Venezuela e guerra híbrida

         O CONCEITO de “Guerra Híbrida” se aplica tão rigorosamente à situação atual da Venezuela que dá até a impressão de que essa teoria foi elaborada, especificamente, para explicar o que acontece naquele país caribenho.

          Segundo o teórico das “guerras híbridas”, Andrew Koribko, os EUA vêm abdicando de fazer intervenções militares nos países-alvo de seu imperialismo por duas razões pragmáticas: primeiro, as guerras convencionais têm um custo militar, político e humanitário muito alto; segundo, é possível derrubar governos e mudar regimes sem pegar diretamente em armas.

       A nova tática do imperialismo norte-americano para intervir em Estados e trocar governos contrários ou não alinhados aos seus interesses tem duas etapas: (1) promover de fora pra dentro a chamada “revolução colorida”; (2) estimular, no interior dos países atacados, a “guerra não convencional”.

     A Síria e o Iraque são exemplos fulgurantes de que essa é, realmente, a nova modalidade bélica empregada pelo expansionismo imperialista norte-americano, motivado, sobretudo, por razões de estratégia e segurança energética.

         Mas, em que consistem as duas etapas que compõem as guerras híbridas – também chamadas de guerras não convencionais, ou guerras de quarta geração, ou ainda guerras neocorticais?, porque atuam na mente, no córtex, na vontade das pessoas.

           Vamos lá.

      As “revoluções coloridas” são fabricadas externamente por meio de campanhas publicitárias e de informação que visam disseminar ideias contra o governo “inimigo”, utilizando as mídias sociais. Essa propaganda cria a revolta popular interna (bem como o ódio) contra o governo e é sustentada até gerar a desestabilização política e econômica do regime – no caso da Venezuela, o regime chavista.

          Trata-se, portanto, de “operações psicológicas” que geram um “caos administrado”, ou seja, um “fluxo caótico” (reboot do sistema) controlado por meio das redes sociais que disseminam (e fabricam) notícias, informações e propaganda, insistentemente, contra o governo ou povo atacado pela intervenção midiático-informativa.

        O objetivo da propaganda político-psicológica é recrutar as pessoas para agirem contra o regime que se quer derrubar. A “revolução colorida” tenciona formar o que se chama “mente de colmeia”, em que as pessoas se unem e passam a agir como verdadeiro “enxame”, atacando cegamente o governo-alvo – as pessoas no “enxame” nunca sabem que estão sendo “programadas” para agir daquele jeito.

        Em seguida, são utilizados quadros internos, do próprio país-alvo, para liderar a derrubada do regime já desestabilizado pela “revolução colorida”; são os chamados “líderes velados” – no caso da Venezuela, esse papel está sendo desempenhado pelo jovem Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente do país e está agora procurando obter apoio popular para derrubar Nicolás Maduro.

            A “liderança velada” – como Juan Guaidó -, faz o “trabalho sujo” de desestabilização do governo e permite que os EUA “terceirizem a guerra”, que permaneçam de longe, fazendo uma espécie de “guerra por procuração”.

          Caso as estratégias da “revolução colorida” não funcionem, parte-se então para a “guerra não convencional”, que consiste em convocar atores internos (armados ou civis com poderes coercitivos) para derrubar o governo – papel que vem sendo exercido na Venezuela por alguns setores das Forças Armadas que, se ganharem adesão e força, poderão até fazer a guerra civil naquele país.

          Enquanto isso, os EUA realizam uma pressão econômica e militar à distância. Para tanto, contam com seus aliados na América Latina (Brasil, Colômbia, Argentina, Paraguai e outros), assim também com aliados europeus (França, Alemanha, Espanha, Reino Unido), como aconteceu quando os americanos fizeram a violenta guerra tradicional (ou de agressão) no Iraque.

        É justamente a guerra tradicional como a do Iraque, que tem alto custo militar e humanitário, que os EUA querem evitar, utilizando a “guerra híbrida” para a troca de governos não alinhados ou insubmissos à política internacional norte-americana.

