Batendo cabeça

       ALGUMAS instituições, ou melhor, alguns setores de algumas instituições, em aliança escancarada com a mídia empresarial, tiveram papel decisivo no golpe de Estado que derrubou Dilma Rousseff em 2016; mas agora, esses setores golpistas, em disputa pelo poder, estão se desentendendo; batendo cabeça mesmo.

          Vejamos o desespero dessa turma que mergulhou o país na crise institucional em que nos encontramos hoje.

          A grande mídia – um dos setores golpistas – entrou em confronto com o governo do também golpista Jair Bolsonaro, a ponto de este último, por exemplo, cortar verbas de publicidade que antes eram destinadas à Rede Globo e que agora vão para a Record – do bispo aliado.

         A pequena mídia – sites, revistas e jornais online – que apoiou o golpe, está também desorientada nessa disputa de poder. O site O Antagonista publicou uma reportagem fajuta contra o ministro do STF Dias Tofolli, fazendo o jogo de desestabilização da Suprema Corte para impedi-la de julgar algumas questões, entre elas a prisão em segundo instância – que beneficiaria Lula.

          A Suprema Corte, que também foi decisiva no golpe – pela omissão -, mandou retirar essa reportagem da internet – é uma reportagem fajuta, mas nem por isso pode ser censurada – e foi mais longe: censurou quaisquer outras publicações contra ministros do STF; como se vê, está perdida a Suprema Corte.

      Ela mesma, numa decisão claramente inconstitucional (Judiciário não pode ter iniciativas investigatórias), determinou a instauração de inquérito para apurar supostas condutas de procuradores da república – alguns deles com participação decisiva no golpe de 2016 através da Lava Jato – suspeitos de veicular fake news contendo ofensas e ameaças aos ministros da Corte.

          Conhecendo esse inquérito, a procuradora-geral da república, Raquel Dodge, sem ter recebido o tal inquérito para nele atuar oficialmente, propõe um extemporâneo arquivamento dos autos. O Supremo Tribunal, no entanto, simplesmente ignorou esse pedido da procuradora-geral, mantendo em andamento um inquérito que ele, Supremo, não poderia ter instaurado.

          Como se vê, tá tudo errado: é a grande mídia batendo cabeça com o presidente eleito; é a pequena mídia batendo cabeça com o Supremo; é o Supremo batendo cabeça com o Ministério Público; é o Ministério Público reagindo ao Supremo… e o país paralisado; em todos os sentidos.

        É nisso que dá destruir o arranjo institucional dos regimes democráticos; essas instituições e a mídia, para derrubar um governo de origem popular, não se importaram com o Direito, com a Economia, com a Democracia, com o Bem-Estar do povo… e até mesmo admitiram flertar com o fascismo.

         Agora é essa bateção de cabeça que não sabemos aonde vai dar; tanto pode dar apenas na fanfarronice que estamos vendo quanto na ditadura, mais à frente.

            Os ministros de Jair Bolsonaro então… nem se fala. Não há um dia em que não saem batendo cabeça por aí; são o que a sabedoria popular chamaria de “zero à esquerda”. Ou alguém conhece algum plano, alguma medida desses ministros para impulsionar a economia, combater o desemprego, melhorar a educação, a saúde, a segurança, o transporte e coisas que tais? Nadica de nada: só blá-blá-blá.

             Quem vai pôr ordem nessa bagunça? Os bagunceiros é que não serão. Nem os seus apoiadores. E certos segmentos da sociedade civil, mais perdidos que cachorro em dia de mudança, também andam batendo cabeça: já estão até mirando soluções autoritárias como a intervenção militar, por exemplo.

            Em vez de bater cabeça é melhor pôr a cabeça no lugar. Faz tempo que a sociedade brasileira vem dando cabeçada e abusando do direito de errar. Nos últimos tempos, o que se viu foi uma sucessão preocupante de erros.

