Até o papa

           A DIREITA deu um golpe de estado no Brasil na maior caradura – nem sequer disfarçou. Aliou-se a setores reacionários do Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal, sob as rédeas da mídia todo-poderosa (quarto poder), e fez o que fez: derrubou uma presidenta de esquerda, pôs a cúpula da esquerda na cadeia, e prendeu o grande líder da esquerda brasileira. E fez tudo isso, supostamente, “nos termos da lei” – mas o golpe foi tão escandaloso, foi tão às claras (e tão seguro de si) que os golpistas nem tiveram a preocupação de disfarçá-lo.

            Operaram a esquerda sem anestesia: Câmara afastando presidenta petista “em nome de Deus”; Senado condenando-a sem crime, “pelo conjunto da obra”; STF aplicando “teoria do domínio do fato” onde essa teoria não era aplicável; ministra do STF condenando petista com base na “literatura jurídica”, e não em provas; acusadores acusando sem prova, com base só em “convicções”; juiz condenando com base em “provas indiretas”; autoridades fazendo militância nas redes sociais contra petistas e depois usando seus cargos para prendê-los; a Constituição violada a toda hora sem garantir direitos fundamentais de petistas… foi uma lambança a céu aberto.

                O juiz que arrasou com a esquerda brasileira então – esse não consegue esconder nem seus vínculos nem seu deslumbramento. Continua sendo paparicado publicamente pela mídia de direita; continua sendo homenageado nos Estados Unidos por aqueles que, após o golpe, estão se apropriando do nosso petróleo e das nossas empresas públicas; continua irmanado com um grande partido da direita (PSDB) – como se ele não fosse juiz; como se nem precisasse, sequer, parecer imparcial, apartidário.

       A propósito, achei muito engraçada a mensagem que o deputado federal Paulo Teixeira, do Partido dos Trabalhadores, postou ontem no WhatsApp ou Facebook, dizendo o seguinte: “Depois de prender o Lula, o juiz Sérgio Moro recebeu prêmio de gratidão nos EUA. Momento seguinte, Sérgio Moro recebe homenagem da Lide, empresa de João Doria, e manda prender o José Dirceu. Precisa desenhar?”, pergunta ironicamente o deputado paulista. Não, não precisa desenhar não, deputado.

           (O parlamentar se referia à homenagem que a Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, mais uma vez, fez anteontem ao juiz Sérgio Moro, que posou (mais uma vez) para fotografias ao lado do político do PSDB João Doria, em Manhattan.) O juiz da Lava Jato já recebeu muitas homenagens desse tipo; e não se constrange nem um pouco ao confraternizar, abertamente, com os partidos, os políticos e os empresários da velha direita – brasileira e estrangeira.

            O juiz esteve em muitas cerimônias promovidas pela direita. Muitas. Por exemplo, frequentou vários eventos do PSDB (maior partido de direita do país, ao lado do MDB); já recebeu vários prêmios da golpista Rede Globo; já foi homenageado mais de uma vez pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos; já foi eleito pelo Grupo Life norte-americano como um dos dez homens mais influentes do mundo; já foi flagrado e fotografado de ti-ti-ti com o tucano Aécio Neves; e até já admitiu (publicamente) que condenou o ex-presidente Lula (da esquerda) sem provas.

           A grande mídia brasileira teve papel decisivo no golpe que sepultou, mais uma vez, nossos anseios de democracia. Ela (mídia) foi mentora, indutora e porta-voz do golpe. Os órgãos repressivos do Estado, por meio de alguns de seus representantes, fizeram o resto – baniram a esquerda, pouparam a direita e propiciaram a ascensão ao poder do partido mais corrupto do Brasil (MDB), sob o pretexto de combater a corrupção. E tudo isso referendado pela elite e pela classe média historicamente alienadas, antipopulares e fascistoides.

          Mas, no exterior a mídia é bem diferente. Os observadores e a imprensa livre têm deixado muito claro que houve mesmo um golpe de estado no Brasil. Essa é, por exemplo, a opinião manifestada expressamente em editoriais dos grandes órgãos de imprensa estrangeiros. Nada menos que: New York Times (EUA), The Washington Post (EUA), Financial Times (Inglaterra), The Guardian (Inglaterra), El País (Espanha), Le Monde (França), Libération (França), Página/12 (Argentina), La Jornada (México), Al Jazeera (Mundo Árabe)… e por aí vai.

            Ninguém – que pensa -, tem qualquer dúvida sobre o golpe de estado em curso no Brasil. Um golpe para derrubar o partido de esquerda que vinha ganhando as eleições presidenciais desde 2002, e que ameaçava (ameaçava, não, era certeza!) ganhar também a eleição de 2018, com o ex-presidente Lula à frente – aliás, um candidato imbatível em todos os cenários; e em todas as pesquisas de intenção de voto. É tamanha a força de Lula, e é tão arguta a percepção do povo, que é perigoso que ele (Lula) faça o novo presidente da república mesmo estando preso.

