O vírus das contradições

           O NOVO coronavírus é novo porque já havia outros coronas circulando por aqui pelo menos desde o começo do século passado. A “novidade” do atual está em seu rápido potencial de propagação. É bem por isso que a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou agora estado de pandemia – ou seja, uma epidemia com ampla disseminação; no caso, disseminação em âmbito global.

            O que aconteceu, e está acontecendo, na China, no Irã e na Itália revela que de fato o momento é crítico. Indica que a Humanidade poderá passar por uma catástrofe de proporções bíblicas. Tomara que não! De qualquer maneira, já é possível dizer que o impacto social, econômico e sanitário dessa pandemia será o maior dos últimos cem anos, desde a Gripe Espanhola, que, em apenas dois anos, matou vinte milhões de pessoas (1918-1919).

           Por força de tal magnitude, muitos entraram a tirar conclusões moralistas sobre essa nova pandemia: o coronavírus seria um castigo para a Humanidade egoísta; uma advertência contra as injustiças do mundo. Seria, talvez, um sinal de que os humanos precisam rever seus valores morais… Enfim, os palpites variam.

         Creio que é bobagem prosseguir nessa direção. Não há nada de castigo, ensinamento ou provação nesta pandemia – é o mundo. De mais a mais, a Humanidade já passou por outras catástrofes semelhantes, ou maiores que esta, e nem assim se redimiu, não corrigiu seus erros e caminhos. Por isso, e por ora, sem julgamentos morais – é preferível refletir sobre algumas contradições que nos afligem nesta nova pandemia.

           Primeira delas: o novo corona é um “vírus global”, que está a exigir o fechamento das fronteiras entre países para impedir sua propagação, só que isso ocorre num momento em que a globalização capitalista vinha exigindo exatamente o contrário, ou seja, a derrubada das fronteiras e a liberdade dos negócios, do laissez-faire, laissez-passer – “Deixai fazer, deixai passar”.

            Num momento de superconexão da Humanidade, em que as pessoas se falam e se veem por meio de áudios e vídeos diariamente, quando as máquinas supersônicas do século XX encurtaram as distâncias no tempo e no espaço, propiciando a fácil locomoção e o encontro das pessoas por todo o globo terrestre, somos obrigados a ficar em casa, a nos separar – distanciados e até isolados, uns dos outros.

            No instante em que o mundo, capitalista e neoliberal, apregoa a minimização e até o desaparecimento do Estado, o coronavírus vem demonstrar, dramaticamente, que o Estado é indispensável à promoção da saúde das pessoas e ao combate a epidemias com potencial para a extinção em massa dos seres humanos.

           Bem no momento em que o credo neoliberal propõe a privatização dos sistemas de saúde e de seguridade social, o coronavírus deixa evidente que apenas o mercado, sem a rede pública de saúde, não é capaz de prover o tratamento e o combate a doenças endêmicas, epidêmicas ou pandêmicas – enfim, doenças que atingem indistintamente o conjunto da sociedade, com ou sem plano privado de saúde.

            Quando o negacionismo – e até mesmo alguns dirigentes mundiais – põe em dúvida o papel da Ciência, questionando, por exemplo, o aquecimento global e a importância das vacinas, o coronavírus vem escancarar a tarefa primordial do conhecimento científico – quer para a preservação do habitat, nossa Casa Comum, quer para a manutenção da vida humana no planeta.

           No momento em que o mundo está fazendo sua quarta grande revolução (depois da Agrícola, Científica e Industrial), ou seja, no instante em que mergulhamos de vez na chamada “revolução digital”; quando as novas tecnologias prometem um avanço vertiginoso na direção do futuro, e corremos velozmente para a era da indústria e do crescimento 4.0, eis que surge o coronavírus para dizer que devemos parar.

         Nesta hora em que a cartilha do neoliberalismo apregoava aos quatro cantos do mundo a necessidade de um rigoroso “ajuste fiscal” nas contas do Estado, com a contenção de gastos sociais e despesas com os pobres, chegou o coronavírus para inverter essa lógica perversa, mostrando que o investimento na área social é (sempre foi) uma questão de vida ou morte.

