Pesquisas e palpites II

        AS ÚLTIMAS pesquisas para a presidência da república (CNT/MDA, Vox Populi, Ibope e Datafolha), em uníssono, confirmam algumas tendências do eleitorado, já detectadas em pesquisas anteriores, de modo que o cenário eleitoral vai ficando cada vez mais claro, mais definido – ou menos incerto.

           A primeira constatação é que Jair Bolsonaro estacionou num patamar próximo a 28% das intenções de votos; Fernando Haddad está em crescimento (cresceu 12% numa única semana) e aparece agora com 17% na preferência do eleitorado; Ciro Gomes caiu alguns pontos e se mantém próximo a 11%; Marina Silva e Geraldo Alckmin caíram e continuam entre 6% e 8%; os demais correm por fora.

            O único crescimento real mesmo, para além da margem de erro, é o de Fernando Haddad. E os novos números e tendências já permitem alguns palpites. O primeiro deles: haverá segundo turno; nenhum dos primeiros colocados na preferência dos eleitores tem condições de liquidar a fatura na primeira rodada.

           Outro palpite: a disputa em segundo turno será mesmo entre Bolsonaro e Fernando Haddad. Este último tende a crescer ainda mais agora que o TSE, por unanimidade, permitiu o aparecimento de Lula no horário eleitoral. O crescimento será significativo: já há pesquisas de bancos e Tracking de partidos políticos indicando que Fernando Haddad está bem acima do que indicam as pesquisas tradicionais.

     Num segundo turno entre Haddad e Bolsonaro, portanto, entre o candidato da esquerda e o da direita, qualquer palpite será sempre arriscado, porque, como se diz no meio político, “segundo turno é outra eleição” – será preciso esperar que passe a “ressaca” do primeiro turno pra arriscar qualquer previsão.

       Nada impede, porém, algumas especulações. Será uma eleição bastante apertada; provavelmente nos mesmos moldes da última, entre Dilma e Aécio, em que os votos foram disputados palmo a palmo, urna a urna, até que, na última hora, a votação do Nordeste descesse como um tsunami, varrendo as pretensões de Aécio que já se preparava para comemorar a vitória.

        O atual candidato da direita, ou melhor, da extrema-direita, conta com o votos dos ultraconservadores fundamentalistas, daquilo que chamam de “Brasil profundo”. Esses, nunca passaram de 12% do eleitorado. Portanto, Jair Bolsonaro, se fosse contar apenas com os votos daqueles que se identificam com ele e com suas ideais reacionárias, não iria sequer para o segundo turno.

         Mas, além dos eleitores que se afinam naturalmente com Jair Bolsonaro, é quase certo que ele catalisará o voto de boa parte do antipetismo, que já compreende também seu próprio eleitorado. Uma parte dos antipetistas, porém, sobretudo mulheres, negros, pobres e algumas minorias, não engolem o Bolsonaro, e tenderão a votar em branco, anular o voto ou nem sequer comparecer às urnas.

            A grande mídia comercial e conservadora, que defendeu abertamente (até por meio de editoriais) a candidatura da direita em 2014, de Aécio Neves, não terá agora a mesma desenvoltura para defender a candidatura de Bolsonaro, simplesmente porque o candidato e suas ideias são, para dizer o mínimo, indefensáveis.

        Mesmo assim, a mídia reacionária deverá apoiá-lo contra o petista. Mas muitos profissionais da mídia, sobretudo jornalistas “com currículo” e independência, articulistas livres e formadores de opinião, também não engolem o candidato da extrema direita, e dificilmente se empenharão em elegê-lo, como muitos fizeram quando o candidato era o então palatável Aécio Neves.

           Isso permite concluir que Bolsonaro terá menos votos que Aécio em 2014, que teve 48% da votação nas urnas, enquanto Dilma Rousseff venceu com 51%. Isso significa que a abstenção e os votos nulos e brancos, que em 2014 somaram 28% do eleitorado, deverão subir significativamente em 2018.