        Pretendiam eleger o corrupto Aécio Neves para combater a corrupção (erraram!); derrubaram uma presidenta legítima sem que ela tivesse cometido crime (erraram!); puseram no seu lugar um vice corrupto (erraram!); condenaram um ex-presidente sem provas (erraram!); elegeram em seguida um neofascista (erraram!); agora querem intervenção militar (estão errando de novo!) – até quando?…

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Estão matando a verdade

       FAÇA-ME o favor!, o presidente da república dizer que “o Exército não matou ninguém”, depois que soldados do Exército fuzilaram o carro de uma família, com oitenta tiros, e mataram o inocente pai que estava no automóvel, francamente, é no mínimo um escárnio; um deboche.

           E para completar, ainda vem o ministro da Justiça, feito boneco de ventríloquo de seu chefe, dizer que esse fuzilamento, e a morte do pai de família, foi apenas um “incidente lamentável”. Tenha dó, ministro: o nome disso é tragédia! Vamos combinar: ou esse povo é doido ou acha que todo mundo endoidou, que todos perderam a lucidez.

         Onde já se viu uma história dessas?! O Exército, por meio de seus agentes, matou, sim, o músico Evaldo Rosa. E matou violentamente. A justificativa é que foi engano. Ah, tá!, foi engano. Só que – alguém já disse -, o Exército e a polícia do Rio de Janeiro vêm matando há muito tempo e nunca se enganam quanto à origem socioeconômica e a cor da pele de suas vítimas.

          Em vez de reconhecer a gravidade do fato; admitir que houve evidente truculência por parte dos policiais; dizer – nem que fosse só para demonstrar algum senso de responsabilidade – que o fato será devidamente apurado e que os responsáveis serão punidos nos termos da lei, presidente e ministro, muitos dias depois, vêm dizer que o Exército não mata e que o caso foi só um incidente.

         O Exército mata, sim, e esse caso do Rio foi um crime hediondo; uma execução fria em tempos de paz – só se vê isso na guerra; e mesmo assim, na “guerra suja”. Não há discurso negacionista nem linguagem enfeitada que mude os fatos nem essa medonha realidade.

            Estes tempos andam estranhos demais. Muitos têm alertado para o fato de que uma das características destes “tempos estranhos” é a “morte da verdade”.

         Exatamente com esse título, A morte da verdade – notas sobre a mentira na era Trump, Michiko Kakutani, crítica literária do The New York Times há 40 anos, publicou livro apontando que, em nosso tempo, realmente, o “descaso com os fatos” e a “corrosão da linguagem” estão diminuindo o valor da verdade.

           Onde e por que isso aconteceu?, por que estão matando a verdade?

      Andam negando o Holocausto judeu na Segunda Grande Guerra; difamando as vacinas; sustentando que a Terra é plana; apregoando que o aquecimento global é coisa de marxista; negando a confiabilidade de urnas eletrônicas nas eleições; atacando a ciência e os cientistas… Enfim, andam plantando “fake news” e “fatos alternativos” a torto e a direito.

       Nos Estados Unidos, até hoje muita gente acredita que Barack Obama nasceu no Quênia e, portanto, não é norte-americano. Ainda acreditam que Saddam Hussein tinha arma química. Donald Trump queria prender Hilary Clinton e, na internet, acusava-a de ser cúmplice do escândalos sexuais de seu marido. Tudo coisa sem pé nem cabeça – Trump é troll.

          Aqui no Brasil, parecem que as coisas estão tomando esse mesmo rumo – do delírio: o atual presidente diz que o nazismo era de esquerda; nega que tivemos golpe e ditadura militar em 64; afirma que os negros são culpados pela escravidão; que os índios são latifundiários… e há gente crédula o bastante para acreditar nessas asneiras todas.

        Agora há pouco, o ex-ministro da Educação queria reescrever os livros de História para dizer que não houve ditadura no Brasil. O atual chefe do MEC, que também enxerga comunismo em todo canto, até na cúpula dos bancos, já disse que na Universidade brasileira só tem professor marxista.