           Por último, e sem prejuízo de mais outras contradições, quando o mundo caminhava no rumo da desigualdade crescente entre países e fortunas pessoais, entre povos e indivíduos, surge o novo coronavírus para lembrar que o destino da Humanidade é um só. Que estamos todos no mesmo barco, sujeitos às mesmas intempéries e naufrágios, e que não nos salvaremos sem que todos se salvem.

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A fantasia do coronavírus

            A DOENÇA provocada pelo novo coronavírus, COVID-19, pode ser grave, pode ser mais ou menos grave, e pode não ser nada – só um resfriado. Às vezes chega a ser assintomática. Dependendo da idade e das condições pessoais de cada indivíduo (comorbidade, imunidade baixa, enfermidade ocasional ou crônica etc.) a doença pode até matar – mas a letalidade do vírus, em si, é baixa.

           A pandemia do vírus, idem. Pode ser que evolua para uma contaminação geral, ou da maioria da população. Pode ser que a grande maioria não se contamine. E pode ser também que, dentro de dois ou três meses, ninguém se lembre mais do temível coronavírus, senão apenas como mais um vírus causador de gripe comum.

            Os impactos da pandemia também são incertos. Pode ser que haja um desastroso efeito na atividade econômica. Pode ser que haja escassez de bens e até de remédios e alimentos. Pode ser que o impacto no sistema de saúde pública seja devastador (como na Itália). E pode ser que não ocorra nada disso.

           Tudo pode ser. Por isso mesmo, o momento atual exige cautela – nem pânico nem negligência.

               Recomendada pela Organização Mundial de Saúde, a primeira medida que muitos governos estão tomando é o “afastamento social”, fechando fronteiras, desestimulando eventos e aglomerações, bem como a circulação intensa das pessoas, com o objetivo de interromper a disseminação do vírus até que o número de infecções perca força naturalmente.

        O governo brasileiro, por meio de seu amalucado presidente, faz o contrário: desdenha do coronavírus e estimula, pelo exemplo pessoal, a aglomeração de pessoas, dizendo ainda que a pandemia do novo vírus é uma “fantasia criada pela grande mídia”. O capitão abandonou o barco e foi às ruas neste domingo para participar dos protestos contra o STF e o Congresso Nacional, apoiando os que pedem ditadura militar.

          Ou seja, além de dar um péssimo exemplo em matéria de saúde pública, incentivando comportamentos de risco que podem acelerar a disseminação do coronavírus, Bolsonaro se reúne na rua para atacar levianamente as instituições democráticas. Numa tacada só, ameaça nossa saúde e a saúde da nossa democracia. Não há outro adjetivo para qualificar as condutas desse infeliz: irresponsável.

            O presidente da República já deu inúmeras (e suficientes) mostras de que não tem aptidão para exercer o cargo que ocupa, e tampouco teria qualquer capacidade de liderança para enfrentar uma crise de saúde pública como essa que se avizinha. (É um homem tão sem sorte, aziago e agourento, que foi recentemente aos Estados Unidos e trouxe o coronavírus no avião presidencial.)

               Nesta hora difícil, em que as lideranças do país precisam mostrar seriedade, tomar decisões e dar exemplos, o presidente Bolsonaro não faz uma coisa nem outra; faz apenas o que sabe: confundir.

           Durante a semana que se encerrou, o filho do presidente disse a um órgão de imprensa (Fox News) que o teste para coronavírus de seu pai havia dado positivo. No dia seguinte (ou no mesmo dia) o troca-tintas desmentiu a informação, dizendo que o resultado do exame do pai dera negativo. O que pretendem com essa mentirada?

            Parece que o objetivo é mesmo manter a população em permanente estado de incerteza e perplexidade. Apreensiva. Esse povo enrolado que tomou conta do Palácio do Planalto não sabe viver de outro jeito senão embromando, atazanando. Fazem da mentira e da instabilidade maneiras de manter a sociedade hesitante, atrapalhada, sem ação.