        E o Haddad? Bem, o petista tem lá seu próprio eleitorado – foi um dos melhores ministros da educação que o país já teve e administrou o maior PIB municipal do Brasil, São Paulo, capital, com 12 milhões de almas. Esse cacife não seria suficiente para elegê-lo, mas ele conta com o apoio decisivo de Lula e com a militância petista, que depois do golpe parece ter acordado definitivamente – resta saber se Haddad repetirá a votação de Dilma.

           Palpite? Digo que sim, Haddad tem tudo pra repetir Dilma Rousseff e se eleger. E vou mais longe: é disparadamente o favorito. Mas, sobre o segundo turno, como diria o conselheiro Acácio, é melhor esperar.

            Candidato por candidato – abstraídos as forças e os partidos que estão por trás deles -, não tem comparação entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro – bastaria um simples debate entre ambos para se perceber logo o preparo do primeiro e o destempero do segundo; a densidade de um e a bizarrice do outro – a candidatura da extrema direita é folclórica, absurda.

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Isso é democracia?

           DEMOCRACIA é o governo do povo – simples assim. Ou seja, é o regime em que o povo escolhe livremente seus representantes, seus mandatários – observando sempre uma regra de maioria. Trata-se, claramente, de um regime ou sistema político assentado na vontade e na soberania popular.

      Essa é a chamada “democracia moderna”, ou “democracia representativa”, ou “democracia liberal burguesa”. O princípio da soberania popular, segundo o presidente norte-americano Abraham Lincoln, repousava numa fórmula simples: “Um homem, um voto”, quer dizer: nas democracias o voto de cada eleitor vale o mesmo tanto, tem o mesmo peso na hora de escolher os governantes.

     Acontece, porém, que a democracia moderna e representativa, por causa do desenvolvimento, complexidade e hipertrofia do sistema capitalista, no mundo todo, se aproximou e se envolveu demais com os negócios – com o mercado; com a economia. E era mesmo natural que isso acontecesse, pois o Estado tem inserções nos domínios econômicos, e a economia se entrelaça também com os interesses do Estado – tudo normal.

             Desse modo, política e mercado, democracia e dinheiro passaram a ter uma relação muito próxima – mas que foi ficando promíscua. O dinheiro passou a financiar a democracia; o mercado foi subjugando a política. É assim em todo o mundo capitalista; essa é a democracia possível no capitalismo.

           Daí por que as campanhas eleitorais ficaram completamente “financeirizadas”, ou seja, sustentadas pelo dinheiro. Isso começa a ameaçar a tal “soberania popular”, que é a pedra de toque, a regra de ouro das democracias. Começa a implodir a ilusão de Abraham Lincoln quanto ao peso do voto de cada cidadão – pois os endinheirados (e as grandes empresas) passaram a ter um peso maior (e decisivo) no resultado das eleições.

             Em razão disso, surgiu até um ditado que diz: “As empresas não votam, mas elegem candidatos”. E os ricos votam num único candidato, mas financiam muitos. Logo, a vontade dos endinheirados – e não a do povo – é a que realmente prevalece nas democracias liberais burguesas – aquela história do “Um homem, um voto” virou balela; conto de fadas.

            Como resolver essa distorção? Ela é insolúvel. A democracia capitalista, em maior ou menor grau, acaba sendo sempre um governo dos ricos – uma plutocracia. Naquela que é considerada a maior democracia burguesa do mundo, os EUA, o financiamento de campanhas por meio de doações privadas é amplamente admitido, ou seja, os ricos financiam candidatos a seu bel-prazer… e definem o rumo das eleições.

         O financiamento privado de campanhas eleitorais, que está na raiz da corrupção política; as vinculações da democracia ao mercado; e a sujeição dela (democracia) ao dinheiro dos ricos constituem, sem dúvida, os ingredientes de sua maior crise – uma crise mundial que poderá até levá-la à morte.

         Aqui no Brasil, o Supremo Tribunal Federal proibiu o financiamento privado de campanha por parte de empresas; mas não proibiu (nem limitou) as doações de pessoas físicas – portanto, os indivíduos ricos (e as empresas, por meio de seus presidentes, sócios-proprietários e executivos) continuarão financiando a democracia, transformando-a numa plutocracia disfarçada – ou nem isso: numa plutocracia descarada mesmo.

