismo como o desses dois representantes do Estado sempre foi o maior responsável pela resiliência do racismo entre nós, que até hoje tem sido ignorado pela maioria da sociedade brasileira (incluída aí uma parcela de negros) e por nossas instituições estatais.

O racismo é sim um dos nossos maiores problemas, pois, enquanto perdurarem a violência contra os negros, a discriminação deles no mercado de trabalho e a exclusão do sistema educacional, não poderemos falar numa autêntica democracia. Notem que os negros constituem a maioria da população brasileira (54%).

Para combater o racismo, nos ensina Djamila Ribeiro, o primeiro passo é reconhecer que ele existe – bem ao contrário do que fizeram o presidente e o vice brasileiros, numa evidente demonstração de ignorância sobre a história e a realidade brasileira.

O segundo passo, continua Djamila Ribeiro, é tomar consciência e entender que uma sociedade estruturalmente racista produz e reproduz o racismo cotidianamente, e isso nos afeta a todos. Logo, para combater o racismo, torna-se necessário reconhecer que somos todos potencialmente racistas, e direcionar nossas condutas, inclusive no dia a dia, para combatê-lo sem trégua – até nas piadinhas racistas aparentemente inocentes.

Toda vez que alguma autoridade brasileira faz declarações como essas dos dois máximos mandatários da nação significa que ainda não demos, sequer, os primeiros passos para vencer a mazela do racismo. Quer dizer que estamos muito longe de ter plena consciência do momento histórico em que vivemos; ou seja, continuamos mergulhados na escuridão da ignorância.

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Dois sinais interessantes

ESTAS eleições municipais de 2020 – aliás, como todas as eleições – permitem captar algumas mensagens políticas que o eleitorado costuma mandar quando vai às urnas. São apenas mensagens, tendências, sinais… Mas têm relevância e quase sempre constituem um indício do que vem pela frente.

Dois pontos em particular me chamaram a atenção: primeiro deles, Jair Bolsonaro não foi um bom cabo eleitoral para candidatos a prefeito e vereador. Seu apoio não elegeu ninguém de grande expressão e, mais curioso ainda, muitos candidatos do campo da direita evitaram a aproximação com o presidente.

Interessante notar, nesse ponto, que dentre os 78 candidatos que usaram o sobrenome “Bolsonaro” em suas campanhas e nas urnas apenas um deles foi eleito. Sugestivo, não?

Isso não quer dizer que Bolsonaro vá perder a eleição de 2022; mas significa sim que perdeu força. E significa mais: aquele ímpeto da extrema-direita no Brasil está arrefecendo; pode ser que tenha sido apenas uma onda, ou, como se diz, “nuvem de verão” (no caso, inverno).

O segundo sinal emitido por estas eleições é que cantores gospel e apadrinhados de pastores evangélicos se deram mal nas urnas. Pode ser um indício de que o fundamentalismo religioso e conservador que tomou conta de boa parte do eleitorado brasileiro esteja refluindo.

Em si, não há nenhum mal que hajam cantores gospel nem pastores evangélicos. O mal está na associação sistemática das igrejas neopentecostais com a política, revelando um evidente projeto de poder e dominação profano incompatível com a dimensão sagrada das religiões e com a democracia.

Como disse, são apenas sinais de que o eleitorado está percebendo alguma coisa para além do neoconservadorismo político, tanto da “nova direita” quanto das igrejas neopentecostais.

É preciso esperar ainda o resultado do segundo do turno em várias cidades do país para recolher as impressões definitivas sobre a famosa “mensagem das urnas”. Mas, até aqui já dá pra ver que o obscurantismo político e religioso das últimas eleições não está com a bola toda.

Aproveitando o assunto, sobre “mensagens das urnas”, creio que a vitória de Joe Biden nos EUA, expulsando da Casa Branca o homem que ajudou a turbinar a extrema-direita no mundo, seja também um sinal de alívio para democracia global; reforça a ideia de que o “pico” do populismo autoritário está passando e os governos de ultradireita não são uma pandemia que veio pra ficar. Que assim seja!