         Coisa de louco! Quando muito, o que há na universidade são professores que estudam a obra de Marx porque não é possível ignorá-la; não é possível entender o capitalismo sem as contribuições teóricas desse pensador alemão – essa é a verdade; queiramos ou não. É falso que as universidades brasileiras estão “infestadas” de marxistas; só diz isso quem nunca pôs os pés lá – ou pôs os pés, mas não o cérebro.

          A quem interessa a mentira? A mentira, a distorção da realidade, interessa muito aos inimigos da democracia.

       Em todos os regimes fascistas, a primeira vítima é sempre a verdade. Ao tempo de Hitler, o chefe da propaganda nazista, Joseph Goebbels, costumava dizer que “uma mentira repetida cem vezes torna-se verdade”; pode ser que as mentiras do nosso tempo sejam um sinal de que o fascismo está rondando de novo – se estão matando a verdade, podem crer que a próxima vítima será a democracia; se é que ela já não foi pro beleléu.

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Só piora…

        DE onde menos se espera, daí é que não vem nada mesmo – a frase é do Barão de Itararé e parece aplicar-se inteiramente às erráticas decisões do presidente Bolsonaro. Ele não dá uma dentro; e quando volta atrás, quando tem a chance de corrigir o que fez de errado, erra mais ainda.

          Foi um erro colocar no Ministério da Educação o senhor Vélez Rodríguez. O homem não tinha nenhuma experiência de gestão pública; não conhecia os problemas e as prioridades da educação nacional; não tinha projeto; não tinha competência técnica nenhuma, sua equipe também não – um desastre.

          A pauta do ex-ministro era apenas seguir as orientações do guru Olavo de Carvalho, nomear para os cargos do ministério pessoas (ultraconservadoras) alinhadas ideologicamente com o governo; defender o militarismo e combater o que andam chamando de “marxismo cultural”.

          Pra complicar mais ainda, o ministro – sem pulso e sem conhecimento suficiente para tocar a pasta -, ficou refém das intrigas armadas por seu guru Olavo de Carvalho contra os militares que estão no governo. Vai entrar para a História como o ministro que mandou as crianças cantarem o hino nacional nas escolas e repetir o slogan de campanha do chefe – só isso.

        Agora, para “resolver” todos esses problemas deixados no MEC por um  ministro ruim, o presidente nomeia outro pior – Abraham Weintrub.

         Esse, tal como o ex, não tem nenhum conhecimento de causa, é um aventureiro sem nenhuma competência técnica na área da educação. Não tem experiência de gestão pública. Sua formação acadêmica está incompleta – sem o doutoramento, ainda não chegou sequer a atingir a “cidadania acadêmica” plena.

         Sua carreira profissional se fez toda na iniciativa privada (não por acaso é elogiado por donos de faculdades particulares!), trabalhou exclusivamente na área de finanças, em bancos privados. É, portanto, mais um agente financeiro alinhado a Paulo Guedes; legítimo representante do mercado rentista que nada tem a ver com direitos e educação – só com negócios e lucros.

         Mas, dizem que o novo ministro consegue ser ainda pior que o Vélez. Porque é mais esperto, mais afoito e muito determinado.

        É também um “olavete”, tributário das ideias amalucadas do astrólogo e jornalista Olavo de Carvalho. Tal como o deposto Vélez, promete seguir combatendo o “marxismo cultural” com unhas e dentes. Para tanto, já disse até que é preciso adotar a tática olavista, ou seja, utilizar argumentação irracional e xingar os comunistas – igualzinho ao “mestre” boca-suja.

           O novo ministro é tão desembestado que chegou ao ponto de dizer que o comunismo dominou o Brasil. Pois os nossos banqueiros, os barões da mídia e os grandes empresários são todos comunistas de carteirinha. Na ótica do ministro de turno, a FIESP talvez seja um petit comité da Internacional Socialista.

          É uma maluquice atrás da outra. Obscurantismo. Tem gente que acha que é tanta maluquice que só pode ser uma estratégia deliberada, de caso-pensado; não deve ser pura burrice e anti-intelectualismo; tem de haver alguma coisa por trás dessa insanidade toda!

             E há.