            Isso está acontecendo nitidamente na Venezuela, mas aconteceu também no Brasil. Outros países latino-americanos estão sob esse mesmo “fogo-cruzado” (Equador e Bolívia). Paraguai e Honduras foram outros dois casos. Assim, é legítimo concluir que a América Latina, neste momento, está sendo alvo de “guerra híbrida” por parte do império norte-americano.

            (Um trabalho interessante para entender melhor o caso da Venezuela – e também do Brasil – é o livro de Andrew Koribko, Guerras híbridas: das revoluções coloridas aos golpes, editora Expressão Popular. Menciono essa obra apenas para fazer a devida referência e dar os créditos pelos conceitos aqui expostos.)

        Em contrapartida, o império e seus aliados (ou simpatizantes) – uns conscientes, outros, inocentes -, já cuidaram de difundir a noção de “teoria da conspiração” para desacreditar o conceito de “guerra híbrida”, dizendo que tudo isso não passa de simples paranoia, ou mero sentimento antiamericano.

         A “teoria da conspiração” é até um nome bonito, uma ideia sedutora, mas seria rematada ingenuidade supor que os EUA (e suas corporações econômicas e bélicas) não fossem reagir aos governos de esquerda que surgiram nos últimos vinte e cinco anos aqui no subcontinente latino-americano, onde estão duas das maiores reservas de petróleo do mundo – Venezuela (quarto maior produtor) e Brasil (pré-sal).

            Os que ainda assim insistem em dizer que a noção de “guerra híbrida” não passa de paranoia ou teoria conspiratória deveriam, antes de tudo, explicar por que é que Agência de Segurança Nacional estadunidense (NSA), na época do golpe, espionou o Ministério das Minas e Energias do Brasil, a Petrobras e a então presidenta Dilma Rousseff – a ponto de Barack Obama ter que pedir desculpas à presidenta e ao país.

         É o cúmulo da inocência acreditar que os EUA tenham se rendido a um mundo multipolar, com a renúncia de sua liderança na geopolítica mundial, descartando, portanto, intervenções em Estados e governos de áreas estratégicas como, por exemplo, Eurásia, Golfo Pérsico e América Latina.

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Um país irrespirável

        O DEPUTADO fluminense Jean Wyllys (PSOL) acaba de revelar que não assumirá seu novo mandato em 1º de fevereiro próximo; revela também que se mudará do país. Segundo ele, essas decisões se devem ao fato de que está ameaçado de morte, possivelmente pelas milícias do Rio de Janeiro e seus comparsas.

         Nem seria preciso dizer – trata-se de uma questão da maior gravidade. A desistência e o autoexílio de um deputado democraticamente eleito (que já vive sob escolta), impedido de exercer seu mandato e representar seus eleitores, deixa bem claro que estamos vivendo sob uma falsa democracia – que se esvai pouco a pouco.

        Desde que a elite brasileira (em conluio com setores da elite econômico-financeira internacional) planejou e executou um golpe de Estado no país, o país desandou: no campo institucional, econômico, político e cultural.

    É mentira quando dizem que as instituições democráticas estão funcionando normalmente; é mentira que o país tem agora um novo rumo para revitalizar sua economia; é mentira que o sistema político doravante será moralizado; e, finalmente, é mentira que vivemos num pluralismo cultural e comportamental.

         O país, na verdade, passou a viver estupidamente, gratuitamente, sob ameaça.

      Estamos ameaçados pela divisão interna, que vai semeando a discórdia, o ódio e a intolerância em quase todos os campos da vida – até mesmo no seio das amizades e das famílias. Abramos os olhos antes que seja tarde: estamos insuportavelmente polarizados, divididos, rachados…

         No livro, Como as democracias morrem, um best-seller que brasileiros e brasileiras não deveriam ignorar, os autores Steven Levitsky e Daniel Ziblatt explicam, ou melhor, demonstram que “a polarização extrema é capaz de matar democracias”; e a morte delas, a erosão das democracias, é um fenômeno quase imperceptível; insidioso.

      Estamos ameaçados também, sobretudo, pelo advento de um governo autoritário, neofascista e medíocre, que faz apologia da ditadura e rende loas a torturadores; protege milícias e grupos de extermínio.