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O novo toma-lá-dá-cá

            O PRESIDENTE Jair Bolsonaro não entende muita coisa, e uma das coisas que ele não entende é que o Brasil tem um “presidencialismo de coalizão”, e que, portanto, o chefe do Executivo precisa dialogar com o Congresso, se quiser governar. Bolsonaro, estúpido como é, optou por xingar o Congresso (e outras instituições). Deu no que deu – até agora não governou um dia sequer.

           Seu argumento, para não dialogar com o Legislativo, é que iria implantar a “nova política” – sem favores nem toma-lá-dá-cá. Os seguidores de Bolsonaro acharam isso o máximo; acharam que a corrupção estava mesmo com os dias contados. O capitão, finalmente, encontrara a fórmula da ética na política. Doce ilusão!

           Nem Bolsonaro nem sua corriola sabem que a política é a arte da negociação, da administração e composição dos conflitos de interesses tendo em vista um bem maior – a governabilidade para o bem comum. O xis da questão está na maneira, na habilidade, na competência com que isso é feito – é aí que se vê o estadista.

             Pois bem, como Bolsonaro ficou politicamente isolado, e depois de um ano e quatro meses na presidência ainda não disse a que veio – só fez confusão – resolveu agora aproximar-se do chamado “Centrão” – ninho do fisiologismo político – para, primeiro, escapar do impeachment, e, segundo, tornar lei suas Medidas Provisórias que ora são revogadas pelo Legislativo, ora anuladas pelo STF.

            O capitão retorna portanto à “velha política” – não há nada mais velho do que o “jeito centrão” de fazer política: na base do toma-lá-dá-cá e de outras práticas menos louváveis. Retorna pelo pior caminho. Bolsonaro vai conhecer agora o jogo dos cargos, das verbas e similares. Ele esteve no Congresso e nunca viu isso porque nunca participou da “festa” – era um deputado à margem de tudo – não tinha moral nem força política para pleitear cargos ou verbas.

       Na verdade, Bolsonaro vivia das suas maluquices e das “rachadinhas”. Ou seja, mantinha suas bases – milícias, polícias e militares de baixo coturno – atiçados com seus rompantes sobre pena de morte, tortura, ditadura, caça aos bandidos e caça aos transviados em geral – era isso que mantinha Bolsonaro, um deputado medíocre, em contato com suas bases; e às vezes até com a mídia.

         E sua campanha, além de financiada por esses colaboradores da base, era irrigada pelas “rachadinhas” – dinheiro público que seus funcionários de gabinete (e funcionários-fantasma) recebiam e depois repassavam ao capitão, para fazer caixa de campanha. Foi tão bem-sucedido nessa prática provinciana, que seus filhos herdaram o “modo rachadinho” de fazer política.

         Quando acordou na presidência da República – levado até lá por uma coalizão golpista – achou que era Napoleão Bonaparte; e que faria tudo do seu jeito, sem dar bola para Congresso, STF, Ciência e coisas que tais. Achou que tinha o respaldo dos militares – atulhados no governo – e que estava por cima da carne-seca: foi uma burrada só, ou melhor, uma burrada atrás da outra.

           Agora, o capitão volta murchinho, com a rabo entre as pernas, e começa a distribuir verbas e cargos ao “Centrão”, suprassumo do fisiologismo no Congresso Nacional; fina-flor do toma-lá-da-cá.

         Por incrível que pareça, isso pode ser até um bom sinal; sinal de que o capitão desistiu de insistir no seu projeto autoritário/bonapartista e resolveu negociar. Ele que até agora batia no peito e dizia que não negociava com ninguém. E, de fato, não negociou (só com evangélicos e militares), mas também não governou; não fez nada, e o pouco que fez era melhor que não tivesse feito.

          Por que o capitão terá mudado de ideia? Duas coisas. Primeiro, sentiu que uma ala importante dos militares não achava que o impeachment era uma má ideia, pois poderiam prosseguir com Mourão na presidência. Segundo, percebeu também que os militares, que o tutelam, não estavam dispostos a embarcar numa aventura autoritária, ou mesmo ditatorial – pelo menos por ora.