             E eis que agora – do nada -, até o papa Francisco resolve dar sua opinião, e bota a boca no trombone pra denunciar o golpe no Brasil. (Tava demorando!) O papa, além de líder espiritual de mais de um bilhão de pessoas no mundo, é um chefe de Estado. Não é comum que um chefe assim fale o que o papa falou, numa clara referência a outro país. Achei até que pudesse ser mentira, mais uma fake news. Mas, me garantiram que não. Garantiram que ele falou realmente; e que ele é assim mesmo: meio “doidinho” – um papa sem papas na língua.

             Pois bem… De acordo com o jornal Vatican News, o papa Francisco, sem mais nem menos, resolveu tratar o assunto relacionado a golpes de estado, numa homilia em Roma. E disse: “A mídia começa a falar mal das pessoas, dos dirigentes, e com a calúnia e a difamação essas pessoas ficam manchadas. Depois, chega a justiça, as condena e, no final, se faz um golpe de Estado”. Pois é… Dá pra ver aí alguma semelhança com o que acabou de ocorrer no Brasil, ou quer que desenha?

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Ainda a desigualdade

          ESTÃO dizendo que uma das coisas que mais cresce no mundo é a desigualdade – isso mesmo: a desigualdade social, econômica, cultural e política. As pessoas e os países ricos ficam cada vez mais ricos, e os pobres cada vez mais pobres. A desigualdade (ou as desigualdades) é uma erva daninha, porque viceja em qualquer lugar, sorrateiramente, dividindo pessoas e povos. Além do que, é sempre sinônimo de injustiça. Por isso, os povos, as constituições e os governos prometem combatê-la. Ou, ao menos, reduzi-la – mas parece que ela só cresce, é persistente demais, obstinada mesmo.

            Em 2014, o livro do economista francês Thomas Piketty, O capital no século XXI, fez um enorme sucesso editorial e provocou os mais acirrados debates ao denunciar a desigualdade crescente no mundo, ocasionada pelo desenvolvimento capitalista que – como sempre fez -, faz os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. Esse autor, e outros economistas também, concluiu algo que me parece estarrecedor: algumas riquezas particulares crescem mais que a economia dos países. Ou seja: enquanto uns poucos enriquecem cada vez mais, as populações empobrecem junto com os Estados que deviam ampará-las.

           Esse rumoroso livro do Piketty nem bem chegou na praça e o papa Francisco já mandou uma mensagem pelo twitter que era assim: “A iniquidade é a raiz de todos os males”. Em seguida, na sua exortação apostólica, chamada Evangelii gaudium, o papa cravou: “Enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade social, na sociedade e entre vários povos, será impossível erradicar a violência”. Veja que até o papa – os papas, pelo menos no discurso, sempre condenaram a miséria e a pobreza – está também preocupado com essa tal da desigualdade; não é só com pobreza e miséria, não.

       Na sequência, a Academia Real Sueca de Ciências revelou o nome do escocês naturalizado norte-americano, Angus Deaton, como ganhador do prêmio nobel de economia de 2015. E numa de suas primeiras declarações, já vem o premiado economista engasgado com o mesmo problema: “O desenvolvimento capitalista gerou desigualdade entre pessoas e países”. Assim, diz o novo Nobel, o que estamos vendo agora é simplesmente “o resultado de centenas de anos de desenvolvimento desigual nos países ricos, deixando boa parte do mundo para trás”. Na opinião dele, os refugiados da Europa são exatamente uma reação a esse desenvolvimento desigual, pois, pessoas que ficaram para trás estão pressionando as fronteiras entre os países ricos e os países pobres.

      Enquanto isso, no Brasil, as políticas de distribuição de renda e de combate à desigualdade social são consideradas criminosas, responsáveis pelo nosso “desequilíbrio fiscal” e pela debacle da economia brasileira; e capazes até de provocar o impedimento ou destituição de um presidente da república. A igualdade no Brasil sempre foi “pra inglês ver” – da boca pra fora. A nossa síndrome de “casa-grande-e-senzala” ainda é muito forte, muito profunda, e a desigualdade, essa sim, é o que nos constitui – e ao nosso capitalismo escravagista que não se incomoda com ela.

           Fico alarmado quando os especialistas dizem que o Brasil tem a maior desigualdade do mundo. Dizem eles, apoiados em suas pesquisas e estatísticas, que 30% da renda nacional está nas mãos de apenas 1% dos habitantes do país. O que faz com que esses ricaços do Brasil sejam mais ricos do que os sultões do Oriente Médio. Uma ONG britânica (Oxfam) constatou que apenas seis brasileiros (isso mesmo: seis; meia dúzia) têm a mesma riqueza de 100 milhões de compatriotas – é meio exagerado, meio escandaloso, né não?