   Esse governo, num curtíssimo espaço de tempo, já demonstrou, à farta, sua incompetência e seu desprezo pelas instituições democráticas. O autoritarismo e a mediocridade, juntos, constituem uma droga, um coquetel letal para a “saúde” de qualquer democracia – foi sempre assim ao longo da história; é só conferir.

         Imaginem que estamos ameaçados até pela guerra nesta América Latina tão pacífica. Chega a ser um crime de responsabilidade (Lei nº 1.079/50, art. 5º, 3) o fato de o atual presidente brasileiro hostilizar a Venezuela, ameaçando aliar-se aos EUA em caso de uma intervenção militar no país vizinho e irmão.

       Diz essa lei que “É crime de responsabilidade contra a existência política da União cometer ato de hostilidade contra nação estrangeira, expondo a República ao perigo da guerra, ou comprometendo-lhe a neutralidade” – motivo mais que suficiente para o impeachment do atual ocupante do Planalto – está na lei.

      E há mais: podemos ficar ameaçados até pelo “terrorismo internacional” se o atual governo insistir no desvario de mudar nossa embaixada em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém – os árabes já reagiram a isso: o Egito, pela primeira vez, cancelou a visita de um chanceler brasileiro ao seu território, e a Arábia Saudita já restringiu a importação de carne do Brasil.

       A renúncia e “fuga” perfeitamente compreensíveis do deputado Jean Wyllys – na verdade, uma legítima autodefesa -, revela que o Brasil se tornou um país perigoso; sobretudo para aqueles e aquelas (como a vereadora Marielle Franco, a juíza Patrícia Acioli, os sem-terra de Alhandra na Paraíba e tantos outros e outras) que defendem a paz, o pluralismo democrático e a justiça social.

      Mas a resistência segue adiante: no lugar de Jean Wyllys assume o suplente David Miranda (PSOL-RJ), que é “preto, favelado e representante da comunidade LGBT”. Agora são dois: Wyllys lutando lá fora, para denunciar no exterior o regime de exceção em que passamos a viver aqui dentro, e Miranda lutando no Congresso – a resistência se desdobrou.

       É bom lembrar que ela, a resistência, constitui a única maneira de impedir que nossa elite antidemocrática, antipopular e entreguista, ou autoimperialista (Benjamin Moser), asfixie o que resta de nossas instituições democráticas, tornando o Brasil um “país irrespirável” – expressão que li em alguma mídia digital; referida ou criada, salvo erro, por um professor de ciência política da UnB.

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Alguém melhor

       O FIASCO do presidente brasileiro e sua equipe em Davos espantou o mundo. Usando apenas seis minutos dos quarenta e cinco de que dispunha, Jair Bolsonaro fez um discurso raso, vazio. Atropelando as palavras e visivelmente nervoso, não disse nenhuma palavra sobre seu plano econômico no Fórum Econômico Mundial.

       Aqui dentro, os eleitores do presidente votaram no escuro, votaram sem conhecer as propostas dele para a combalida economia brasileira; lá fora, o mundo tinha a expectativa de conhecer essas propostas – ficou sem saber nada.

      Sem exagero, o discurso do presidente lembrou um discurso de camelô: comprem o Brasil!; limitou-se a oferecer o país aos negociantes internacionais. Nenhuma palavra sobre combate à desigualdade, exclusão social, fome, miséria e política externa. Os dados que citou sobre meio ambiente estavam grosseiramente equivocados. Foi humilhante.

       A imprensa mundial ficou perplexa; os empresários desistiram de fazer perguntas ao presidente; os investidores se disseram cautelosos quanto ao Brasil, a Bolsa de Valores despencou. Pra arrematar, o presidente brasileiro acaba de cancelar a entrevista coletiva que daria hoje à imprensa internacional, sob o argumento de que os jornalistas estão muito hostis em relação a ele, por que será?

      Esperava-se, então, que ao menos o Ministro da Economia dissesse alguma coisa mais concreta. Que nada. O monotemático Paulo Guedes só soube falar de “Reforma da Previdência”. Ou seja, o plano econômico do Brasil é fazer uma reforma previdenciária nos moldes daquela que Pinochet fez no Chile – e que está levando os aposentados chilenos ao desespero.