       Na atual campanha já se fez um balanço: empresários e políticos com grande patrimônio respondem por 93% das doações privadas aos candidatos. E isso sem contar o problema do autofinanciamento dos candidatos ricos, que bancam as próprias campanhas milionárias. Agora em 2018, entre os dez maiores doadores de campanha, a metade (cinco) é candidato – Henrique Meirelles é um deles.

       Dá a impressão de que a democracia burguesa – que Lincoln enxergava como o “governo do povo, pelo povo e para o povo” -, vai mesmo se transformando numa falácia; num simulacro. Isso quer dizer que devemos boicotá-la e não comparecer às urnas? Ou votar em branco? Ou anular o voto? Não, não. O voto, por mais que as votações estejam influenciadas pelo dinheiro dos ricos, ainda é, no mínimo, um instrumento de resistência.

       Mesmo que o mundo capitalista não esteja mais vivendo numa democracia real; mesmo que a democracia liberal burguesa, no fundo, no fundo, tenha se transformado de fato numa plutocracia; mesmo assim o voto popular ainda é uma “arma” poderosa a ser utilizada pelo povo; em defesa de seus próprios interesses.

          Mas, apesar de ser uma “arma”, não se trata de uma arma qualquer. Como dizia o próprio Abraham Lincoln, que tanto acreditava na democracia, “O voto é mais forte que a bala” – e talvez possa ser, se usado com consciência política para eleger candidatos do campo genuinamente popular, mais forte que o dinheiro. Quem sabe?!

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Pesquisas e palpites

          PESQUISAS eleitorais – dizem os especialistas – só servem para detectar a tendência do eleitorado num determinado momento. Portanto, dali a pouco o cenário já poderá ser outro e a pesquisa ficará datada; os resultados se alteram constantemente e na verdade o que dá pra captar é apenas a “tendência” dos eleitores – não um resultado com alto grau de certeza ou probabilidade.

       Na pesquisa para a presidência da república, divulgada hoje pelo Datafolha, a “tendência” que se vê dentro da margem de erro é: Bolsonaro estacionado na frente com 26%; Ciro Gomes estacionado em segundo com 13%; Alckmin estacionado em 9%; Marina Silva despencando de 16% para 8% (uma queda e tanto); e, finalmente, Fernando Haddad crescendo de 9% para 13%, igualando-se a Ciro em segundo lugar.

       Ou seja, a “tendência” (“tendência”, repito!) neste momento revela que Bolsonaro, Alckmin e Ciro permanecem estacionados; Marina despenca em queda-livre; e o único que cresce (para além da margem de erro) é Fernando Haddad. Seu crescimento é atestado também pelas pesquisas informais dos bancos.

       Aí começam as especulações.

      A facada no Bolsonaro, que poderia catapultar sua candidatura em razão do sentimento de piedade que às vezes se apossa do eleitorado em casos assim, não alterou nada as intenções de voto; o candidato não saiu “beatificado” desse episódio – muito provavelmente por causa de seu estilo beligerante, truculento; haja vista que sua rejeição também cresce.

        A candidata Marina Silva – ao contrário do que ocorreu na eleição passada quando muitos apostavam que ela chegaria ao segundo turno depois da morte acidental de Eduardo Campos -, parece ter descido para sua posição original, de onde nunca saiu: mera coadjuvante da direita – Marina é a esquerdista que a direita usa pra rachar a esquerda, só isso.

             O ex-governador Geraldo Alckmin parece mesmo incapaz de chegar aos dois dígitos na intenção do eleitor – não empolga nem mesmo os caciques de seu partido. Sua candidatura, provavelmente, afundará junto com o PSDB, que já anda aí, feito Madalena arrependida, a fazer um mea-culpa sobre o fato de ter embarcado no impeachment da Dilma e no governo do Temer.

            Como Fernando Haddad foi o único que subiu, quatro pontos percentuais logo após a oficialização de sua candidatura no lugar de Lula, pode-se especular que já está em movimento o fenômeno da “transferência de votos” – do Lula, impedido pela Justiça, para o Haddad, que o representa perante o eleitorado.