             Espera-se que neste momento de incerteza o ministro da Saúde, ao contrário de seu chefe, mostre algum equilíbrio, competência e senso de responsabilidade. Porque o presidente da República, esse não tem conserto: já deu sinais de que vai continuar com seus delírios e fantasias, apoiado nas ruas por um magote de neopolitizados totalmente sem noção.

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Fraude e fraudador

          MUNDO afora, os populistas autoritários – Trump à frente – usam e abusam das mentiras, do deboche e das fake news. Quase se poderia dizer que essa é a grande estratégia de todos os populistas da extrema-direita que vêm se levantando e tomando o poder em boa parte do mundo dito democrático.

           Os conselhos que os ideólogos dão a esses populistas é o seguinte: quando alguém lhe fizer uma pergunta embaraçosa, minta descaradamente; quando lhe imputarem alguma responsabilidade, diga que a responsabilidade é de quem o acusa; use uma linguagem de confronto para debochar e estarrecer seu interlocutor ou adversário; utilize sempre as fake news, sejam elas absurdas ou não.

           O presidente norte-americano tem feito isso diariamente – o portal da Veja noticiou que Trump faz, em média, 7,6 afirmações mentirosas por dia. Jair Bolsonaro, que se espelha e idolatra Donald Trump, só sabe espalhar mentiras, alimentar teses conspiracionistas e abusar das famigeradas fake news – tal ídolo, tal idólatra.

            A última (ou penúltima) do Bolsonaro é a “fraude nas eleições de 2018”. Segundo ele, sua vitória se teria dado já no primeiro turno. Mas o presidente não apresenta prova nenhuma de sua afirmação, não diz qual foi a fraude nem quem teria sido o autor – mente na maior caradura e deixa seus interlocutores estarrecidos, sem ação. Essa é a tática.

           Se fraude houve na eleição de 2018, foi a que ele próprio, Bolsonaro, cometeu. Primeiro, prenderam seu grande adversário (e favorito) na eleição presidencial. Segundo, os disparos de fake news às vésperas do pleito foram uma megafraude criminosa – e por por vários motivos. Vejamos!

              Primeiro crime: os disparos eletrônicos, comprovados e confessados, em prol de Bolsonaro custaram 12 milhões de reais e foram pagos por meia dúzia de empresários, entre eles o assanhado Véio da Havan. Segundo crime: tais disparos continham mensagens contra seu opositor (Fernando Haddad). Terceiro crime: as mensagens eram caluniosas e difamatórias. Quarto crime: os autores dos disparos em massa, anônimos e clandestinos, não tinham registro na campanha.

           Nota-se, portanto, que Bolsonaro segue à risca seu ídolo Trump, rezando pela cartilha dos populistas autoritários: atribui aos outros uma responsabilidade que é sua; imputa seus próprios crimes às suas vítimas – e o pior é que tem quem acredita!

          Se as instituições estivessem realmente funcionando, se estivéssemos em pleno Estado de Direito, se o TSE tivesse a independência que devem ter os juízes, a chapa Bolsonaro-Mourão já estaria cassada. As fontes reveladas em primeira-mão pela Folha de S. Paulo, as confissões de empresários que participaram da fraude e que a financiaram, constituem motivos de sobra para a cassação do presidente fake, fraudador.

            Mas, Bolsonaro tem muitos motivos para mentir, pois não tem nada para mostrar. Seu governo (que melhor seria chamarmos “desgoverno”) é, em si mesmo, uma mentira. É a maior fake news, a maior fraude da nossa história republicana.

             E o grande motivo para mentir agora é o colapso da economia. O PIB, após o golpe, desceu a 1,3% e nunca mais passou disso. O pibinho de 2019 é menor que o de 2018 – caiu de 1,3% para 1,1%. E o governo, obcecado pelo ajuste fiscal, não tem a mínima ideia de como sair dessa; está se socorrendo das reservas monetárias do PT – não fossem os 372 bilhões de dólares que Dilma deixou no caixa, Guedes e Bolsonaro estariam na rua.