        Talvez então o Ministro da Justiça pudesse ter dito algo de concreto sobre seu plano para a segurança pública e combate à corrupção. Sobre segurança pública, não disse nada; sobre a corrupção, disse que vai fazer um pacto com os empresários; vai combinar com as raposas como é que se toma conta do galinheiro. Santa ingenuidade! Ou seria despreparo mesmo?

       O já folclórico Ministro das Relações Exteriores – aquele que vai combater o demônio do “marxismo cultural” com a ajuda de Deus – nada disse em Davos; e talvez seja o que tenha se saído melhor nessa comitiva.

       Por falar em comitiva, foi bizarra a foto veiculada pela imprensa com Jair Bolsonaro, Sérgio Moro, Paulo Guedes e Ernesto Araújo viajando para Davos a bordo do “Lulão”. Não há como traduzir aquela imagem – esse governo dificilmente será levado a sério; perdeu a sensatez e o pudor – se é que os teve algum dia.

    Enquanto isso, aqui no Brasil, espocam os indícios (e algumas evidências) do envolvimento do filho do presidente com as milícias no Rio de Janeiro. Cedo para emitir algum juízo conclusivo, mas alguns fatos são inquietantes, pois os gabinetes dos Bolsonaro estão atulhados de familiares dos milicianos cariocas.

       O próprio Flávio Bolsonaro confessa que quem indicou essas pessoas para assessorá-lo foi o policial militar Fabrício Queiroz, famoso por nutrir as contas-correntes da família presidencial, e que, quando a coisa aperta, se esconde na favela Rio das Pedras, controlada pelas milícias mais atuantes e violentas da capital fluminense.

       (A mãe e a esposa do chefe do “Escritório do Crime” no Rio de Janeiro, comandante de milícia Adriano Nóbrega, trabalhavam até agora há pouco no gabinete de Flávio Bolsonaro.)

     Não bastasse a inédita militarização do governo federal – os militares estão com 52 cargos em 21 áreas da administração -, vem agora a notícia da sua “milicialização”; Jair Bolsonaro já cogitou legalizar as milícias, e sempre disse que os grupos de extermínio são bem-vindos. (Não acredita? Então procure na internet para vê-lo dizendo isso com suas próprias palavras.)

      Em suma, dá pra entender perfeitamente o desconforto e as palavras do Nobel de Economia, o norte-americano Robert Shiller, na saída da sessão do Fórum em Davos, logo após o discurso de Bolsonaro: abram aspas, “O Brasil é um grande país. Merece alguém melhor”, fechem as aspas.

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Dança, Queiroz

         AS SUSPEITAS (e bota suspeitas nisso, hein!) operações financeiras do policial militar Fabrício Queiroz – uma espécie de faz-tudo da família Bolsonaro -, se transformou numa bela dor de cabeça para o novo presidente e seu clã – as apurações do COAF, independentemente do que apurar o Ministério Público, já são mais que reveladoras.

              E comprometedoras. Porque um presidente que se elegeu com forte discurso de combate à corrupção precisava, no mínimo, esclarecer de pronto, com fatos e provas convincentes, por que é que o policial Queiroz depositou dinheiro sem origem na conta de seu filho e de sua mulher – nem que fosse só para salvar as aparências; para engambelar os que querem ser engambelados.

              Agora, a grande mídia divulga também que, em 2017, Flávio Bolsonaro, deputado estadual no Rio de Janeiro, recebeu em sua conta-corrente inexplicáveis 96 mil reais, num só mês, pagos por meio de 48 depósitos de 2 mil cada – essa manobra do depósito picado é manjada; típica de quem quer “esconder” dinheiro.

               Sinto dizer, mas é outro batom na cueca.

              A família Bolsonaro não explica nada, não atende às intimações do MP, e só sabe dizer que tudo isso é problema do Queiroz – ele que se explique! Ah, tá! Alguém deposita dinheiro suspeito na minha conta, eu embolso o dinheiro, e depois digo que o problema é de quem depositou – fácil, não?

               O Queiroz também não explica coisa alguma, não atende aos chamados do MP – sua filha também não – e há pouco, apareceu internado no Hospital Albert Einstein em São Paulo, se deixou fotografar com sondas no nariz, dando a impressão de que o caso era grave, mas em seguida foi filmado, todo pimpão, dançando no quarto do hospital.