         A que vem o ministro atual, e a que viria o Vélez defenestrado? Eles, ambos, são porta-vozes da “nova direita”, gestados na onda neoconservadora que está se levantando no mundo todo. Chegou a hora deles. Suas estratégias são a caça aos comunistas (neomacartismo) para deixar livre o caminho do rentismo, pois o senhor a que servem é o capital financeiro.

           Não é pura burrice, ou simples birra para com os comunistas. O que eles querem é limpar o itinerário do neoliberalismo – querem afastar do caminho os que defendem o Estado do Bem-estar Social. Essa ladainha anticomunista é também uma fachada; o objetivo maior é destruir as políticas sociais do Estado e garantir o superávit para pagamento de juros a bancos e especuladores – esse povo não dá ponto sem nó!

           Com o novo ministro – mais do que com o Vélez santarrão -, haverá sim combate aos esquerdistas; é claro que haverá repressão a professores e doutrinação antimarxista, de extrema-direita nas escolas; lógico que haverá corte de verbas e intensa privatização do ensino… Mas não apenas por motivos ideológicos.

         Por trás de tudo isso, por trás da perseguição política e do sucateamento do ensino público, estão os negócios: o lucro da banca e os interesses da educação privada empresarial; essa é a lógica de um governo autoritário refém do mercado; de onde menos se esperam políticas públicas, daí é que elas não virão mesmo, senão apenas as políticas privatizantes do neoliberalismo – e a tendência, amigo, é seguir empiorando!

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A franqueza do presidente

         SE até o próprio Jair Bolsonaro diz que não serve para ser presidente da república, quem é que vai dizer o contrário? É surreal: o cidadão se candidata, diz que vai acabar com a violência, com a corrupção, que vai destravar a economia e fazer o país crescer, promete mundos e fundos e, depois, com menos de três meses no governo, descobre que não serve para o ofício?

        O ex-capitão disse que não nasceu pra ser presidente, e, sim, militar. Mas não é exatamente isso o que pensa o Exército brasileiro, que o expulsou de seus quadros. Para o Exército, portanto, Jair Bolsonaro está equivocado quanto à sua vocação profissional – não serve para ser militar também.

          Mas o presidente andou dizendo outras besteiras nesse sentido: afirmou que presidir o Brasil é um grande “abacaxi”, e que, graças a Deus, vai ficar por pouco tempo no cargo que o povo lhe outorgou; pra arrematar, disse que está apenas “tocando o barco”, ou seja, fazendo hora na presidência.

      E não parou por aí. Numa solenidade pública com profissionais da imprensa, referindo-se à sua chegada ao Palácio do Planalto, disse que “se deu mal”. Bem-humorado, virou-se para o ministro Sérgio Moro, que estava a seu lado e disparou: “Pode pegar o meu lugar!”.

          Tudo isso ocorreu às vésperas da divulgação de uma pesquisa Datafolha revelando que 30% dos brasileiros reprovam – como ruim ou péssimo -, o neonato governo de Bolsonaro. Ou seja, é o início de governo (três meses) mais mal-avaliado da história do país. Um recorde absoluto.

           Pesquisas anteriores já haviam apurado a vertiginosa queda de 15% na popularidade do presidente. Agora, constata-se que até seus eleitores (metade) já não confiam mais no comandante. Quer dizer: se a eleição fosse hoje, Jair Messias Bolsonaro não seria eleito; talvez nem fosse para o segundo turno. Mas agora é tarde.

         Pouco a pouco, Bolsonaro vai voltando a ser o que sempre foi; vai retornando ao seu verdadeiro lugar – de onde ele próprio acha que nunca deveria ter saído. Um candidato de extrema direita como ele raramente teria chance de chegar à presidência da república num país democrático – no mundo todo, conservadores extremistas nunca superam o patamar de 10 a 12% por cento do eleitorado.

       O que aconteceu no Brasil foi que, primeiro destruiu-se a democracia; abriu-se caminho para o discurso ultrarreacionário; manipulou-se midiaticamente a lenga-lenga da corrupção para impedir a continuidade de um governo de extração popular, propiciando-se, com isso, as condições políticas para a ascensão de um candidato folclórico, autoritário e sem programa de governo.