             Mas, tirando os pobres, evidentemente, parece que a desigualdade não incomoda a mais ninguém – nem no Brasil nem no mundo. Pois o capitalismo no mundo segue sua trajetória de exploração, guerra e injustiça sem nenhum desconforto. Errados devem estar os que lutam contra a desigualdade. Esses, sim, são lunáticos e sonhadores que só atrapalham os negócios, as negociatas e a acumulação capitalista que mantém dois terços da população mundial na pobreza e na miséria – mais de um bilhão de pessoas passando fome e vivendo com menos de um dólar e meio dólar por dia – como se alguém pudesse viver com esse quase nada.

           Vai ver o best-seller do Picketty, o novo ganhador do prêmio nobel de economia, e até o papa estão completamente errados! Certa mesmo deve estar essa papagaiada neoliberal de ultimamente, que teima em condenar as políticas de redução da pobreza e das desigualdades num dos países mais desiguais do mundo – como o nosso. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 proclama logo no seu artigo primeiro que todos os homens nascem “livres e iguais em direitos”. Mas quem acredita nisso? Quem acha que todos nascem com o mesmo grau de liberdade, com as mesmas chances na vida e com as mesmas possibilidades de escolhas?

             Proponho, assim, uma pequena retificação nessa Carta de Direitos para corrigir-lhe o engano – ou a hipocrisia: proponho que, doravante, a redação do seu artigo primeiro seja a seguinte: “Como os homens não nascem livres e iguais, deverão ser libertados e igualados por meio do direito”. Dessa forma, ficaria mais honesto; ou menos hipócrita. Desconfio que a maioria – e muitos brasileiros -, aprovaria imediatamente essa proposta de mudança da Declaração de 1789 – mas só no papel.

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A Palestina e o silêncio do mundo

        NÃO é preciso grande tirocínio, nem seria necessário recorrer à Bíblia, à Torá e ao Corão para ver que é realmente condenável o que fazem com o povo palestino; um povo vítima de agressões que se podem caracterizar, sem nenhum exagero, como crimes de lesa-humanidade. As violações sistemáticas ao direito internacional nas regiões onde deveria existir hoje, por resolução da ONU desde 1947, um Estado palestino independente e livre, revelam que o que na verdade governa o mundo não é o direito – é a força.

            Para começo de conversa, deve-se lembrar que o povo da Palestina vive encarcerado em seu próprio território. É isso mesmo: vive como “prisioneiro” na Cisjordânia e como “refugiado” na Faixa de Gaza – ambos territórios palestinos. O Estado de Israel controla as fronteiras dessas regiões, controla a entrada e a saída dos que lá vivem, e até a água é controlada pela potência que pretende colonizar o território invadido e varrer do mapa qualquer resquício do Estado palestino e seu povo.

            Se não bastasse isso, se já não fosse suficiente essa “prisão domiciliar”, é necessário dizer que o território palestino está sendo progressivamente invadido, ocupado e anexado pela política expansionista israelense, isto é, pelo sionismo imperialista que pretende dominar o Oriente Médio – muito mais por razões de estratégia geopolítica e militar do que por motivos históricos, religiosos ou nacionalistas. Nada contra o povo de Israel; muitos israelenses condenam as ações bélicas de seu próprio país; mas a opressão ao povo palestino é um fato.

       Se ainda não fosse suficiente o encarceramento de um povo e a tomada de seu território, o que aniquila abertamente o direito internacional de autonomia e de autodeterminação dos povos, é certo também que o exército de Israel, um dos mais bem equipados do mundo, tem despejado sobre a Palestina seus poderosos mísseis de alto poder destrutivo, lançando suas armas mortíferas por meio de moderníssimos aviões, cujo aparato bélico é fornecido pelas indústrias norte-americanas.

         Agora mesmo, Israel está disparando tiros e bombas de gás lacrimogêneo contra civis e crianças na Faixa de Gaza – já foram mais de 60 mortos. No último grande ataque antes deste, mataram 600 civis, dentre eles 120 crianças inocentes; dois hospitais inteiramente destruídos. Somente com muita cegueira, ou com muita má-fé, se poderia chamar isso de “confronto” ou de “guerra”. O que há na Faixa de Gaza é uma “guerra de agressão”, um genocídio, um verdadeiro atentado contra um povo indefeso e, enfim, contra a própria humanidade.

           Não nos esqueçamos: essas coisas todas ocorrem com o apoio explícito dos Estados Unidos, com a omissão da Organização das Nações Unidas, e com o silêncio oportunista da Europa. Nem mesmo o jornalismo internacional pode cumprir sua função de revelar a verdade dos fatos, de ser imparcial e informar por completo tudo aquilo que realmente ocorre nos verdadeiros campos de concentração em que se transformaram hoje os territórios palestinos.

         A Carta Africana dos Direitos Humanos dos Povos de 1981, conhecida como a Carta de Banjul (Gâmbia), diz em seu art. 20 que todos os povos têm direito à existência, e os povos colonizados ou oprimidos têm o direito de resistência. Porém, quando o Hamas resiste, disparando seus poucos mísseis, ou utilizando seus desesperados homens-bomba contra Israel, opondo-se a uma invasão injusta de seu território, esse fato é sempre noticiado como “prática de terrorismo”, “fanatismo religioso” ou puro jihadismo praticado pelo “eixo do mal” contra o Ocidente democrático.