              Só que agora, diante de tantas evidências, o filho do presidente resolveu pedir as bênçãos do “foro privilegiado” – que os Bolsonaro tanto criticavam – e solicitou que as investigações instauradas pelo MP fluminense, em primeira instância, fossem remetidas ao STF, uma vez que ele se tornou senador.

               E o STF, pela caneta pressurosa de Luiz Fux, já aceitou o pedido do parlamentar eleito. A decisão liminar de Fux pode até estar tecnicamente correta, mas uma coisa chama a atenção: ela contraria decisão recente do próprio Supremo, que havia restringido o “foro privilegiado”, reservando-o apenas para os atos cometidos em razão ou no exercício do cargo.

            O que não é o caso de Flávio Bolsonaro. De fato, as investigações nada têm a ver com o seu cargo atual de senador. É óbvio. Ele ainda não tomou posse e, portanto, ainda não exerceu nenhum ato próprio de seu ofício na senadoria da República.

             Assim, o juiz Luiz Fux, se fosse respeitar a decisão unânime do STF – portanto, a sua própria decisão – não poderia ter remetido o caso de Flávio Bolsonaro para a Suprema Corte – é por essas e outras, por essas idas e vindas, que a nossa mais alta Corte de Justiça acabou rebaixada na boca do povo.

        Os especialistas dizem que a manobra de Flávio Bolsonaro, pedindo o foro privilegiado, pode comprometê-lo. É possível, portanto, que aquela arminha que eles, bolsonaristas, tanto gostam de fazer com o polegar erguido e o fura-bolo esticado, tenha se voltado contra seu próprio pé.

                É possível. Mas é preciso ver para crer.

              As investigações, por ora, andaram apenas no âmbito do valoroso COAF. Porque no Ministério Público do Rio nenhum suspeito foi ouvido; nenhum deles foi conduzido coercitivamente; e agora vem um ministro do STF agasalhando uma investigação – e consequentemente o futuro processo -, que deveria permanecer na primeira instância; segundo o próprio STF.

              O Ministério Público e a Polícia Federal, outrora tão diligentes e tão rigorosos, nem apareceram nesse caso do filho e da mulher do presidente. O Ministério da Justiça, hoje comandado por aquele que simbolizava a ética e a moralidade pública no país, já disse que o problema não é seu. Pelo que se vê, o problema é mesmo só do Queiroz; é ele que dança…

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Papagaiada bélica

           O DECRETO do presidente da república visando facilitar a posse de armas é mais uma medida populista (com potencial de populismo trágico!) que conseguiu desagradar a todo mundo: desagradou pacifistas, belicistas, eleitores e opositores de Bolsonaro.

         Desagradou, aliás, à grande maioria da opinião pública, pois as pesquisas mais recentes revelaram que 61% dos brasileiros são contrários ao armamento da população; consideram que a posse e o porte de arma não resolvem o problema da segurança e podem até agravá-lo, aumentando número de homicídio, suicídio, acidente…

             Enfim, com perdão do trocadilho-clichê, o decreto do presidente foi “um tiro no pé”; ou, pra lambuzar de vez na clicheria, foi “um tiro que saiu pela culatra”.

           Mas, como era promessa de campanha, Bolsonaro tinha de dar mesmo alguma satisfação àquela parte de seus apoiadores que apostam na autodefesa do cidadão, na “guerra civil” entre pessoas do bem e pessoas do mal; entre honestos e marginais, enfim, entre “mocinhos” e “bandidos”.

            O problema é que o decreto do presidente pouco ou nada avançou em termos de flexibilização da posse de armas; não foi além daquilo que já prevê o Estatuto do Desarmamento – nem poderia, pois uma lei só pode ser revogada ou modificada por outra lei, nunca por um simples decreto.

         Todavia, apesar da sua timidez, o decreto do presidente já é objeto de uma representação por inconstitucionalidade, promovida pela Defensoria Pública de São Paulo. Por outro lado, bastou esse aceno presidencial para assanhar a “bancada da bala” no Congresso, que deseja partir para a liberação-geral do porte, já no início desta legislatura.