       Que o capitão era um político inapropriado para governar nosso país, continental e complexo, seu currículo já o dizia: tratava-se de um deputado do baixo clero que nunca foi levado a sério por seus pares. Que nunca apresentou um projeto de lei que justificasse seus trinta anos no Congresso. Que tinha um discurso neofascista e politicamente tosco.

            O que surpreende agora é que o próprio Bolsonaro se encarregue de dizer, ao vivo e em cores, que não serve para ser presidente da república; que a presidência é um “abacaxi”; que ele “se deu mal” com sua eleição; e que não vê a hora de pular fora do barco, que vai tocando só por tocar.

          Imagino a decepção dos muitos que confiaram no candidato e quase se estapearam em defesa dele nas ruas e nas redes!

       Não precisava tanta franqueza; Bolsonaro poderia evitar declarações assim, que parecem verdadeira traição ao seu eleitorado. Poderia muito bem descascar o “abacaxi” em silêncio; guardar para si a decepção com o cargo que ganhou nas urnas; e “tocar o barco” discretamente – em respeito aos brasileiros, aos seus eleitores e àqueles que financiaram sua campanha.

       Com efeito, bem que o presidente poderia ser um pouco mais arguto; se não mais sensato, pelo menos mais sagaz. Ou, se fosse o caso, poderia ao menos bancar o sagaz. Nem que fosse só pra disfarçar, pra inglês ver. O problema é que Bolsonaro está voltando a ser o Bolsonaro. E a argúcia e sagacidade, ainda segundo a pesquisa do Datafolha, também não são o forte do presidente.

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Só faltava essa

          GOVERNAR, o atual presidente ainda não governou; dizer como é que vai governar, isso não disse; mostrar um plano de governo, também não mostrou. O que é que fez Bolsonaro até agora? Só fez onda; ondas ideológicas e diversionistas que estão aprofundando o racha e as tensões no país – até entre seus correligionários.

       Ontem mesmo o líder da frente parlamentar da agropecuária (FPA) na Câmara, deputado Alceu Moreira (MDB-RS), esbravejou: “Chega!”. Ele se referia aos “meninos do Bolsonaro”. Irritado e em altos brados, deixou a Câmara dizendo “Acabou a paciência!”.

        O deputado sabe que a visita de Bolsonaro a Israel é desnecessária, improdutiva e inoportuna. E pior: pode dar prejuízo comercial (em médio e longo prazo) para o país, especialmente para o setor do agronegócio, que fez de tudo para pôr o homem lá no Palácio do Planalto.

          Dizem que os árabes não estão gostando nem um pouco dessa tietagem basbaque do capitão para com o premiê israelense Bibi Netanyahu. Eles, os árabes, são os nossos maiores compradores de carne, e ameaçam cortar a importação desse produto se a proximidade do Brasil com o governo de Israel se aprofundar.

          Mas o prejuízo não ficaria restrito tão somente ao setor da comercialização de carnes: o Golfo Pérsico, segundo dados do Siscomex, é detentor de fundos soberanos que estariam dispostos a fazer investimentos no Brasil, especificamente nas áreas de logística e infraestrutura.

           É por isso  que o agronegócio e setores da burguesia nacional andam de cabelo em pé com as bazófias e patacoadas do capitão e suas crias incontroláveis.

       A última foi do senador Flávio Bolsonaro, que usou o Twitter para provocar o movimento palestino-islamita Hamas. Referindo-se a esse grupo, que controla a Faixa de Gaza, o bravateiro senador tuitou: “Quero que vocês se EXPLODAM!”. O senador é valente, pero no mucho – já apagou a mensagem tuitada – as melhores coisas que esse povo do Bolsonaro tem feito é mesmo “voltar atrás”.

          Foi exatamente essa provocação do filho do presidente no Twitter que fez o líder do agronegócio na Câmara “explodir”: “Chega desses meninos do Bolsonaro, não dá mais!”. O deputado está preocupado com os prejuízos comerciais que uma provocação gratuita como essa pode gerar para o setor que representa.