        Apesar de falarmos apenas em “tendências”, uma conclusão já se entremostra muito provável: desta vez não teremos no segundo turno a reedição do fla x flu, PT versus PSDB. O candidato do PT tem chance de ir para o segundo escrutínio, mas o do PSDB está fora: foi abandonado pelo “centrão”, que ele havia conseguido trazer para o seu lado e que era seu maior trunfo.

         O resultado das eleições está incerto? Claro. Toda eleição supõe um resultado incerto. O cenário está muito nebuloso? Mais ou menos. As coisas começam a clarear – pelo menos em termos eleitorais -, e algumas análises, muito embora tímidas, já são possíveis – coisa que até há poucos dias ninguém se arriscava a fazer.

        Prognóstico? É cedo. Para confirmação dessas “tendências” do eleitorado é preciso esperar um pouco mais – esperar mais alguns dias; mais algumas pesquisas. Palpite? Só com muita cautela. O mais provável, pela tendência atual, é Bolsonaro e Haddad no segundo turno; não seria surpresa nenhuma se fosse Bolsonaro e Ciro; nem mesmo Ciro e Haddad na segunda rodada me surpreenderia – mas é só palpite, hein?!

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Democracia adiada ou odiada?

            MUITO se engana quem pensa que a democracia é um objetivo universal – uma aspiração de todos. No seu impressionante ensaio, O ódio à democracia, o filósofo Jacques Rancière deixou claro que a elite ou intelligentsia dominante, que se julga superior e qualificada para “dirigir o rebanho cego”, tem ódio à igualdade, não admite a partilha de poder, e, por isso mesmo, odeia a democracia com todas as forças.

           O Brasil de hoje é um exemplo fulgurante dessa constatação feita pelo filósofo argelino-francês. Quando estávamos erguendo uma democracia com mais igualdade e mais liberdades públicas, depois de vinte anos de regime militar, a elite brasileira (apoiada por uma classe média alienada) aplica um golpe de estado no país, toma o poder à força, e interrompe a construção democrática.

               O governo golpista – se é que se pode chamá-lo de governo! – a primeira coisa que fez foi trazer novamente os militares para o centro da política. Eles estão ocupando postos importantes no governo atual, passaram a opinar sobre direitos, eleições e legitimidade dos governantes.

              Em parceria com a grande mídia golpista – que odeia a democracia pelas razões já apontadas por Jacques Rancière – os militares, pouco a pouco, vão se instalando no governo e na vida política do país.

            Às vésperas do julgamento de Lula – o maior líder popular da América Latina – um comandante das forças armadas, por meio do maior grupo de mídia brasileiro, se viu no direito de pressionar o STF para não conceder habeas corpus ao ex-presidente encarcerado.

              O homem que – na ausência de Lula – lidera as pesquisas de intenção de votos para a próxima eleição presidencial (e não por acaso tem mais votos no seio da elite brasileira) é um ex-militar com ideias neofascistas. Seu vice é outro militar, que já admitiu a possibilidade de aplicar um “autogolpe” e instalar um regime de exceção caso sejam eleitos pelo povo.

          O comandante do Exército concedeu ontem uma entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, um dos de maior circulação no país, para dizer que a legitimidade do governo eleito pelo povo no próximo escrutínio poderá ser algo discutível, e, portanto, algo que poderá ser corrigido por uma intervenção autoritária – para substituir o voto do povo e “tutelar” a democracia.

            Não por acaso, no dia anterior às declarações do dirigente do Exército, o jornal de maior circulação no país, Folha de S. Paulo, publicou uma pesquisa revelando que 72% dos moradores do Rio de Janeiro querem prorrogar a intervenção militar na segurança pública do estado.

            Há muitos grupos na rua, nas casas, nos lares e nos bares clamando pela volta do regime militar, ignorando, olimpicamente, o quanto houve de violência, de destruição de direitos e até de corrupção durante os governos de exceção instalados aqui em 1964. Há muita gente aplaudindo a volta dos militares à cena política, ignorando que nas democracias o poder armado não pode fazer política.

             A maioria dos brasileiros ainda não se deu conta: mas já estamos vivendo sob uma potencial tutela militar – isso é tudo o que a elite dirigente precisa para impor ao povo suas políticas e suas pautas econômicas – as pautas do “austericídio” que arrasaram muitos países da Europa e estão arrasando agora a Argentina.