            Para os adeptos do armamento, o ato do presidente foi tão tímido, tão frustrante, que até as ações da Taurus, que haviam aumentado às vésperas do decreto, despencaram na Bolsa de Valores – uma desvalorização média de 21%, tanto nas preferenciais quanto nas ordinárias.

            Nem as vendas de armas cresceram. Os lojistas – vejo nos jornais -, dizem que aumentou, sim, a procura por informações; mas, quando esclarecem ao cliente que as exigências para adquirir uma arma continuam as mesmas, eles somem – sem comprar nada.

         Como forma de atenuar o “fiasco” do decreto, e continuar engambelando seus apoiadores, Jair Bolsonaro promete que, depois de flexibilizar a posse vai facilitar a obtenção do porte, mas gradualmente – a “passos lentos”.

            Tudo indica que essa papagaiada armamentista do candidato Bolsonaro, essa sua “retórica texana” de que os civis, individualmente, devem enfrentar os bandidos de arma em punho, vai se prolongar por mais algum tempo… Haja saco! Enquanto isso, saúde, educação, emprego, crescimento econômico, plano de segurança, combate às desigualdades… niente!

         Mas o curioso da história é que o próprio Bolsonaro, ex-capitão do Exército e, portanto, alguém supostamente treinado para manejar uma arma em caso de enfrentamento com bandidos, já foi assaltado num semáforo do Rio de Janeiro e os assaltantes levaram-lhe a motocicleta e mais o quê?…

              Sim, levaram-lhe a arma que portava; consta que era uma pistola Glock, não sei de que calibre. Moral da história: além de não se autodefender, o agora presidente da república ajudou a engrossar o arsenal bélico dos bandidos que ele quer eliminar. Como se vê, em tema de segurança estamos mesmo bem-arranjados!

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Sem rumo ou inexistente?

          NESTES primeiros dias do governo Bolsonaro já se tornou lugar-comum falar de suas trapalhadas, idas e vindas, ditos e não ditos. A própria mídia de direita, que foi decisiva para colocar o capitão no Planalto, reconhece agora seu despreparo, o despreparo de sua equipe e a sua completa falta de rumo – de plano, então, nem se fala.

          Só nesta semana, os dois grandes jornais de São Paulo, órgãos que ajudaram a aplainar, decisivamente, o terreno que levou Bolsonaro ao Planalto, publicaram dois editoriais e várias matérias (sem contar os inúmeros artigos) apontando a desorientação do governo recém-empossado.

          Para se ter uma ideia da insegurança, fragilidade e despreparo desse governo trapalhão e seu amadorismo colossal, a Folha de S. Paulo contabilizou “um recuo por dia”, nas atitudes do novo governo; verdadeira montanha-russa a conduzir 204 milhões de brasileiros que não têm e menor ideia de onde essa geringonça vai parar.

           Até a mídia internacional, que há muito tempo vinha advertindo para os riscos de um governo de ultradireita no Brasil – sem plano e com discurso fortemente autoritário -, já chegou à conclusão de que Bolsonaro é um desastre; desastre que arranha a imagem do país lá fora e, pior, ameaça isolá-lo do ponto de vista comercial, estratégico e diplomático.

            Algumas áreas já se tornaram bizarras. Nos dois campos em que muitos (cada vez menos) esperam alguma coisa, algum alento – Economia e Segurança -, reina um retumbante silêncio, aumentando ainda mais o enigma de um governo que até agora só produziu folclore.

            Na área econômica, dizem que o superministro Paulo Guedes está preparando um conjunto de medidas, que seriam anunciadas brevemente. Todavia, ninguém sabe o quê. Até agora ele só fez desmentir e contradizer o seu chefe – como foi o caso, por exemplo, da “reforma da previdência”, que Paulo Guedes quer mais radical e Bolsonaro, mais suave.

          O ministro da Economia, sem nenhuma experiência no setor público, quer uma reforma “à la Chile”, ou seja, uma previdência baseada em planos privados de aposentadoria (que provocou muitos suicídios entre os idosos chilenos); já, Bolsonaro não pode fazer isso porque teria de mexer na aposentadoria dos militares – imexível.