                A economia brasileira está num beco sem saída, e a equipe econômica do governo, comandada por um ortodoxo da Escola de Chicago, está mais perdida que cachorro em dia de mudança – baixaram os juros para estimular o crescimento, e o que ocorreu foi a fuga de capitais; os investidores foram embora, foram ganhar dinheiro em outro lugar. O mercado já percebeu que Bolsonaro, além de uma fraude, é um agravante da crise.

               Fato é que estamos ladeira abaixo: o dólar sobe, a Bolsa despenca e o governo não reage; prefere falar em fraude nas eleições. Não adota medidas para minimizar os efeitos da crise, tampouco tem um programa para alavancar o crescimento econômico – mas isso já sabíamos desde antes da eleição; o programa de governo do Bolsonaro só não é uma fraude porque ele (programa) nunca existiu.

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Contra a democracia?

            DIZEM que a democracia – no Brasil e no mundo – está em perigo. E perigo de morte. Especialistas afirmam que há um profundo desencanto com a democracia liberal representativa, e que, portanto, o povo – aqui e alhures – tem buscado saídas autocráticas para os seus problemas políticos, econômicos e sociais, preferindo eleger candidatos autoritários, messiânicos, populistas… Será possível?

           Ninguém sabe direito por que isso está acontecendo; por quais motivos o povo haveria de estar contra a democracia e as liberdades liberais que dela decorrem? É um mistério. A única coisa que se sabe é que, realmente, estamos vivendo um momento de populismo iliberal, autoritário; resta saber – diz o pesquisador Yascha Mounk – se é só um momento ou se é uma era.

            Na Europa – mesmo em democracias consolidadas como as da França, Alemanha, Áustria e Itália – cresce o desempenho eleitoral da extrema-direita. Na América, os exemplos mais fulgurantes são as eleições de Trump nos EUA e Bolsonaro no Brasil.

          Podem-se apontar vários motivos para essa insólita rejeição à democracia. Por exemplo: a crescente desigualdade socioeconômica no capitalismo em sua fase financeirizada; o controle da política e da democracia pelos poderosos; a financeirização do sistema político burguês e a consequente corrupção estrutural desse sistema; o distanciamento entre os partidos políticos e o eleitorado.

               Tudo isso são causas de desgaste da democracia. Mas será que essas causas seriam suficientes para fazer com que o povo preferisse soluções autoritárias, antidemocráticas e até neofascistas como forma de organização social e política? Creio que não; creio que seria preciso algo mais forte para levar o povo a descartar a democracia liberal e seus direitos.

           Assim, permito-me avançar a hipótese de que esse “algo mais”, esse motivo mais forte, que põe o povo contra a democracia, é o MEDO – um dos quatro gigantes da alma, segundo Mira y Lopes.

         Vejam que a extrema-direita está crescendo na Europa, e triunfou nos Estados Unidos, porque ofereceu soluções autoritárias (endurecimento das leis, policiamento de fronteiras, suspensão de liberdades etc.), simplistas e populistas, para resolver o complexo problema da imigração e do terrorismo, sobretudo islâmico.

            Ou seja, tanto europeus quanto norte-americanos têm votado na extrema-direita por medo… Medo de que os imigrantes tirem seus empregos e que os muçulmanos ponham em risco a segurança física da população. Aliás, foram exatamente esses medos que levaram os britânicos a sair da União Europeia (Brexit), pois absorveram a ideia (falsa) de que a UE acolhia e gastava muito dinheiro com os imigrantes.

          A extrema-direita, no mundo rico, soube “capitalizar” eleitoralmente essas diversas manifestações do medo, estimulando até a intolerância contra imigrantes e muçulmanos. E o fez com soluções simplórias, irreais, claramente populistas, como foi o caso do muro que Trump prometia construir na fronteira dos EUA com o México; ou do discurso raso de Jean-Marie Le Pen dizendo aos franceses que “a França é você”.