            Por todas essas manobras, que envolvem os poderes coercitivos do Estado – e até o poder das armas -, não há dúvida de que, além de adiar, a elite brasileira, e os desavisados que a imitam, odeia a democracia, que vinha sendo construída no Brasil a duras penas, desde a Constituinte de 1988. O discurso das nossas elites é cinicamente democrático; sua prática autoritária, porém, é mais coerente com o que elas realmente são.

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Um tribunal para Lula

            SEMANA passada o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu que Lula da Silva está inelegível, não pode mais ser candidato. Era uma decisão já esperada. Apenas as Polianas incuráveis é que poderiam esperar outra coisa. Só mesmo os eternos Cândidos de Voltaire acreditavam que a Justiça Eleitoral fosse deixar o ex-presidente concorrer de novo à Presidência da República.

             Mas, não seria nenhum absurdo se o TSE admitisse a candidatura de Lula da Silva, pelo menos por enquanto.

             Pois é isso o que manda a Constituição Federal quando diz, no seu art. 5º, inciso LVII, que os condenados criminalmente, mesmo depois de condenados, não podem ser tidos como culpados antes do trânsito definitivo da sentença penal condenatória – como é o caso do Lula.

               É isso o que diz a Lei Eleitoral (Lei 9.504/97), no seu art. 16-A, quando assegura que “o candidato cujo registro esteja sub judice poderá efetuar todos os atos relativos à campanha eleitoral, inclusive utilizar o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão e ter seu nome mantido na urna eletrônica”.

             É isso o que determina a jurisprudência do próprio TSE que, aplicando o art.5º, LVII, da Constituição Federal acima citado, sempre entendeu que candidatos na situação de Lula podem, sim, participar das eleições – só nas últimas eleições municipais quase 150 prefeitos concorreram nessas condições, todos eles autorizados pelos tribunais eleitorais.

          É precisamente isso o que impunha a decisão do Comitê de Direitos Humanos da ONU que, ao contrário do que muita gente “interessada” diz, é lei, e, portanto, deve ser obedecida, como em qualquer Estado de Direito que se preze.

              Mas nada disso valeu para o Lula. Nem a Constituição. Nem a Lei. Nem a decisão da ONU. Quando isso acontece, quando as autoridades incumbidas de aplicar o Direito não o aplicam, costuma-se dizer que o jeito é reclamar para o bispo. Mas nem isso adianta no caso do Lula.

            O papa Francisco, numa declaração surpreendente ao Jornal do Vaticano, disse, com todas as letras, que nos tempos atuais a mídia comercial se especializou em destruir reputações de políticos, a Justiça passou a atuar em cima dessas “destruições midiáticas”, e é assim que são derrubados os governos democráticos – em seguida, o pontífice mandou suas bençãos ao ex-presidente Lula na cadeia.

               Só mesmo os Cândidos e as Polianas não enxergam que as vias institucionais estão fechadas, lacradas, para o ex-presidente Lula da Silva. Não há para onde correr. Não há tribunal que o julgue com imparcialidade. Nem tampouco com coragem (um ministro da Corte Suprema chegou a declarar, numa sessão do STF, que juízes e ministros têm medo de julgar habeas corpus e de decidir a favor da liberdade).

        Quando os juízes têm medo, os cidadãos podem se considerar completamente desamparados. Quando os juízes temem, pode-se dizer que tombou o último dique do direito contra o arbítrio. Só por medo mesmo, acuado, é que um tribunal aceitaria atropelar a Lei Maior e até as leis internacionais, como aconteceu no julgamento do Lula, lastimavelmente!

          O único tribunal que poderia julgar Lula com coragem (e dentro da lei) seria o Tribunal Popular – nas urnas. Mas esse só funciona nas democracias. Logo, apenas quando (e se) retornarmos a um regime verdadeiramente democrático é que haverá esperança para o ex-presidente – por isso, a luta pela liberdade de Lula está hoje identificada com a luta pela volta da democracia, do Estado de Direito e da soberania popular.