            No campo da Justiça, da Segurança e do combate ao crime (sobretudo ao “crime do colarinho branco”), silêncio profundo: o assessor da família Bolsonaro não atende às intimações do MP; o filho de Bolsonaro também não; as denúncias contra Temer não saem do lugar; Onyx Lorenzonni não responde por caixa dois; a investigação judicial no TSE contra Bolsonaro não avança… e o ministro da Justiça… sumido, calado.

          De modo que, mesmo nessas duas áreas, a cargo de dois superministros – as duas superesperanças dos bolsonaristas -, se não reina a bagunça, se não há idas e vindas como no resto do governo, o que há é apenas silêncio, paralisia – que não deixa de ser também um sintoma de falta de rumo.

              Na edição desta semana, a revista Veja – outro órgão de mídia que deu o golpe de Estado no Brasil e pavimentou o caminho de Bolsonaro até o Planalto – publicou a montagem de uma célebre foto de Jânio Quadros, em matéria de capa, onde o ex-presidente, no ano de 1961, aparece com os pés trocados, em direções opostas – como quem não sabe para onde ir.

             Parece-me que na época a matéria jornalística ilustrada por essa foto trazia o título: “Qual o rumo?, ou coisa assim. Por isso, muitos entraram a especular sobre se a revista Veja, e logicamente a direita de que ela é porta-voz, já não estaria antevendo, ou mesmo cavando, o destino do governo Bolsonaro.

             Talvez. Bolsonaro lembra muito o governo pretensamente bonapartista e sem rumo de Jânio Quadros. O que veio depois, todo mundo sabe; o que virá agora, todo mundo teme.

             Por enquanto, o único rumo do governo foram seus “moinhos de vento”, ou seja, os ataques à esquerda e a alguns inimigos imaginários: “comunismo bolivariano”, “globalismo marxista”, “ideologia de gênero”, “marxismo cultural”, “escola esquerdizante”, isto é, tudo coisa que não existe, nem existirá – como o governo Bolsonaro.

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Já deu errado

         HÁ quem diga que o governo Bolsonaro é imprevisível. Mas, por outro lado, há também muita gente otimista com as perspectivas desse governo, acreditando que ele pode sim dar certo, e que o país poderá mudar para melhor. Dois campos são especialmente sensíveis a esses esperançosos: a economia e a segurança.

            Esperam que os superministros, Paulo Guedes e Sérgio Moro, tirem algum coelho da cartola para retomar o crescimento econômico, para acabar com a corrupção e baixar a criminalidade. Esperemos… No entanto, é preciso cautela com tais esperanças.

          A História recente demonstrou que a austeridade neoliberal prometida por Paulo Guedes é um desastre para o alavancamento da economia. Onde ela foi aplicada, não deu certo – que o digam a Espanha, Itália, Grécia, Portugal, França, EUA, México, Chile e a nossa vizinha Argentina – nenhum desses países se recuperou do baque de 2008.

           A História mais recuada também demonstrou isso: o Plano New Deal, que levantou o capitalismo nos anos 30/40, após o crash da Bolsa de NY, e as políticas keinesianas, que levantaram a Europa do pós-guerra, são exatamente o oposto das políticas neoliberais que o novo governo adotará para enfrentar o recente crash econômico de 2008 que, aliás, decretou o fim do neoliberalismo. Mas, esperemos…

           O punitivismo midiático e autoritário de Sérgio Moro, que aposta num sistema penal de “terceira velocidade”, ou seja, numa justiça penal sem garantias – à moda Lava Jato -, é coisa que não se sustenta, não dá certo nos Estados de Direito, regidos que são pelo primado da lei, pelas franquias constitucionais e pelo princípio do devido processo legal. Esperemos, porém…

           Mas, vejamos agora as medidas concretas que foram tomadas nas primeiras horas do novo governo e que já deram errado.

      A extinção do Ministério do Trabalho, depois de quase 90 anos de existência ininterrupta, é uma evidência de que o governo que vem aí está mesmo a serviço do capital – portanto, para a classe trabalhadora, e especialmente para aqueles que trabalham na informalidade ou em situação análoga à de escravo, esse é um governo que já deu errado.