          Alguns comentaristas, desses que opinam na grande mídia brasileira, já tiveram o desplante de atribuir a culpa pela morte de civis inocentes ao próprio grupo Hamas, argumentando que esse grupo armado atira mísseis contra Israel e se esconde atrás da população civil – inclusive nos hospitais. Mas, para onde haveria de correr o Hamas se a Faixa de Gaza tem apenas 41 km de comprimento por 9 km de largura, é uma das regiões com maior densidade populacional do planeta, e está encurralada entre o Egito, Israel e o Mar Mediterrâneo?

           E mesmo que o Hamas tivesse essa prática de atacar seus agressores e esconder-se por detrás da população civil, Israel não teria o direito de rasgar todas as Convenções de Genebra, de agredir populações inocentes e desarmadas, de impedir o socorro, o tratamento e a remoção de vítimas, sobretudo quando essas vítimas são crianças desamparadas. Parece que não há limites para o cinismo de certos profissionais da mídia conservadora que insistem em não ver a realidade e mantêm seu público enganado, na mais profunda escuridão!

          Enfim, se os Estados Unidos apoiam a guerra de agressão contra o povo palestino, se a Europa ignora convenientemente essa guerra, se a ONU nada faz para impedi-la, se a mídia não pode ou não quer denunciar tudo o que ocorre naquela parte do Oriente Médio, e se o resto do mundo ocidental não tem como saber o que de fato acontece em Gaza e na Cisjordânia, quem poderá frear essa “máquina de guerra” que mata sem parar, e sem misericórdia?

        O resultado de tanta violência acabará sendo mesmo a destruição do Estado e do povo palestino. Aos quais se nega o direito à existência, o direito à autodeterminação, o direito à paz e o direito à vida. E tudo isso decretado por um tosco imperialismo bélico e um estúpido terrorismo de Estado que as potências ocidentais praticam como se fossem o “eixo do bem” agindo contra o “eixo do mal” – matando gente e destruindo sonhos diante do “silêncio despropositado do mundo”.

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Inocência midiática

          PARAFRASEANDO o título de um poema do alemão Bertold Brecht, o jornalista Celso Vicenzi cunhou a expressão “analfabeto midiático”, para designar aquela pessoa que, segundo o jornalista, (1) ouve e assimila tudo sem questionar, (2) orgulha-se de estar sempre bem informada pela grande mídia, (3) imagina que tudo pode ser compreendido com “pouco esforço intelectual”, e (4) não consegue perceber os “enfoques” construídos deliberadamente pela mídia para distorcer fatos e manipular informações.

        Esse seria, segundo Celso Vicenzi, o tal “analfabeto ou inocente midiático”. Essa locução, porém, muito embora possa ser uma expressão bastante didática para designar os que se informam através da mídia, sem crítica nenhuma, passivamente, é na verdade uma expressão muito forte; e talvez até contenha alguma espécie de violência verbal que atinge a própria vítima – poupando os verdadeiros responsáveis por essa forma (vá lá!) de “analfabetismo”.

            Importante perceber que, se há mesmo algum “analfabetismo midiático” no Brasil é porque há um abuso do direito de informar. E esse abuso se manifesta de maneira absolutamente insofismável por meio de pelo menos cinco aspectos: (a) concentração da propriedade dos veículos de informação de massa; (b) vinculação da mídia ao poder político e econômico; (c) impunidade dos crimes praticados pelos “barões da comunicação”; d) manipulação interesseira dos fatos e da informação; e) poder de interpretar e comentar os fatos.

           É realmente injustificável (e insustentável) a absurda concentração da propriedade privada dos meios de comunicação social no Brasil: oligopólio e propriedade cruzada desses meios (jornais, revistas, tevês, rádios, mídias etc.) nas mãos de uns poucos proprietários – tão poucos que contam-se nos dedos de uma mão; isso só existe no Brasil; é um verdadeiro abuso do direito de informar – uma “libertinagem de imprensa”.

         Como dizia o velho Leonel Brizola, é impossível a construção de uma democracia com esse tipo de mídia. Pois, o oligopólio da informação, toda ela concentrada nas mãos de cinco ou seis famílias lideradas pelo Grupo Globo, impede o “pluralismo das ideias” que é, como todos sabemos, quase um “sinônimo” de sociedade democrática. Além disso, além da informação, esses grupos têm o poder de “comentar”, sob sua ótica aquilo que informam, inculcando opiniões; e têm também o poder de não informar muita coisa.

            Aqueles que detêm o poder econômico detêm também a propriedade dos meios de comunicação, com os quais fazem a propaganda de si próprios e de seus interesses de classe. A mídia empresarial constitui, naturalmente, um aparelho ideológico de difusão dos valores e da visão de mundo burgueses. Ou não? Segundo o pensador italiano Antonio Gramsci, os detentores do poder material são também aqueles que detêm a “direção cultural” da sociedade, promovendo o consenso político e a uniformização do pensamento – naturalmente em torno de seus objetivos.