           Enfim, Bolsonaro é isso: um pascácio sem bússola. Chegou ao Planalto por obra de uma coalizão perversa entre mídia, empresários e setores do Judiciário e do Ministério Público; achou que tinha chegado lá por méritos (ou deméritos) próprios; não entendeu que o Planalto é só a dimensão simbólica do poder real, e, assim, despreparado como é, meteu os pés pelas mãos. Agora, depois de muito estrago, recolhe-se ao berço esplêndido do toma-lá-dá-cá; e talvez ainda diga à sua plateia que essa é a “nova política”.

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Por que Moro saiu

              VÁRIAS razões explicam a saída repentina de Sérgio Moro, que deixa o governo de Bolsonaro após um ano e quatro meses à frente do Ministério da Justiça. Sua saída foi repentina, mas já era esperada – ele vem às turras com o capitão desde o início. E são basicamente três os motivos que explicam o desembarque daquele que era tido como intocável, um superministro.

           Em primeiro lugar, é fato que Moro nunca esteve à vontade no governo Bolsonaro. Seu constrangimento começou logo na chegada, quando teve de engolir (e perdoar) os crimes de caixa-dois do também ministro Onix Lorenzoni, réu confesso. Ali começou seu desconforto, porque sentiu arranhada sua imagem de paladino da moralidade, percebeu que sua figura de “herói” poderia desmoronar em algum momento.

         O constrangimento aumentou quando Moro teve de conviver, calado, com as investigações criminais que recaíram sobre a família Bolsonaro – caso Queiroz; depósito de dinheiro de miliciano na conta da primeira-dama; envolvimento do presidente e seus filhos com milícias; o caso das “rachadinhas”; funcionários-fantasma; suspeitas sobre a morte de Marielle; espalhamento criminoso de fake news etc.

             O auge do constrangimento foi agora, pela maneira insana com que Bolsonaro se comporta na crise do coronavírus, desdenhando a pandemia e cometendo crimes de perigo de contágio (art. 132 do Código Penal), impunemente, sob as vistas do Procurador-Geral da República e do ministro da Justiça. Na verdade, Sérgio Moro sumiu desde que estourou a crise do coronavírus.

              A esses constrangimentos somava-se um motivo ainda maior: os poderes de Moro foram esvaziados. O Ministério da Justiça perdeu o Coaf; estava em vias de perder a gestão da segurança pública; e, por fim, perderia qualquer controle sobre a Polícia Federal, com a exoneração do diretor-geral Maurício Valeixo. O ministro virou peça decorativa no governo, usado apenas para manter a retórica vazia do combate à corrupção.

           Além dos constrangimentos e da perda de poder, há um terceiro motivo para que Moro tenha tomado a decisão de deixar o Ministério da Justiça: o governo de Bolsonaro está desintegrando e atingindo níveis insustentáveis de desmoralização, o que, mais cedo ou mais tarde, atingiria a imagem do ex-juiz “competente e incorruptível” – imagem que já vinha arranhada desde as revelações do Intercept Brasil, a “vaza-jato”.

             O ex-ministro tentou manter sempre sua figura descolada da de Bolsonaro, tinha aprovação popular superior à do presidente, mas quando o Intercept revelou as falcatruas processuais do juiz Moro, este foi amparado pelo capitão e teve de mergulhar de vez no bolsonarismo.

            Ante a progressiva desmoralização do governo e do próprio presidente – com vários pedidos de impeachment protocolados na Câmara – Sérgio Moro começou a fazer cálculos políticos e, numa relação custo-benefício, preferiu perder os holofotes do Ministério e cuidar de sua própria candidatura para 2022.

       Essa candidatura está sendo tramada há muito tempo – no mínimo, desde o impeachment de Dilma Rousseff. Não tem grande sustentação política, mas Sérgio Moro ainda é o nome da grande mídia burguesa (Rede Globo à frente), de parte do capital financeiro e do Departamento de Estado e de Justiça norte-americanos.