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As pesquisas e a inveja

        O INSTITUTO Datafolha, cujo grau de confiabilidade atinge hoje 95%, confirma o favoritismo inexcedível do ex-presidente Lula da Silva para a próxima eleição presidencial: 39% das intenções de voto. E confirma mais: Lula não só continua na frente como está subindo nas pesquisas.

         Isso não é novidade: já era sabido e consabido. Mas há um outro dado, esse sim, muito interessante (e até surpreendente) que o Instituto Datafolha constatou na mesma pesquisa: o Partido dos Trabalhadores é, de longe – mas de muito longe -, o preferido dos eleitores; e em todas as regiões do país: de Norte a Sul, de Leste a Oeste.

             No cômputo geral, o PT tem 24% da preferência dos eleitores brasileiros; os que se aproximam mais (MDB e PSDB) têm míseros 4% cada um; o resto não tem a preferência de ninguém, ou não passa de 1%. É difícil explicar isso. Porque a maioria dos analistas pagos pela mídia da casa-grande vem decretando a “morte do PT” todo santo dia – e há muito tempo.

             E não adianta dizer, preconceituosamente, que a popularidade do PT é só no Norte e no Nordeste, onde estariam – como já disse uma vez o ex-presidente FHC -, os “eleitores “mais pobres e menos informados”. Nas regiões Sul e Sudeste, onde pretensamente os eleitores seriam mais esclarecidos, o PT tem a preferência, respectivamente, de 17% e 20%, enquanto que o partido de FHC não passa de minguados 6% de simpatizantes.

           Essa pesquisa confirma que nenhum partido político no Brasil tem a capilaridade que o PT tem. Tampouco o enraizamento popular que essa agremiação partidária construiu desde sua fundação em 1980: raiz no movimento sindical; nos movimentos sociais; nos movimentos campesinos; nas comunidades eclesiais de base; nas comunidades periféricas; no movimento de minorias discriminadas e nos segmentos artísticos e universitários mais progressistas.

          Os números estão aí. Eles não mentem. Não adianta brigar com eles. Mas a elite brasileira (e a classe média que a imita e sustenta) não engole esses números nem sob tortura; nem pendurados de ponta-cabeça no pau de arara – tem gente que anda se descontrolando por causa dos resultados dessas pesquisas eleitorais.

          Elas revelam também que o povo não “engoliu” o golpe. Mesmo sob a pancadaria ininterrupta da mídia empresarial, mesmo sofrendo as consequências de uma atuação seletiva (e arbitrária) de setores da Polícia, do Ministério Público e da Justiça Federal, mesmo assim, o Partido dos Trabalhadores e seu líder máximo continuam desfrutando da mais absoluta preferência popular.

          Uma das causas da prisão de Lula, e as inúmeras tentativas de cassar o registro do Partido dos Trabalhadores, pode ser explicada exatamente por aí – pelo resultado de consultas como essas (Datafolha, Ibope, Vox Populi, CNT/MDA), que há muito vêm apontando a derrota da direita nas próximas eleições presidenciais – e uma derrota vexaminosa: se deixarem o Lula disputar, periga não ter nem segundo turno.

           Naturalmente que isso acaba acirrando ainda mais a já acirrada polarização político-ideológica que tomou conta do país desde algum tempo; desde que a direita resolveu retomar o poder na marra por meio de um golpe de Estado que arrasou nossa democracia em construção.

          O problema é que o resultado dessas pesquisas eleitorais acaba também atiçando o ódio político, social e de classe – os que não aceitaram o resultado das urnas em 2014, que fizeram tábula rasa de 54 milhões de votos dos brasileiros, são os mesmos que não aceitam agora o resultado das pesquisas para a Presidência da República.

        Mas, querendo ou não, os números dizem que Lula seria, matematicamente, o próximo presidente do Brasil. Um líder carismático e arguto como ele é daquelas figuras políticas que só aparecem de longe em longe, de século em século. Por mais paradoxal que seja, essas pesquisas que sacramentam a popularidade de Lula da Silva são as mesmas que despertam todo esse ódio contra ele… e muita inveja também.

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Tiro no pé

         PESQUISA vai, pesquisa vem, e o Lula continua disparado na frente: o segundo colocado não tem nem a metade dos votos dele; se se somarem os votos de todos os outros concorrentes, nem assim eles alcançam o homem; no segundo turno, se houver, ele ganha de lavada. Quer dizer: só a cadeia mesmo pra derrotar o cara; porque nas urnas – e na democracia – não tem pra ninguém.