          Os que têm a “direção cultural” da sociedade, consequentemente, concentram em suas mãos um grande poder político e econômico, logo, jamais poderão ser considerados politicamente “neutros” e tampouco “imparciais”. Por isso, é muito arriscado (ou ingênuo) fechar os olhos e acreditar na “imparcialidade da mídia”. Essa é uma crença quase infantil, uma ilusão que transforma muitos cidadãos em verdadeiros “inocentes úteis” aos projetos dos poderosos.

            Por fim, já não é mais segredo pra ninguém que a grande mídia manipula fatos, cria factoides, sonega informações, mente à vontade, replica notícias falsas, faz interpretações enviesadas, pratica o chamado “pinçamento”, cria manchetes bombásticas nas primeiras páginas e esconde notícias nas páginas internas, enfim, ilude a opinião pública ao sabor de suas conveniências e projetos político-econômicos; essa é a consequência mais daninha da mídia oligopolizada: o leitor fica sem alternativa; fica nas mãos de uns poucos poderosos que sabem muito bem o poder de suas máquinas de propaganda.

         Desse modo, soa contraditório defender a liberdade de expressão e de pensamento, deixando-se aprisionar passivamente pelo discurso dos “donos” da comunicação de massa como fazem os “inocentes midiáticos”. É uma grande ingenuidade – dessas que custam muito caro a qualquer democracia -, imaginar que a mídia é “neutra”, “imparcial” ou “politicamente desinteressada”, e que, por tudo isso, deve ser mantida fora de qualquer controle ou regulação, acima do bem e do mal.

        Aqueles que desejam preservar a autonomia do próprio intelecto, que pretendem manter o pluralismo do pensamento, que tencionam exercitar o “senso crítico” em oposição ao “senso comum”, que não querem “alugar o cérebro” aos magnatas da informação, precisam superar algumas crendices – a começar pela superação do mito da imparcialidade ou neutralidade política da mídia.

          Além disso, as “vítimas midiáticas” precisam deixar de confundir ” democratização da mídia” com “prática de censura”, e abandonar a identificação muito comum entre “desconcentração do poder midiático”, que é muito saudável, e “controle dos conteúdos da informação”, que é pernicioso, pois, do contrário, continuarão ecoando (sem perceber) o discurso e os argumentos dos “imperadores da mídia” – esses poderosos que querem continuar praticando a libertinagem em nome da liberdade.

          Em nenhum país do mundo democrático o poder da mídia é tão concentrado e tão fora de controle como no Brasil. Aqui, esse poder é tão forte que até usurpou do sistema escolar e da universidade o papel de formar consciências e divulgar o conhecimento, assumindo um protagonismo arbitrário e nocivo na tarefa de “formar consciências”; de formar cidadãos.

          Assim, seria muito saudável que a banda “bem-informada” da sociedade brasileira, que se entrega docemente ao noticiário da TV e às “verdades” veiculadas pela grande imprensa tradicional, procurasse superar de vez a “síndrome” da cabeça-feita-pela-mídia, pois ela faz muito mal à consciência política das pessoas, à normalidade institucional do país, aos legítimos interesses nacionais e à nossa muito frágil, aliás, fragilíssima democracia.

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Fim da democracia

       CRESCE entre os especialistas – professores, sociólogos, juristas, observadores internacionais, cientistas políticos etc. – a opinião (aliás, a convicção) de que o Brasil não está mais vivendo sob um regime democrático. De que a democracia instaurada depois do regime militar de 64, sintetizada na Constituição de 1988 – uma das mais democráticas que já tivemos -, definitivamente acabou. E cresce também a percepção de que o fim de mais este período de democracia seguiu o mesmo roteiro, o mesmo script, de golpes passados – que também encerraram ciclos democráticos no país.

            É impressionante a semelhança entre os roteiros de ontem e de hoje: 1) derrubada de um governo popular; (2) eterno pretexto da corrupção (3) papel preponderante da mídia; (4) apoio da classe média conservadora e despolitizada; (5) esquerda na cadeia; (6) multinacionais norte-americanas felizes e lucrando com o golpe (apropriação do pré-sal); (7) Estados Unidos monitorando as ações (espionagem sobre Dilma Rousseff e Petrobras pela NSA); (8) militares no cenário político (pressionando e avalizando a prisão do maior líder popular do país); (9) restrição de direitos… Tudo igualzinho.

            Bastaria mencionar só dois fatos – apenas dois -, para se chegar à certeza de que a nossa democracia foi mesmo por água abaixo; pras calendas. Quando um país derruba uma presidenta eleita pelo povo em eleições livres e democráticas, sem que essa presidenta tenha cometido qualquer crime; e quando esse mesmo país, sem provas, põe na cadeia seu maior líder popular, que tem a preferência (disparada) do povo nas pesquisas de intenção de voto, impedindo-o de disputar eleições livres, não há dúvida – esse país descartou sua democracia.