            Realmente, é por medo que o povo tem preferido uma “democracia sem direitos”, na crença ingênua de que o fechamento do regime democrático, a restrição aos direitos liberais, sob a liderança de um governante forte (autoritário), fará com que as coisas, de alguma forma (mágica), melhorem no futuro.

            No Brasil, o medo manipulado eleitoralmente pela extrema-direita tem sido em relação aos pobres, e, sobretudo, o temor de que as classes médias percam seu status e poder aquisitivo. Esses medos provocaram a ascensão de políticos ultraconservadores e autoritários, que até ontem não tinham nenhuma expressão política ou eleitoral, como é o caso do próprio Bolsonaro – antes de se candidatar à Presidência da República candidatou-se à presidência da Câmara dos Deputados e teve apenas quatro votos.

           É angustiante ver que aqui também o povo brasileiro escolheu nas urnas a saída mais autoritária, preferindo uma democracia iliberal, sem direitos, em nome de uma melhora incerta, num futuro igualmente incerto – notem como muitos trabalhadores apoiaram as reformas trabalhista e da Previdência, contra seus próprios direitos e interesses, imaginando que elas seriam para o seu próprio bem – no futuro.

             Resumindo: a democracia liberal está mesmo correndo risco de vida (ou de morte). E o mais irônico é que esse risco vem das urnas, ou seja, da própria vontade do povo. O grande desafio no momento é reverter isso. Essa é a tarefa dos progressistas e democratas, estejam eles à esquerda, ao centro ou à direita – porém, longe (bem longe) da “nova direita”, radical, ultraconservadora e simpatizante do fascismo.

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A caminho da ditadura…

            MUITOS não acreditam que o país esteja caminhando em direção a um regime ou ditadura militar. Alegam que não há mais condições para uma ruptura assim; não haveria como pôr os tanques nas ruas nem controlar as instituições. Além do mais, alegam, os militares de hoje não teriam a formação nem a capacidade política suficientes para assumir o governo do país. Puro engano!

             Há sinais evidentes de que a extrema-direita que hoje governa o país pretende, sim, fechar o regime para instalar um governo autoritário sob tutela militar. Ou, quem sabe, uma ditadura civil-militar mais ou menos nos moldes do que fez Alberto Fujimori no Peru dos anos 90, que, tal como aqui, era um governo apoiado pelas Forças Armadas peruanas e pelo capital financeiro internacional.

              E as semelhanças (inquietantes) não param por aí. O ditador peruano também começou atacando o Congresso (que acabou fechando em seguida); manietou o Poder Judiciário; adotou o discurso de combate ao comunismo; coibiu manifestações de rua e arrasou com os direitos trabalhistas e programas sociais.

            Aqui, são abundantes os indícios, ou, melhor dizendo, as evidências de que o país caminha mesmo nessa direção. Atualmente, giram em torno de 2.500 militares ocupando postos de chefia e ministérios no governo de Bolsonaro; nunca se viu isso, nem nos tempos da ditadura militar de 64-85.

            Os ministérios civis que têm gabinete dentro do Palácio do Planalto (Secretaria de Governo, Secretaria-Geral, Gabinete de Segurança Institucional e Casa Civil) estão todos ocupados por militares. Seus gabinetes ficam no 3º andar do Palácio, ao lado do gabinete da Presidência da República.

             Se se considerar que o próprio presidente e seu vice são egressos da caserna, pode-se concluir, sem sombra de dúvidas, que a cúpula do governo já está totalmente militarizada. Há, de fato uma “tutela militar”, velada e consentida, sobre o governo de Bolsonaro. Politicamente fraco, intelectualmente limitado e emocionalmente frágil, Bolsonaro se cerca das armas para se sentir forte.