         E tem razão o deputado. Mas há outros prejuízos: o Brasil preza por uma posição (histórica) de neutralidade perante o conflito árabe-israelense. Trata-se de um conflito religioso (e étnico) dos mais complexos, milenar. Não é, como diria o Tom Jobim, para principiantes.

           Meter o bedelho numa briga dessas, sem ser chamado e sem conhecimento de causa, é uma porra-louquice que não se espera de um senador.

          Não dá pra dizer que a decisão do Bolsonaro-pai de abrir um escritório em Jerusalém (medida totalmente desnecessária) e a provocação de seu filho ao grupo Hamas colocam o Brasil na rota do terrorismo internacional. Não dá. São atitudes ideológicas e desastrosas do ponto de vista diplomático e comercial. Só isso… por enquanto.

         Mas que esse povo do Bolsonaro anda procurando chifre em cabeça de cavalo, ah!, isso anda. E faz tempo.

          Vê lá se o capitão-presidente tinha de se meter com a Venezuela, ameaçando invadir ou ajudar os Estados Unidos a invadirem o país vizinho; vê lá se era caso de cogitar a mudança da embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém; vêm lá se é pra sair no mundo elogiando ditadores como Alfredo Stroessner e Augusto Pinochet; vê lá se precisava provocar o Hamas…

          Só faltava agora aos brasileiros, tão distantes de toda essa pendenga étnico-religiosa do mundo árabe-judeu, andarem preocupados com as explosões do Hamas, cuja existência e objetivos mal conhecemos, e muito de longe. Só mesmo um desavisado para pôr esse tipo de problema na ordem do dia, na pauta dos brasileiros – que têm muito mais o que fazer; muito mais com que se preocupar.

          Vamos trabalhar, pessoal!

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O papo-furado sobre ditadura

          ME entendam bem, por favor: ditadura é coisa séria, não pode ser minimizada nem esquecida; precisa ser lembrada e combatida sem trégua, sem concessões. Ditadura, portanto, não é papo-furado; papo-furado é o papo do Bolsonaro sobre ditadura, determinando a comemoração do golpe de 64, neste domingo.

          E por que o papo do presidente é furado?

        Porque ninguém deu bola. A mídia, que ajudou a colocar o capitão na presidência e agora está com um pé atrás tentando controlar o autoritarismo dele, tratou logo de desestimular essa ideia; passou a pulverizar no noticiário fotos, reportagens e entrevistas que lembram os “probleminhas” e os crimes da ditadura.

          Nem a cúpula das Forças Armadas deu trela ao capitão. Ficaram constrangidos com a nota de que o Ministério da Defesa deveria tomar providências e iniciar os preparativos para comemorar este 31 de março. Os militares desconversaram; ninguém acatou a ordem do presidente.

     Aliás, nem o próprio prestigiou sua ordem: escafedeu-se para Israel, não está comemorando golpe nenhum.

          Está lá, paparicando o chefe de um Estado bélico (Bolsonaro tem fixação por tudo que diz respeito a bélico, arma, ataque etc. – é belicoso, portanto!) parceiro do expansionismo (também bélico) norte-americano; um Estado sionista (o povo judeu não têm nada com isso!) que mantém a céu aberto, sob armas, a maior prisão do mundo – Gaza.

          Consta que o capitão, logo após emitir a ordem pra comemorar o golpe castrense de 64, suavizou, desdisse-se: esclareceu que seu texto era apenas pra ser lido nos quartéis, e não pra comemorar a “revolução” militar. Quer dizer: deu em nada sua exortação; era só papo-furado mesmo, marola.

        Mas cabe a pergunta: por que será que o Bolsonaro faz esse barulho todo, levanta questões de conteúdo moral, comportamental e cultural, atiça o bate-boca entre democratas e antidemocratas, progressistas e conservadores e depois dá o fora, ou volta atrás?

         Por sinal, desdizer-se e recuar são as únicas coisas que Bolsonaro tem feito nestes três meses de presidência, a ponto de alguém afirmar outro dia que voltar atrás é a melhor coisa que ele sabe fazer.