           Esses dois fatos – por si só -, já são suficientes para se chegar a essa conclusão. Dilma Rousseff foi apeada do poder sob o pretexto de que teria praticado crime de responsabilidade com as tais “pedaladas” – “pedaladas” que ninguém soube (nem sabe ainda) exatamente o que eram. E ninguém sabe porque elas simplesmente não existiram. O que existiu foi um “ajuste contábil”, que não era crime nenhum; muito menos crime de responsabilidade suficiente para derrubar uma presidenta da república.

           E sabem quem é que disse isso?, que não houve nada de “pedalada fiscal”? Por acaso estão achando que foi algum petista, algum esquerdista? Algum comunista? Não foi, não. Quem concluiu isso foi a perícia contábil dos próprios técnicos do Senado Federal. Isso mesmo. O órgão político que julgou e derrubou Dilma Rousseff concluiu, ele próprio, por meio de seus peritos, que ela não tinha praticado o crime que lhe imputavam – o que obrigou os senadores a sustentarem a desculpa esfarrapada de que estavam derrubando a presidenta pelo “conjunto de sua obra”. Vê se pode!

        Em seguida, condenam criminalmente – e põem na cadeia -, aquele que seria certamente eleito em 2018 para a presidência da república pela vontade do povo e na base do voto. Ou seja, por meio de uma condenação criminal muito mal explicada (e muito mal fundamentada) tiram da disputa eleitoral o candidato que representa a vontade da maioria do eleitorado (aliás, como deve ser nas democracias!), e condenam esse líder sem provas suficientes, com base apenas em indícios, ilações, presunções, suspeitas e convicções íntimas.

           Mas sabem quem é que disse isso? Não vá pensar que foi algum petista despeitado. Algum esquerdista radical. Que nada! Quem disse que não há provas contra o ex-presidente Lula foram seus próprios acusadores. Apresentaram a denúncia em juízo e convocaram logo uma coletiva da imprensa, e foram também à internet, com um powerpoint ridículo, para justificar a acusação fajuta. Todavia, em lugar de justificá-la, acabaram é admitindo – expressamente -, que “não tinham provas contra Lula… tinham apenas convicções”. Que beleza!

        Pra piorar ainda mais (já disseram que “Não há nada tão ruim que não possa piorar!”), o ex-presidente Lula não só foi acusado como foi condenado sem provas. E quem é que disse isso? Tá achando de novo que foi algum petista ou esquerdista inconformado? Não não. Quem disse que não há provas contra o Lula foi o próprio juiz que o condenou – o da Lava Jato. Prolatou sua sentença e correu à Folha de S. Paulo (30.7.17) para dar uma entrevista justificando a decisão sem provas. E nessa entrevista, com todas as letras, disse que condenou o ex-presidente Lula baseado apenas em “provas indiretas”; uma somatória de “indícios”.

             Será  preciso dizer mais o quê, para dizer que a nossa democracia foi mesmo pro beleléu? Se cassamos, sem motivo legal, os representantes já eleitos, e depois ainda impedimos o povo de eleger o candidato de sua preferência, onde é que está a democracia?Não há democracia sem povo; sem voto livre e sem soberania popular. Pelo menos é o que diz (ou dizia!) a Constituição brasileira de 1988, logo no seu artigo primeiro: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de seus representantes eleitos…”.

             Realmente: quando derrubam uma presidenta legítima, sem fundamento legal para tanto; e ainda prendem, sem provas, o preferido do povo para a presidência da república, não dá pra ficar chamando isso de democracia, dá? Claro que não. Se não estamos vivendo numa ditadura, democracia também não é. Aquele regime democrático da Constituição de 1988 já era… morreu, está sepultado. Provavelmente estejamos vivendo o que alguns especialistas têm chamado de “pós-democracia” ou “pós-estado democrático de direito”. O preocupante é saber o que é esse “pós”; e o que virá por aí…

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O povo sabe votar?

               DISSERAM que o Pelé disse certa vez que o povo brasileiro não sabia votar. Teria sido na época da ditadura, quando não tínhamos eleições diretas no país e o povo (ou boa parte dele) se organizava em torno do movimento das Diretas-já. Não sei se o Pelé confirmou essa sua declaração; não sei se a mantém até hoje; não sei se ele a renegou; não sei nada sobre as opiniões políticas do Pelé. Só sei que ele foi um grande craque dentro dos gramados.

            Se aquela declaração do Pelé for verdadeira mesmo, por mais preconceituosa, alienada e antidemocrática que possa ser, fato é que ele não está sozinho. Aliás, tem o aval até de um festejado professor universitário, membro da Academia Brasileira de Letras – o ex-presidente FHC. Na última eleição presidencial o tucano andou dizendo que a vitória da Dilma Rousseff se deveu aos votos do Norte e Nordeste do país, onde, segundo ele, estão os eleitores “menos informados, que coincidem com os mais pobres”.