        E daí para o fechamento completo do regime (com fechamento do Congresso, limitação da magistratura, censura à imprensa e suspensão de direitos) é um passo. O próprio presidente, no passado, já disse que não hesitaria em fechar o Congresso Nacional; um de seus filhos afirmou que bastaria apenas um jipe e um soldado para fechar o STF; esse mesmo filho já sinalizou com a reedição do AI-5; e o irresponsável general Augusto Heleno, nesta semana, tentou pôr o povo nas ruas contra o Parlamento.

             E o pior é que o arcabouço jurídico-constitucional para dar um golpe militar no Brasil já existe; estão embutidos (sorrateiramente) na Constituição de 1988. Com efeito, os artigos 142 e seguintes da Constituição Federal, bem como a Lei Complementar 97/99, que regulamenta aqueles dispositivos constitucionais, conferem ao presidente da República o poder de “convocar” as Forças Armadas” e de “entregar” a elas todo o controle político-institucional para “garantia da lei e da ordem”.

          Nesse caso, o golpe militar seria dado nos termos da lei e da Constituição, instalando-se uma ditadura civil-militar sem maiores entraves jurídicos. Paradoxalmente, a ruptura institucional se daria sem ruptura legal.

           Restaria ao povo, insatisfeito, protestar nas ruas. Mas, os protestos de rua também serão reprimidos nos termos da lei. Voltou a ser discutida no Congresso a Lei Antiterrorismo – vetada em parte por Dilma Rousseff -, que criminaliza os movimentos sociais, impede as grandes manifestações públicas, e pune até mesmo quem der um “like” nas internet apoiando tais manifestações. Repressão e mordaça!

              Enfim, pode ser que não haja, por enquanto, condições objetivas e políticas para a ruptura institucional que levaria a uma ditadura civil-militar. Pode ser, mas só por enquanto. Assim que crescer a insatisfação do povo, assim que a economia deteriorar de vez, quando que o desemprego aumentar e a liberdade diminuir – e, sobretudo, se se aprofundarem as investigações sobre milícias – particularmente não tenho dúvidas: o coturno baterá à nossa porta.

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República do erro

             SIM, é de propósito, Bolsonaro faz questão de errar: mantém no Meio Ambiente um condenado pela Justiça por infração ambiental; no Turismo, um titular indiciado pela polícia; para presidir a Fundação Palmares, nomeia um negro racista; nas áreas técnicas da educação, em vez de pedagogos, nomeia militares; como titular da Educação, põe um homem que não escreve três linhas sem erro de português…

             E tem mais: para chefiar a Secom, órgão que distribui o dinheiro do governo às tevês, bota um homem que tem negócios privados com as tevês; para a embaixada nos Estados Unidos, indica o próprio filho, dizendo que quer mesmo beneficiar seu rebento; para presidir a Funarte, põe um homem que diz que “rock leva ao aborto e ao satanismo”; na Secretaria de Cultura, havia nomeado um nazista.

             E muito mais. Mas arrematemos: Bolsonaro põe no órgão que tem por objetivo aperfeiçoar o pessoal que faz ciência (Capes) um homem que… rejeita a ciência: o ex-reitor do Mackenzie é adepto do tal design inteligente, variação do criacionismo, que nega a teoria da evolução e a seleção natural das espécies – ou seja, troca a ciência que se fez até agora pela crendice… Tudo às avessas.

            E é só para contrariar mesmo; aquela justificativa de que os nomeados são técnicos acima das ideologias, como já se percebeu (e já se sabia), é pura lorota. Mas qual seria, então, o objetivo dessas (e outras) nomeações estapafúrdias? Há uma mensagem muito clara nisso tudo: Bolsonaro quer sinalizar que ele governa acima de tudo e de todos: do Congresso, da Justiça, da lei, da opinião pública e… do bom senso.

           O presidente quer deixar cada vez mais claro que quem manda é ele. Que não deve contas a ninguém; que é soberano. Põe e dispõe. E por incrível que pareça, é justamente esse seu lado errático, irracional, que encanta o bolsonarismo e boa parte dos incautos de sempre – que acreditam em qualquer coisa.