           Com a saída de Moro, o bolsonarismo se enfraquece – perde os simpatizantes do lavajatismo e a retórica da moralidade. Sérgio Moro também não sai forte: além dos holofotes, perde apoio político e terá de enfrentar as brigadas digitais da família Bolsonaro, que já estão empenhadas em destruir a imagem (artificial) do ex-juiz defensor da ética e da moral.

              Foi uma decisão difícil, mas Sérgio Moro não tinha alternativa. Agora, sem cargo no governo e sem poder voltar à magistratura, será candidato em 2022. As chances de ser eleito dependerão de muita coisa, e o tabuleiro político não é favorável ao ex-ministro. Ele foi engolido em Brasília e não tem mais unanimidade na mídia, sobretudo naquela que manipula o eleitorado religioso fundamentalista.

                Os próximos meses e o pós-pandemia dirão quais as chances de Sérgio Moro. Faz muitos anos que a Rede Globo não consegue eleger seu candidato à presidência da República – o último foi o Collor – e anda desgastada perante o público eleitor; o futuro político do ex-ministro está, portanto, incerto; a única coisa certa é que o golpe de 2016 continua dando errado.

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Bolsonaro nunca mais!

           SETORES da direita e da esquerda estão propondo o impeachment do presidente Jair Bolsonaro. O grito de “Fora Bolsonaro!” começou a ecoar num nicho da esquerda, ganhou adeptos em vários partidos desse espectro político, saltou para as janelas, sacadas e panelaços dos prédios de classe média, e já está ecoando também em vastos setores da direita.

            O que intensificou esse grito foi a participação do presidente, no último domingo, em uma manifestação de rua quando os manifestantes pediam intervenção-militar e a volta do AI-5. Houve reação da mídia, dos intelectuais, da OAB e de várias outras instituições, inclusive estatais; até o Procurador-Geral da República, autorizado pelo STF, resolveu investigar os responsáveis por essa manifestação que o presidente apoiou.

            Nessa última estrepolia do presidente houve, sim, mais uma estupidez: é estúpido um chefe de Estado participar de atos que incitam crimes contra o próprio Estado. Só mesmo um bolsonaro-da-vida para se meter nessas patacoadas. É um bufão inconsequente!

           Todavia, do ponto de vista legal, não me parece que essa conduta do presidente da República possa ser enquadrada na Lei dos Crimes de Responsabilidade, cujos tipos penais ensejam o impeachment. Salvo melhor juízo, sua conduta é penalmente atípica, não creio, pois, que haja um fundamento legal indiscutível para o impedimento de Bolsonaro – assim como não havia também nenhum fundamento jurídico para o impedimento da Dilma. É forçar demais a barra!

               O “conjunto da obra” do capitão – que vive atentando contra os demais poderes da República e contra a democracia, que não se cansa de fazer apologia da tortura e do regime militar – também leva a pensar no seu impeachment. Mas não é o caso. Não se pode banalizar esse mecanismo de destituição de presidentes eleitos pelo povo, como fizeram com Dilma Rousseff.

            E, de mais a mais, é preciso lembrar que as condições políticas para um eventual impeachment de Bolsonaro não estão colocadas. Tal empreitada seria, a meu ver, uma aventura jurídico-política arriscada demais.

          Com efeito, para derrubar um presidente da República é preciso que haja uma grande mobilização popular. Nesta hora, em que o povo brasileiro está confinado dentro de casa em razão da pandemia, não há nenhuma chance de levar o povo à rua para pedir a destituição do chefe de Estado, por mais que ele merecesse.

              Além disso, é notório que Bolsonaro tem o respaldo dos militares – tanto dos da reserva, que estão no governo, quanto dos chefes ativos das Forças Armadas, que não se pronunciam politicamente, mas têm evidente interesse em manter no comando do país um capitão que, embora amalucado, lhes bate continência.

         Ao contrário do que aconteceu no impeachment de Dilma Rousseff, a mídia está vacilante e rachada. Mesmo os órgãos da mídia tradicional que são críticos do governo, mesmo esses, ainda não se mostraram dispostos a ir até o fim, até ao ponto de destituir o capitão incompetente e rebelde – querem apenas mantê-lo acuado e sob controle.