             Dias atrás, o Instituto Datafolha – na esperança de colher bons resultados para os candidatos da burguesia -, fez uma pesquisa (divulgada discretamente) para a presidência da república nas eleições deste ano, logo após a prisão de Lula. Resultado: o ex-presidente Lula, mesmo preso, continua liderando com folga as intenções de votos; em todos os cenários; contra todos os outros possíveis candidatos – inclusive no segundo turno, se houvesse.

           É impressionante: como é que o homem apresentado pela mídia todo santo dia como líder de uma grande organização criminosa; que já está condenado criminalmente duas vezes; que tá na cadeia; que ainda tem mais de meia dúzia de processo-crime nas costas; que não dispõe de espaço na grande imprensa para se defender nem para expor suas ideias, enfim, como é que um homem desses pode ser o preferido pelo povo para presidir o Brasil novamente? Agora é que vão dizer mesmo que o povo brasileiro não sabe votar!

             Até bem pouco tempo, os supostamente mais letrados, a elite, a classe média e alguns outros presunçosos gostavam de dizer que o “povão” nunca soube votar. Que não tem cultura. Que é mal-informado. Que é analfabeto, ou quase; e vota sempre errado. Mas nem isso eles podem dizer mais. Porque na última eleição presidencial essa turma que se diz mais consciente e mais bem-informada, andou votando em peso no Aécio Neves, que, descobriu-se depois, era um político envolvido em corrupção… e… incompetente.

         Descobriu-se então que o voto no Aécio era um “voto equivocado”, iludido, um verdadeiro fiasco para quem andava aí querendo acabar com a corrupção e botar na cadeia tudo quanto era corrupto. Os corruptos queriam ver na cadeia, mas o Aécio (também corrupto) queriam pôr na presidência. Bonito, não? Agora ficou difícil pra esses saberetes bater no peito e dizer que “sabem votar”; e que o “povão”, os analfabetos e ignorantes é que estragam tudo – que votam mal e elegem os piores candidatos.

            Falam tanta coisa sobre o povo: uma hora dizem que ele é ignorante; depois, que é sábio demais – e falam até numa “sabedoria popular”. Dizem que o povo não sabe o que fala; mas depois afirmam que “a voz do povo é a voz de Deus”. Uma hora falam que o povo é igual gado, submisso e conformado; outra hora falam que ele é soberano. Falam tanta coisa sobre o povo… Mas eu, particularmente, não aprecio nada, nada, essa discussão sobre se o povo é sábio ou não; se ele sabe ou não sabe votar.

             As pesquisas que mostram o Lula em primeiríssimo lugar, e pior, que revelam que o ex-presidente petista está subindo nas intenções de voto, que a rejeição a ele está caindo mesmo após sua prisão, faz a gente pensar. Por que será que um homem desses, que apanha da mídia que nem boi em horta de japonês; que apanha da Justiça que nem pandeiro na mão de sambista, que apanha noite e dia, tem a preferência disparada do povo para ser presidente da república?

           Não dá pra entender mesmo. É um mistério. Ou talvez seja alguma coisa que só o povo entende; só ele sabe. Pode ser também que o Lula, apesar da pancadaria, tenha lá seus méritos. Vê-se na imprensa internacional que, lá fora, seu prestígio é bastante grande; e não deve ser à toa – mas dessa vez não será o povo quem vai decidir se o Lula deve ou não ser presidente; dessa vez o povo tá correndo por fora que nem cavalo paraguaio; não apitará nada – como nos tempos da ditadura.

               É evidente que depois desse rebuliço todo, de todo esse alvoroço que fizeram com o direito, com a política e com a economia; depois desse golpe muito mal disfarçado do impeachment sem crime, a direita brasileira não iria mesmo correr o risco de enfrentar o Lula nas urnas – vai que o povo sabe votar e acaba atrapalhando essa esculhambação toda que estão fazendo com a Constituição, com os direitos trabalhistas; com os salários; com as políticas sociais; com a aposentadoria dos trabalhadores; com o pré-sal; com as hidrelétricas; com a água e com parte da Amazônia oferecida aos gringos… Vai que o povo resolve acabar com essa farra, né!

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Consumismo necessário

         NÃO adianta praguejar e condenar o consumismo – ele é necessário. É inútil ficar  bradando quixotescamente contra o consumo exagerado, dizendo que ele é malsão. Que é um vício. Que esse vício leva as pessoas a comprarem compulsivamente. Leva os consumidores a adquirirem bens, coisas, mercadorias e bugigangas que não têm utilidade nenhuma, enfim, leva-nos todos a comprar sem saber exatamente por quê nem para quê estamos comprando.

          Nessa hora, entram em cena os psicólogos e psicanalistas para dizer que o consumo compulsivo é mesmo um vício, ou, dizem eles, uma maneira descompensada de compensar carências profundas e frustrações inconscientes. Da mesma forma, vêm os economistas, de calculadora nas mãos, dizendo o óbvio: o consumo deve ser responsável e o consumidor precisa respeitar rigorosamente seu orçamento, bem como sua própria capacidade financeira. Esses especialistas estão mais ou menos de acordo em dizer que o consumismo é um dos grandes males do nosso tempo.