            Ao agir assim, contra tudo o que é razoável, Bolsonaro quer passar três mensagens: primeiro, é um político independente, faz o que acha que deve fazer, sem Congresso, sem partido, sem nada; segundo, está mudando o país, porque está fazendo coisas que nunca se fizeram, e de uma maneira que ninguém nunca ousou nem ousaria fazer; terceiro, por isso mesmo, é um governante antissistema, antitudo.

           Além dessas, há uma mensagem mais remota, a saber: com esse estilo e com todas essas medidas inusuais e inusitadas que toma, Bolsonaro sinaliza que pode fazer qualquer coisa – até mesmo, se preciso for, fechar o Congresso e suspender direitos constitucionais, instalando de vez o regime autoritário que ele, de fato, pretende instalar no futuro.

                 Para tanto, já infiltrou militares em todas as áreas da administração federal. Está militarizando as escolas. Na reforma da Previdência, manteve as aposentadorias especiais dos militares. Ou seja, trouxe novamente os militares para o primeiro plano da política. Ele próprio e seu vice são oriundos da caserna, ressuscitam, portanto, os tempos da República da Espada e da ditadura militar pós 64.

            Tal como hoje, nossa Primeira República foi comandada por uma dobradinha de militares: marechal Deodoro da Fonseca na presidência, e Floriano Peixoto de vice. Este, ante a renúncia do primeiro, assumiria logo o comando da nação, com poderes ditatoriais.  Como se vê, a República brasileira já nasceu de um modo errado: antirrepublicana e autoritária – é bem capaz que esses vícios estejam mesmo na raiz, no DNA, do nosso regime republicano.

            Vejam o Brasil de hoje. Há sinais evidentes de que estamos retomando o caminho errático do autoritarismo. E não há sinais de que a elite brasileira, o mercado ou a mídia burguesa estejam descontentes com esse rumo – pelo menos por enquanto. Desde que Bolsonaro mantenha sua agenda econômica neoliberal, pode cometer os erros e fazer as besteiras que quiser – terá sempre o respaldo dos poderosos.

               A mídia corporativa (aí incluída, obviamente, a Rede Globo) está descontente com a política autoritária de Bolsonaro, com o fundamentalismo religioso de seu governo e a mediocridade de muitos de seus integrantes, mas não quer derrubar o capitão, pois, naquilo que interessa, a saber, na economia, mídia e Bolsonaro estão juntos, de braços dados: privatizações, restrições a direitos trabalhistas, corte de programas sociais para garantir o superávit primário, reforma da Previdência etc. etc. etc.

              Quem acha que a Rede Globo quer derrubar o Bolsonaro ainda não entendeu nada. Precisa começar lá a trás. Enxergar que foi exatamente esse grupo de mídia, aliado a setores do Judiciário e do Ministério Público, quem aplainou o caminho de Bolsonaro até o Planalto, retirando desse caminho o maior obstáculo: Lula. Que durante as eleições ficou preso e incomunicável numa solitária, proibido até de dar entrevistas, que dirá fazer campanha.

           Pois é, assim nasceu, assim caminha a nossa República – errática. Bolsonaro nada mais é do que a imagem e o produto dessa República que nasceu de maneira errada e insiste, persiste no erro. A tal ponto de o atual presidente adotar a erronia como política, deliberadamente, para testar os limites da democracia e golpeá-la mais adiante, quando ela já estiver bem frágil, exangue, irreconhecível.

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O Oscar da boçalidade

     NUMA palestra, o ex-jornalista da Rede Globo Alexandre Garcia propôs, hipoteticamente, que sua plateia imaginasse a troca da população brasileira pela do Japão. Em seguida, arrematou dizendo que os japoneses, aqui no Brasil, fariam do país uma grande potência mundial, em apenas 10 anos; enquanto que os brasileiros, lá no Japão, seriam incapazes de fazer o mesmo.