             Por fim, deve-se considerar que Bolsonaro conta com o apoio de 28% da população. Sua popularidade está em queda, é verdade, mas ainda não chegou ao fundo do poço – ele tem fôlego para se manter por mais um tempo, apesar das encrencas que vem colecionando desde o início de seu governo – e inclusive agora, no meio da pandemia. Ele não é um fenômeno eleitoral – fenômeno são os fanáticos que ainda o apoiam.

          Em suma, penso que não há condições jurídicas nem políticas para o impeachment de Bolsonaro. Essa via, por mais desejável (e saudável) que seja, encerra um risco muito grande: se o presidente se safar do processo de impeachment (o que é bem possível) sairá fortalecido para impor seu projeto autogolpista de estabelecer um regime autoritário ou até mesmo uma ditadura civil-militar.

            Por todos os títulos, talvez fosse melhor manter o mandato do presidente até o fim, e, em vez de embarcar no “Fora Boslsonaro!” ou no “Impeachment já!, propor um “Bolsonaro nunca mais!” – a ver se o eleitorado do país vai tomando tento e, nas próximas eleições, democraticamente, remove esse problema do Planalto, saneie essa comorbidade que ameaça tanto a saúde da nossa democracia quanto a do povo brasileiro.

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Os cálculos do presidente

             ATÉ agora, o presidente Jair Bolsonaro não fez nada para combater a pandemia do coronavírus – só confusão. Começou negando a gravidade da doença (“gripezinha”). Divulgou a cura da Covid-19 com remédio que nem a medicina aprovou (cloroquina). Fez e faz uma teimosa oposição ao isolamento social, que é a única maneira de conter a epidemia. Demitiu seu ministro da Saúde em plena crise sanitária… Como pode?

      O que pretende, afinal, o presidente da República com esse comportamento inconsequente, que tem deixado a população brasileira atônita?

           Não há dúvida de que ele faz cálculos – não sanitários, mas políticos. Seu grande objetivo não é combater a pandemia – é tirar vantagens eleitorais dessa situação. Seus cálculos parecem arriscados, é verdade, mas a onipotência e a obsessão do presidente já deram mostras de que ele não se importa com riscos.

              Pois bem, quais seriam então os cálculos do capitão? Basicamente, são três.

           Primeiro, Jair Bolsonaro sabe que seus seguidores (ao redor de 28% da população) estão dispostos a apoiar suas ideias e decisões sejam elas quais forem. Mesmo as decisões tresloucadas, como essa de sair pela rua provocando aglomerações e tendo contato físico com as pessoas, disseminando o risco de contaminação pelo coronavírus, serão apoiadas pelo bolsonarismo.

          Isso garante ao presidente um capital político bem acima de 20% dos votos, com potencial portanto para pô-lo no segundo turno das eleições presidenciais em 2022. Não é qualquer político que conta com esse capital. Hoje, somente Lula teria um apoio equivalente. Mas Lula, muito provavelmente, estará fora do páreo.

            Esse cálculo feito pelo presidente é mais ou menos seguro – os seguidores do capitão apoiaram até aqui todas as suas maluquices e leviandades, por que não apoiariam mais um comportamento leviano, como esse que tem assumido em face da pandemia? O presidente vai, portanto, atiçar e apostar na polarização, contando com a fidelidade mórbida de seus seguidores.

            O segundo cálculo é mais ousado. Bolsonaro assumiu a retórica de que o país deve abandonar a quarentena para voltar ao trabalho, pois a economia não pode parar, e, se parar, a recessão e o desemprego serão também causadores de fome e desespero social. Com isso, pretende ser visto em 2022 como o único político que se preocupou com a derrocada econômica.

    Nesse jogo, Bolsonaro empurra para cima dos governadores e prefeitos a responsabilidade pela debacle econômica, que certamente virá, no pós-pandemia. Ou seja, quando a recessão bater à nossa porta, Bolsonaro dirá que é tudo culpa da quarentena adotada pelos governadores, contra a sua vontade, que queria ver o povo na rua, trabalhando.