          E uma prova desse mal é que há muito consumidor compulsivo e endividado, com sua paz e seus orçamentos comprometidos; alguns deles enterrados até o fio de cabelo nos bancos, nos cartões de créditos ou nos intermináveis carnês dos crediários. Os sociólogos também não deixam de comparecer com suas análises. Não raro, há sempre algum dizendo que o consumo, na sociedade consumista contemporânea, é símbolo de status, de inserção social e até de cidadania. Mas, o consumismo, dizem eles, pode ser também um estímulo à criminalidade, pois aqueles que podem, compram, os que não podem, roubam.

    Tudo isso deve ser mesmo verdade. Mas, há uma outra verdade que os especialistas quase nunca levam em conta, ou preferem ignorar. Isto é, o consumismo desenfreado, embora seja mesmo um mal, é um “mal necessário”, pois ele é o “motor” que impulsiona as sociedades capitalistas de mercado. Nessas sociedades é preciso produzir sempre, lucrar sempre, e, portanto, consumir sempre – até o limite ou até mesmo além dos limites da capacidade de consumo e dos recursos naturais.

       Essa é mais uma daquelas famosas contradições do capitalismo que o velho e “maldito” Karl Marx previu exaustivamente já no século 19. Quer dizer, é preciso consumir sempre; mas, consumir sempre, além de ser impossível, é algo que pode levar ao vício e ao endividamento torturante de consumidores e consumidoras, sem contar a degradação da natureza. E nesse caso, a contradição é tão óbvia que, enquanto uma turma de especialistas, por um lado, alerta sobre os males psíquicos e financeiros do consumismo, outra turma, pelo lado contrário, continua incentivando e induzindo ao consumo por meio do marketing, do merchandising e de outros truques que fazem as pessoas caírem na perigosa armadilha do “consumo pelo consumo”.

             Notemos como andam sempre lotados os shoppings centers – que José Saramago um dia chamou de verdadeiras cavernas -, se transformaram em suntuosos “templos do consumismo”. Notemos como os hipermercados se multiplicam e multiplicam o hiperconsumo, oferecendo todo tipo de mercadoria – as necessárias e as desnecessárias. Alguns desses supermercados já andam até a viciar as nossas crianças, disponibilizando-lhes pequenos (e inocentes) “carrinhos de compra”, com os quais os pirralhos “ajudam” os pais a comprar de tudo um pouco, aprendendo desde cedo que “consumir é preciso”, tanto quanto navegar e viver.

         Não adianta ficar praguejando contra esse consumismo; dizer que ele é um “mal inevitável do nosso tempo”; que ele leva ao vício e à destruição financeira do consumidor; dizer que todo consumo deve ser moderado; que o consumidor tem de ser responsável; que o consumo compulsivo não supre carências emocionais; que essas carências acabam sempre levando às “carências bancárias”. Nem adianta os marxistas ficarem dizendo que o consumismo puro e vulgar é sinônimo de alienação ou infantilização do homem.

            Essas análises e advertências são um verdadeiro trabalho de Sísifo ou de Penélope. E muitas delas são também cínicas ou interesseiras, pois não esclarecem a verdadeira raiz do consumismo, nem tampouco admitem que o consumo responsável depende de uma produção também responsável. Quer dizer, uma produção que produza bens necessários e não supérfluos; que atenda às reais necessidades do homem e não a suas necessidades artificialmente criadas; que atenda a desejos vitais e não a devaneios narcísicos; que respeite a capacidade dos recursos ambientais e não apenas a capacidade dos recursos financeiros de consumidores, enfim, uma produção honesta e consciente que não explore a fragilidade e o inconsciente das pessoas.

            Mas, como programar uma produção assim nas sociedades capitalistas de mercado, que precisam produzir e consumir infinitamente? Como controlar mercados em sociedades liberais de mercados? Como dirigir mercados se eles devem ser absolutamente livres, segundo a ideologia liberal hegemônica? Como planejar a produção em sociedades onde a “livre iniciativa individual” é um mantra sagrado?

            Qualquer coisa que se diga contra essas “verdades” mercadológicas, qualquer crítica que se faça para além das análises ingênuas (e óbvias) de psicólogos e economistas, que insistem apenas em dizer que o consumismo pode levar ao vício e ao endividamento, qualquer implicância com a tal “liberdade de mercado”, sempre será tida como pura utopia, disquisição irracional, devaneio ou análise marxista “fora da realidade”.

            Pois bem, se é assim, se é pra pensar apenas “dentro da realidade”, se é somente pra reproduzir a realidade como ela é, sem contestá-la, se é pra refletir com absoluto realismo e sem utopias, então o negócio é aguentar os males do consumismo, e todos os outros males das sociedades de produção e de consumo infinitos. Ou não é exatamente isso o que queriam, e ainda querem, os neoliberais de Harvard, os “garotos de Chicago”, o “Consenso de Washington” e os inconsoláveis órfãos de Hayek, com suas cartilhas e o mantra do livre-mercado?

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