           Se o governo assume e um de seus primeiros atos é fixar o salário mínimo 4,6% abaixo do valor estabelecido pelo Congresso Nacional, fica evidente que sua política não será de valorização dos ganhos do trabalhador – portanto, para os assalariados e para quem vive de aposentadoria esse governo já deu errado.

       A extinção do Ministério da Cultura é sinal de que o novo governo não tem compromisso com as políticas civilizatórias de aprimoramento do espírito humano, e aposta num anti-intelectualismo tosco e típico dos regimes autoritários – portanto, para aqueles que esperavam superar as trevas e o atraso cultural do nosso povo, esse governo já deu errado.

           A ocupação surpreendente do Ministério da Educação pelos militares indica que a pedagogia libertadora e emancipatória, indispensável à formação crítica, humanística e encicloplédica ficará mesmo subordinada aos princípios de caserna: hierarquia, disciplina e obediência – portanto, para os pedagogos iluministas, e para as futuras gerações, esse governo já deu errado.

          Se se considerar que nas democracias o poder armado, por razões óbvias, não pode fazer política, então um governo fortemente militarizado, com militares ocupando ministérios e cargos estratégicos (muito mais que no tempo da ditadura), significa que o regime democrático cedeu passo à autocracia – portanto, para os democratas autênticos esse governo já deu errado.

          A retirada da população LGBTs das diretrizes de Direitos Humanos sinaliza, por parte do governo, que os homossexuais não serão tratados com igualdade em relação aos demais seres humanos, e que o combate à homofobia não será uma prioridade – portanto, para os gays esse governo já deu errado.

             A submissão da Funai ao ministério comandado por uma ministra (Damares) que já militou em ONG incitando ódio aos índios, e a promessa de que os índios não terão mais nem um centímetro de terras demarcadas, devendo se aculturar aos brancos, como nos tempos da colonização, significa que a população indígena caminhará mesmo para a definitiva extinção (ou extermínio) – portanto, para os índios, esse governo já deu errado.

           Quando o governo entrega aos ruralistas o poder de demarcar também as terras de quilombolas significa que o país não pretende saldar sua dívida histórica para com os descendentes dos mais de três milhões de escravos trazidos da África pelos colonizadores – portanto, para os afrodescendentes esse governo já deu errado.

            A nomeação de uma ministra conhecida como a “musa do veneno” para o Ministério da Agricultura significa que o controle dos agrotóxicos, no país que mais agrotóxico consome no mundo, ficará mesmo para as calendas – portanto, para os ambientalistas (e para todos nós que temos a mesa cada vez mais envenenada) esse governo já deu errado.

            A nomeação de um ministro que é acusado pelo MP de São Paulo de ter fraudado o Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental da Várzea do Rio Tietê, indica que ele não tem preocupação com o desmatamento, tampouco se preocupa com o clima e com o aquecimento global – portanto, para os ambientalistas, de novo, esse governo já deu errado.

         O alinhamento automático (cego) do governo ao imperialismo do Norte, e ao Estado sionista de Israel, revela a enorme miopia de uma política externa unipolar e submissa, que compromete seriamente nossa soberania e os nossos recursos naturais – portanto, para os nacionalistas, defensores de um país soberano e de um mundo multipolar, esse governo já deu errado.

       Quando o presidente eleito diz, no seu discurso de posse, que vai dar “respaldo jurídico” para a polícia realizar seu trabalho, significa que uma das polícias que mais matam no mundo seguirá matando sem responder juridicamente por seus atos – portanto, para os 80% de jovens negros e pobres da periferia, que são vítimas de morte violenta anualmente, esse governo já deu errado.

        Quando, nesse mesmo discurso, o presidente diz que não vai gastar mais do que arrecada, que não vai cometer a irresponsabilidade e a gastança de governos anteriores, não se iluda, ele está dizendo que vai cortar programas e serviços sociais – portanto, para os pobres esse governo já deu errado.

          Enfim, convenham, um candidato que se elegeu à Presidência da República com a retórica moralista do combate à corrupção, mas assume seu cargo investigado pelo TSE e pelo MP por atos de corrupção política – que atingem a si e sua família -, é algo que já deu muito, mas muito errado.

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