           A pretensão do presidente, depois da pandemia, é aparecer como o único político corajoso, que teve uma visão de longo alcance, enxergando, antes de todo mundo, o desastre econômico que se anunciava junto com a crise sanitária.

           E há ainda um terceiro cálculo do presidente. Ele usa a chegada do coronavírus como desculpa para encobrir a falência e a incapacidade de seu governo no enfrentamento e superação da crise econômica que já estava instalada, antes da pandemia – “pibinho” em declínio. Ninguém fala mais dos programas (inexistentes) do Paulo Guedes. Assim, o naufrágio da sua política econômica neoliberal fica debitado exclusivamente na conta do coronavírus.

            Em suma, a pandemia é uma variável que será usada pelo presidente em seu projeto de reeleição. Ele faz cálculos políticos. E ainda se dá ao luxo de dizer que quem usa politicamente a crise do coronavírus são seus adversários – e não ele. A falange bolsonária, disposta a acreditar em tudo o que o “mito” faz e diz, acredita piamente que Bolsonaro é um gênio injustiçado.

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O recado do ministro

            A ENTREVISTA do ministro da Saúde, exibida ontem no programa Fantástico da Rede Globo, só não foi imediatamente explosiva porque Henrique Mandetta preferiu manter um tom racional e sóbrio – mas o conteúdo de suas declarações, esse sim, foi altamente demolidor.

               Quando perguntado se o comportamento do presidente da República, que sai às ruas provocando aglomerações e abraçando pessoas, era um comportamento de risco, contrário às orientações do Ministério da Saúde, o ministro não titubeou e disse com todas as letras: “É um problema!”.

               Ou seja, em plena crise do coronavírus, em vez de ser uma liderança no combate à epidemia, em vez de buscar soluções, o presidente da República é, ele mesmo, uma pedra no caminho, um agravante.

             Na entrevista, o ministro disse também que as autoridades do governo não se entendem, se contradizem, e deixam a população sem saber a quem seguir. Mais uma vez deixa nas entrelinhas – mas nem tanto – que o governo está sem liderança, e o presidente da República não comparece – se comparece, é para atrapalhar.

                   A certa altura, o ministro diz que o povo sofre também com as fake news sobre a epidemia. Muitas vezes as pessoas, diz ele, vão pra rua com base em notícias falsas. Há uma desinformação que gera o aumento do contágio e, consequentemente, das mortes. Essa foi direta para o presidente: Bolsonaro teve postagens excluídas do Twitter, WhatsApp e Facebook justamente por publicar informações mentirosas sobre o coronavírus.

             Por fim, Henrique Mandetta disse que, nesta hora, uma das bases de atuação do seu Ministério é a Ciência. A mesma Ciência que Bolsonaro ignora e insulta, menosprezando cientistas e apregoando a cura da Covid-19 com remédios que não existem.

               Em suma, o ministro da Saúde descolou de vez do seu chefe. Já há rumores de que os militares que tutelam o governo consideram que, desta vez, Mandetta “quebrou a hierarquia”. E Mandetta sabe disso, porque também é militar (médico do Exército). Logo, sabe o risco que está correndo – ou talvez seja um risco calculado, quem sabe desejado. Mandetta não é desses que dão ponto sem nó.

               De tudo isso, infere-se que estamos nas mãos de um governo não só incompetente, mas irresponsável. Aliás, fazer cálculos político-eleitorais em pleno auge de uma crise sanitária que ameaça ser um desastre humanitário, é mais do que simples irresponsabilidade – beira a tentativa de genocídio.

            Mas Bolsonaro é isso mesmo: um fracasso. E o pior é que ele nunca enganou ninguém: sempre fez questão de exibir sua ignorância e vulgaridade. Era um parlamentar do chamado baixo-clero; mas, bem entendido, nunca liderou sequer o baixo-clero; foi sempre um parlamentar obscuro, representante de seu próprio mandato – que exerceu por trinta anos sem fazer nada que preste.

             O médico e parlamentar Henrique Mandetta pode ser tudo, menos tolo. Nunca se aproximou dos ministros maluquinhos de Bolsonaro: Ernesto Araújo, Weintraub, e Damares; nem dos amalucados, Guedes e Sérgio Moro – todos “engolidos” pelo bolsonarismo de orientação bolsolavista.