         E de fato é. Porque o que ele fez na saúde? Cortou investimento. O que ele fez na educação? Desarranjou o MEC. O que ele fez na economia? Estagnação e desemprego (12,4%). O que ele fez em relação à desigualdade social? Cortou benefícios sociais. O que ele fez para os trabalhadores? Tirou mais direitos. O que ele fez para preservar nossas riquezas? Entregou o pré-sal. E nossas empresas públicas? Está privatizando.

         Vejam, se ele voltasse atrás em tudo isso já seria uma bênção; mas não se iludam, o capitão veio pra quebrar tudo isso, obstinadamente.

        Pensando assim, dá até pra entender por que vira e mexe ele arma todo esse babafá em torno de questões morais, culturais e comportamentais. Sem contar as questões místicas: Deus acima de todos; Jesus na goiabeira; derrota do marxismo cultural com a ajuda da Providência… Esse povo é doido, cara!

         Enquanto isso, sem nada pra oferecer ao país em termos de crescimento econômico, geração de emprego, justiça social, ciência e democracia, o capitão-presidente vai distraindo o respeitável público com seus malabarismos e estrepolias de picadeiro.

        Desvia a atenção dos distraídos, faz uma cortina de fumaça para esconder seu não governo e, de quebra, tapeia boa parte daqueles que já estão deixando de falar no “laranjal”; não estão mais preocupados com quem mandou matar Marielle; estão esquecendo a investigação sobre vínculos com milícias; sobre desvio de dinheiro público nos gabinetes parlamentares; e dinheiro na conta da primeira-dama.

      Tudo isso vai ficando pra trás: o importante é discutir onde ficará a embaixada brasileira em Israel; se a nossa população deve ou não andar armada; se devemos ensinar sociologia e filosofia nas escolas; se o marxismo cultural está mesmo dominando o mundo; se o Trump será reeleito no ano que vem; se a Venezuela deve ser invadida; se aideologia de gênero é perniciosa; se devemos comemorar ditadura ou se o “golden shower” é imoral.

         Como diz um ditado por aí: “Se fechar, vira hospício; se fechar e cobrir, vira circo”. E olhem que maluco e artista não faltam – nem plateia: o público do capitão diminuiu, mas não acabou; portanto, seguirá havendo espetáculo – podemos esperar, sim, novas apresentações dessa trupe que chegou saltitante e promete ficar em cartaz por uma boa temporada.

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Não tem lógica

         TRÊS meses de governo e ninguém sabe aonde o país vai parar. Não há projeto, não há rumo, não há coerência. Tampouco sensatez, bom senso. É tamanha a incongruência do governo bolsonário que ele tanto pode desintegrar-se por sua própria fraqueza quanto, no outro extremo, transformar-se num regime de força – ditadura militar ou policial.

    A popularidade do capitão despencou 15% desde a posse – um recorde. Até os “patrocinadores” do atual chefe de governo (mídia, mercado, novos-ricos, evangélicos e burguesia tradicional) estão desorientados, não sabem o que fazer para pôr alguma ordem na casa. O ocupante do Planalto parece alheio à realidade; não obedece a nenhuma lógica racional.

          Vejamos alguns exemplos. A começar pelo lema do candidato: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

         Durante a campanha, o presidente apregoava a supremacia do Brasil, insinuando um certo nacionalismo – tosco, é verdade; só que agora faz um governo entreguista: entregou o petróleo às multinacionais, está entregando as refinarias da Petrobras, já entregou a Base de Alcântara e abre mão da soberania nacional, alinhando-se de maneira subserviente (e ridícula) à política imperialista dos Estados Unidos.

          Colocam o Brasil “acima de tudo”, mas ridicularizam o país lá fora; a política externa brasileira tem sido objeto de chacota no âmbito internacional – a imprensa estrangeira perdeu o respeito para com o governo brasileiro; considera-o folclórico, estúpido, hilariante.