       Tanto a pesquisa CNT/MDA quanto Ibope (pesquisa encomendada pelo jornal Estadão e pela Rede Globo), divulgadas nesta semana, constataram que Lula tem 37% das intenções de votos, Bolsonaro tem 18% e o resto não passa de um dígito.

          A pesquisa Ibope constatou também que, no caso de impedimento do Lula (coisa que deverá acontecer, porque o golpe não tá de brincadeira!), 13% do eleitorado votará (com certeza) em Haddad; 14% poderá votar nele; 7% ainda não tem opinião e 5% não sabe. Ou seja, Fernando Haddad estará no segundo turno: somando-se os 4% que ele já tem aos 13% que votarão nele “com certeza”, já empatou com o “líder” Bolsonaro.

          Acrescentada ainda a parcela dos 14% que, segundo a pesquisa, “poderão” votar no petista, e mais alguns por cento dos indecisos, Fernando Haddad vai para o segundo turno com folga, na liderança. Resta saber apenas quem será seu oponente. E esse é o dilema da direita: apostar em quem? Seus candidatos ou são fracos ou são despreparados ou são doidos.

            Com o resultado dessas pesquisas, a partir de agora a direita vai pôr sua máquina de propaganda (e não me refiro à propaganda eleitoral!) contra Fernando Haddad, tentando tirar o esquerdista da disputa para levar ao segundo turno apenas dois direitistas, entre: Bolsonaro, Alckmin, Marina e Ciro Gomes.

          E a estratégia já começou: a revista Veja (que agora está formalmente sob o comando de uma empresa norte-americana) estampou em sua matéria de capa desta semana que Jair Bolsonaro PODERÁ SER PRESIDENTE, fazendo uma enorme (e disfarçada) propaganda do economista que está por trás do candidato, já que este último afirmou não entender nada de economia.

       O jornal Estadão de hoje, ao divulgar o resultado da pesquisa Ibope, estampa a seguinte manchete “BOLSONARO SE ISOLA NA LIDERANÇA”. Pode ser, portanto, que o maluco do Bolsonaro seja mesmo a “aposta da direita”, já que ele tem valiosos 18% de intenção de votos e o Geraldo Alckmin não decola nem com reza braba – parece que aqui também, abaixo da linha do equador, a direita poderá apostar num Trump qualquer.

         E tudo isso pra evitar que o Partido dos Trabalhadores retorne ao governo. Pois, desde os tempos das sesmarias que este país é “loteado” apenas entre os poderosos da elite nativa – com a histórica exclusão dos pobres, dos negros, dos índios e da classe trabalhadora. A elite brasileira, ignorante e autoritária, não admite no “andar de cima” um governo que venha do andar de baixo – do povo.

      A firmação de que, sem Lula nas pesquisas, Bolsonaro se “isola na liderança” é evidentemente falsa, pura manipulação: sem o ex-presidente na pesquisa, Fernando Haddad é que pula para a liderança, considerando-se os 4% de votos que ele já tem, mais os 13% que votarão nele “com certeza”, e os que “poderão” votar – não há nenhum Bolsonaro isolado na frente.

          Para vencer as eleições, a direita chegou ao cúmulo de meter na cadeia o maior líder popular do país sem que ele houvesse cometido crime algum. (O mundo inteiro – até o papa e a ONU -, reconhecem que não há prova contra Lula.) Mas essa prisão pode ter sido o famoso tiro no próprio pé: mesmo de dentro da masmorra, é capaz que Lula ainda põe seu candidato lá dentro do Palácio do Planalto!

            E se isso de fato acontecer, se o golpe for derrotado nas urnas pela vontade do povo, será a maior derrota política imposta a uma elite escravocrata, iletrada e autoritária como essa elite brasileira – vitória da “senzala” sobre a “casa-grande”. E será, decerto, um grande vexame para os pretensos “donos do poder” – um vexame imposto a eles pelo retirante nordestino que não tem riqueza, nem herança, nem estirpe, nem diploma de doutor.

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