            Com as últimas declarações, o ministro da Saúde se afasta do posicionamento de Bolsonaro, descolando-se também dos militares que sustentam o presidente. Por tudo isso, o ministro talvez esteja com os dias contados no governo. Só não pede demissão para não arcar com o desgaste de ter abandonado o barco nesta hora difícil; joga a tarefa para o capitão – capitão de um barco à deriva!

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Um presidente sem presidência

          “ACABOU, você não é presidente mais!”. Foi com essa frase que um haitiano abordou Jair Bolsonaro na frente do Palácio da Alvorada, no dia 17 de março, um dia depois de o presidente ter incentivado concentrações de pessoas e manifestações públicas contra o Congresso e o STF, e ter, ele próprio, cumprimentado seus apoiadores, contrariando as recomendações médicas de distanciamento social.

         A verdade é que o haitiano foi profético: o governo (ou desgoverno) de Jair Bolsonaro derreteu – ou derreteu-se. A maior e mais competente oposição a Jair Bolsonaro é o próprio Jair Bolsonaro.

             É notório que os militares que ocupam ministérios localizados no terceiro andar do Palácio do Planalto, ao lado do gabinete do presidente, assumiram de fato a presidência. Uma junta militar, liderada pelo general Braga Netto – que já é chamado de “presidente operacional” -, governa o país desde que o presidente eleito afundou de vez na crise do coronavírus.

       Isolado, desmoralizado e finalmente descartado, Bolsonaro de fato “acabou”. A imprensa e os analistas já o consideram uma “rainha da Inglaterra”: reina mas não governa. E faz tempo. Sabotado por si mesmo, por sua incompetência e malignidade, o presidente eleito nunca desceu do palanque, nunca governou.

            Desde o início de seu tumultuado governo, Jair Bolsonaro tem sido “tutelado” por militares, pelo Congresso e pelo STF. Quando não, é “guiado” por seus filhos que instalaram no Planalto o chamado “gabinete do ódio”. São incontáveis as vezes em que Bolsonaro tomou uma decisão e teve de voltar atrás.

          Anteontem, em mais um de seus desvarios, tentou demitir o ministro da Saúde Henrique Mandetta e não conseguiu. Fontes seguras informam que os militares – que hoje compõem o que eles mesmos chamam de Estado-Maior do Planalto – decidiram que Mandetta fica.

              Jair Bolsonaro, depois de bravatear publicamente dizendo que “usaria a caneta” para demitir o ministro da Saúde, teve de voltar atrás – guardou a caneta. Saiu desse episódio ainda menor do que entrou. Se o chefe do governo, há muito, já havia perdido a compostura, perdeu agora também a autoridade.

              Até mesmo empresas da comunicação, como Twitter, Facebook e Instagram, se deram o direito de desautorizar o presidente da República – excluíram várias de suas postagens. Vexame. E pior: as postagens foram apagadas porque o presidente do Brasil estava “promovendo desinformação”, quer dizer, mentindo; justamente numa hora de crise sanitária em que o país mais precisa de informações claras e, claro, verdadeiras.

               O quadro se completa com a “desobediência” de governadores e prefeitos que, em meio à pandemia do coronavírus,  não acatam mais as ordens do presidente. Puseram-no de lado. O que revela também o esgarçamento do pacto federativo: a população, aturdida, não sabe a quem obedecer.

              Nesta hora, para recompor a autoridade, definir as competências e salvar o pacto federativo era preciso que o país tivesse um ministro da Justiça à altura desses desafios. Mas, infelizmente, também nesse setor o Brasil está órfão. O ministro da Justiça afundou com a crise – sumiu.

                Moral da história: o presidente da República nem sequer demite ou nomeia seus ministros; e os que nomeou não atuam – são disfuncionais. A cadeira de presidente da República continua vaga. Jair Bolsonaro nunca esteve à altura dela e, portanto, nunca soube nem saberá ocupá-la; quando tentou, foi um desastre.