         Durante a campanha, e ainda agora, o presidente vivia e vive falando em Deus, enfia Deus em tudo quanto é lugar; só que defende a ditadura e a violência, faz apologia de torturadores, de grupos de extermínio e milicianos; quer armar a população para fazer a guerra contra os que considera bandidos extermináveis.

     Fala tanto em Deus, mas só pensa em arma, extermínio, tortura, eliminação, violência!…

      Logo após o trágico massacre de Suzano, no mesmo dia, quando se esperava do presidente um discurso sensato e pacificador, ele declarou à imprensa que vai mandar seu projeto de lei ao Congresso para flexibilizar o porte de arma; e seu filho, senador, no mesmo dia da tragédia, apresentou seu primeiro projeto ao Senado regulamentando a instalação de fábrica de armas no país.

        Jair Bolsonaro elegeu-se com o discurso moralista da anticorrupção e do antissistema, prometendo sepultar a “velha política” e pôr todos os corruptos na cadeia; só que agora não consegue explicar nem mesmo o dinheiro depositado na conta de sua própria mulher, por um miliciano; tampouco explica as verbas parlamentares (públicas) que ele e seus filhos recebem por meio de funcionários-fantasma em seus gabinetes.

          O governo usa caneta Bic, mas amplia gastos com cartões corporativos!

        O chefe de governo, e seus ministros da área econômica, asseguravam que a reforma trabalhista iria modernizar o país, alavancar a economia e gerar mais empregos; só que agora, ao tirar direitos dos trabalhadores, o desemprego explodiu (está em 12,4%; na era Dilma estava em 4,5%) e a economia só anda pra trás.

        Agora, na tramitação da reforma previdenciária, a “bala de prata” do governo – pois é seu único projeto -, bem no momento em que o presidente precisa fazer uma delicada articulação política com o Congresso Nacional, o chefe de governo (e seus filhos) arranja uma briga estúpida com o presidente da Câmara, pelo Twitter, pondo em risco a aprovação da proposta governamental para a Previdência.

      Em favor dessa reforma, o presidente argumenta que evitará a quebra do sistema previdenciário e, com isso, protegerá os mais pobres. Só que sua proposta aniquila o benefício de prestação continuada (BPC), que beneficia os pobres e as pessoas com deficiência; dificulta o acesso deles à aposentadoria, aumentando tempo de contribuição e idade mínima; diminui o valor dos benefícios até dois salários mínimos – não tem lógica.

       O próprio ministro da Justiça, que iludiu muita gente com sua aura fabricada de paladino da ética, enquanto foi juiz dizia que o crime de “caixa dois” era grave – até mais grave que corrupção. Só que agora, como ministro de Bolsonaro, diz que esse delito não é tão grave assim, e passou a andar de braços dados com seu colega Onyx Lorenzoni, um réu confesso do crime de “caixa dois” – cadê a lógica?

           Bolsonaro dizia que seus ministros seriam escolhidos a dedo, apenas por critérios de competência técnica. Só que pôs no governo uma Damares, um Vélez, um Ernesto Araújo e um especulador financeiro como Paulo Guedes, sem nenhuma experiência de gestão pública – notórios incompetentes para o trabalho a que se prestam.

        Tanto é verdade que, há poucos dias, o presidente disse ter disposição para ouvir todos os seus ministros técnicos – “até a Damares”; num ato-falho que revela sua contradição interna e o desprezo que tem por seus auxiliares.

        Contradição suprema: Jair Bolsonaro se apresenta como um homem forte, durão, até autoritário – desses que mandam prender e mandam soltar; só que seu governo é de uma fragilidade estonteante: vai e volta; diz e desdiz; não tem nada a oferecer aos brasileiros. Seu governo é, como disse o presidente da Câmara, “um deserto de ideias”.

       A verdade é que o governo (ou desgoverno) de Jair Bolsonaro virou um abismo de contradições – e de incompetência. É óbvia a ingovernabilidade gerada por ele próprio e sua equipe mal formada. O país está à deriva. Dizem que o presidente já não preside mais nada. O “Mito” (não sei de onde tiraram isso!) está se desfazendo por si mesmo; transformou-se num constrangimento.

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