              Podemos concluir, portanto, que o problema do Brasil é o povo brasileiro. Que esse jornalista diga tamanha boçalidade, é de se esperar. Afinal o que se espera de um ex-porta- voz da ditadura (integrou o governo de João Figueiredo) e ex-empregado de um monopólio de televisão golpista (que apoiou os golpes de 64 e 2016) comprometido e financiado pelo capital estrangeiro?

             Enfim, boçalidade e complexo de vira-lata é só o que se pode esperar mesmo de um indivíduo que serviu a ditadores e agora serve às elites econômicas – internas e externas. É óbvio que um serviçal desses tem desprezo pelo povo, ao ponto de ironizá-lo publicamente e ainda ser aplaudido pelos que despreza.

              Mas, que o presidente da República, em seu tuíter, tenha compartilhado a opinião, a boçalidade e o vira-latismo desse jornalista lambe-botas, patranheiro e elitista, aí já é demais.

               Ao referendar o raciocínio do ex-global, compartilhando trecho de sua miserável palestra, o presidente brasileiro não está dizendo nada mais, nada menos, que seu povo – inclusive o que o elegeu – é incapaz, incompetente, burro e inferior. Não posso imaginar uma agressão mais estúpida da parte de um presidente da República – que ainda se diz patriota.

             Enquanto isso, o responsável pela Secretaria de Comunicação Fábio Wajngarten (aquele que distribui o dinheiro do Planalto às tevês e depois recebe dinheiro das mesmas tevês em sua empresa particular), vai também ao tuíter (malsinado tuíter!) para dizer que a cineasta brasileira Petra Costa, diretora do filme Democracia em vertigem, indicado ao Oscar deste ano, é uma “militante anti-Brasil”.

             O presidente que detona o povo brasileiro aqui dentro, é um defensor de sua pátria; já a cineasta que divulga o talento brasileiro lá fora, é uma militante mentirosa, inimiga de sua própria gente. É óbvio que tem qualquer coisa – ou muita coisa – de podre nessa lógica!

          Para arrematar, outro global, locutor de Big Brother e biógrafo subserviente do magnata Roberto Marinho, o jornalista Pedro Bial, também achou de esculhambar o documentário da cineasta mineira Petra Costa, dizendo que o filme é “insuportável”, simples “peça de propaganda petista”.

            O medo dessa gente, lambe-botas e vira-latas, é que fique cada vez mais explícito o golpe dado pelas elites em 2016, que derrubou Dilma Rousseff e levou Lula à prisão. O pavor desses tagarelas da mídia golpista é que o mundo venha a saber, finalmente, que Dilma fora derrubada sem ter praticado crime nenhum, e que Lula fora preso pela prática de “atos indeterminados”.

            É pouco provável que o jornalista Alexandre Garcia, sendo japonês, viesse a ironizar seus compatriotas como fez com os brasileiros, em sua própria terra. É altamente improvável que o chefe de Estado do Japão admitisse tamanho desprezo por seu povo, como fez o presidente brasileiro; e é obviamente impossível que o Japão viesse a ser a potência que é se lá houvesse uma mídia e uma elite mesquinhas e entreguistas como as que há por aqui.

       As histórias do Japão e do Brasil são coisas incomparáveis; só uma mente despreparada, ou pérfida, para fazer esse tipo de comparação – tão incabível quanto aleivosa. Coisa que só faz alimentar a humilhação e o complexo de vira-lata que o nosso país, um dia colonizado e escravista, precisa superar urgentemente.

               E uma estatueta concedida pela Academia de Cinema, tal como a Jules Rimet que levantamos pela primeira vez em 1958, certamente que ajudaria a erguer a tão rebaixada autoestima dos brasileiros. Mas, pelo jeito, as elites e seus ventríloquos não querem; seria muito desaforo para o ego inflado de quem baba ovo diante das potências estrangeiras e se considera brasileiro apenas por acaso – tem que dar um Oscar de boçalidade para essa gente…

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