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Comparsa das crises

           O BRASIL está vivendo neste momento três grandes crises: uma crise sanitária (que assola o planeta); uma crise econômica (que ameaça desaguar numa recessão mundial); e uma crise de governabilidade, esta, especificamente brasileira, gerada exatamente por aquele que deveria evitar e administrar crises – o presidente da República.

             Ocorre que o presidente brasileiro não tem a menor condição de liderar o país nem de superar crise alguma. Pois ele não apenas é parte da crise como só consegue sobreviver politicamente em meio às crises.

             Comecemos pela sanitária. Quando o país mais precisava de informações seguras, prudência e tomada de decisões diante da pandemia de coronavírus, Jair Bolsonaro não teve sequer a capacidade (ou hombridade) de esclarecer à nação se ele próprio estava ou não contaminado pelo vírus. Escondeu seu exame, limitou-se a dizer que ninguém tinha nada a ver com isso.

             Quando o país mais precisava de liderança e união em torno de um planejamento comum de combate à epidemia, contrariando a ciência, as autoridades sanitárias e as políticas internacionais de isolamento social, Jair Bolsonaro cede à pressão de seus seguidores/financiadores e opta pelo fim da quarentena. Exorta as pessoas a voltarem às ruas e ao trabalho, rachando ainda mais um país à beira do abismo. (Já o estão chamando de “Capitão Corona”.)

             A crise econômica que atinge o mundo desde 2008 só tem se agravado no governo do capitão. Para enfrentar a recessão, Jair Bolsonaro adota medidas recessivas. As políticas monetaristas de Paulo Guedes não têm a menor condição de alavancar o crescimento econômico; ao contrário, impedem-no.

          Sim, o ministro Paulo Guedes adota a covarde “política do menos”: menos Estado (privatizações), menos investimento público (corte de gastos), menos dinheiro na mão do consumidor (corte de benefícios sociais e crédito popular), menos arrecadação… e, consequentemente, mais crise.

         Não bastassem todos esses problemas, o capitão aprofunda agora uma crise de governabilidade que vinha se desenhando desde o início tresloucado de seu governo. Está completamente isolado. Há pouco dias, quando já se prenunciava a crise do coronavírus, estimulou um protesto público contra o Congresso e o STF, isolando-se dos demais poderes.

        Agora, isola-se também em relação aos governadores e prefeitos, acusando-os de promoverem a quebra da economia e a fome no país. Não tem fim a irresponsabilidade desse indivíduo! Os governadores responderam dizendo que não seguirão as diretrizes indicadas pelo ocupante da presidência, ameaçando até com um “governo paralelo” de fato, à revelia do presidente.

             Até mesmo dentro de seu governo Jair Bolsonaro começa a isolar-se. Os dois ministros mais importantes nesta hora, um que trata da crise econômica e outro que trata da crise sanitária – Paulo Guedes e Mandetta – já se posicionaram publicamente contra as posições do presidente em relação ao isolamento social para combater a pandemia.

               Os militares, que dão sustentação armada e política ao (des)governo de Bolsonaro, salvo uma ou outra voz tão alucinada quanto a dele, também não aderiram às maluquices que o capitão propõe para enfrentar a crise sanitária; estão como a raposa na moita, só contemplando as peripécias do presidente bufão que trata uma pandemia de proporções globais como simples “gripezinha”.

           Por fim, Bolsonaro afasta-se também de seu público eleitor que já começa a se dar conta do equívoco que foi pôr na presidência da República um político ignorante e desmiolado. Os eleitores circunstanciais, que votaram nele apenas para votar contra o PT, já estão recuando; Bolsonaro ficará somente com seu eleitorado da extrema-direita – tão lisérgico quanto ele.

         Em resumo, ninguém mais ignora – nem à direita nem à esquerda – que Jair Bolsonaro foi um erro histórico. Lida com as crises atuais de olho em 2022; aposta no “quanto pior, melhor” para impor seu projeto autoritário. O capitão foi expulso do Exército porque queria explodir os quartéis; se não for expulso da presidência da República, poderá, enfim, dar vazão a seus instintos incendiários e explodir o Brasil.

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