O Oscar da boçalidade

     NUMA palestra, o ex-jornalista da Rede Globo Alexandre Garcia propôs, hipoteticamente, que sua plateia imaginasse a troca da população brasileira pela do Japão. Em seguida, arrematou dizendo que os japoneses, aqui no Brasil, fariam do país uma grande potência mundial, em apenas 10 anos; enquanto que os brasileiros, lá no Japão, seriam incapazes de fazer o mesmo.

              Podemos concluir, portanto, que o problema do Brasil é o povo brasileiro. Que esse jornalista diga tamanha boçalidade, é de se esperar. Afinal o que se espera de um ex-porta- voz da ditadura (integrou o governo de João Figueiredo) e ex-empregado de um monopólio de televisão golpista (que apoiou os golpes de 64 e 2016) comprometido e financiado pelo capital estrangeiro?

             Enfim, boçalidade e complexo de vira-lata é só o que se pode esperar mesmo de um indivíduo que serviu a ditadores e agora serve às elites econômicas – internas e externas. É óbvio que um serviçal desses tem desprezo pelo povo, ao ponto de ironizá-lo publicamente e ainda ser aplaudido pelos que despreza.

              Mas, que o presidente da República, em seu tuíter, tenha compartilhado a opinião, a boçalidade e o vira-latismo desse jornalista lambe-botas, patranheiro e elitista, aí já é demais.

               Ao referendar o raciocínio do ex-global, compartilhando trecho de sua miserável palestra, o presidente brasileiro não está dizendo nada mais, nada menos, que seu povo – inclusive o que o elegeu – é incapaz, incompetente, burro e inferior. Não posso imaginar uma agressão mais estúpida da parte de um presidente da República – que ainda se diz patriota.

             Enquanto isso, o responsável pela Secretaria de Comunicação Fábio Wajngarten (aquele que distribui o dinheiro do Planalto às tevês e depois recebe dinheiro das mesmas tevês em sua empresa particular), vai também ao tuíter (malsinado tuíter!) para dizer que a cineasta brasileira Petra Costa, diretora do filme Democracia em vertigem, indicado ao Oscar deste ano, é uma “militante anti-Brasil”.

             O presidente que detona o povo brasileiro aqui dentro, é um defensor de sua pátria; já a cineasta que divulga o talento brasileiro lá fora, é uma militante mentirosa, inimiga de sua própria gente. É óbvio que tem qualquer coisa – ou muita coisa – de podre nessa lógica!

          Para arrematar, outro global, locutor de Big Brother e biógrafo subserviente do magnata Roberto Marinho, o jornalista Pedro Bial, também achou de esculhambar o documentário da cineasta mineira Petra Costa, dizendo que o filme é “insuportável”, simples “peça de propaganda petista”.

            O medo dessa gente, lambe-botas e vira-latas, é que fique cada vez mais explícito o golpe dado pelas elites em 2016, que derrubou Dilma Rousseff e levou Lula à prisão. O pavor desses tagarelas da mídia golpista é que o mundo venha a saber, finalmente, que Dilma fora derrubada sem ter praticado crime nenhum, e que Lula fora preso pela prática de “atos indeterminados”.

            É pouco provável que o jornalista Alexandre Garcia, sendo japonês, viesse a ironizar seus compatriotas como fez com os brasileiros, em sua própria terra. É altamente improvável que o chefe de Estado do Japão admitisse tamanho desprezo por seu povo, como fez o presidente brasileiro; e é obviamente impossível que o Japão viesse a ser a potência que é se lá houvesse uma mídia e uma elite mesquinhas e entreguistas como as que há por aqui.

       As histórias do Japão e do Brasil são coisas incomparáveis; só uma mente despreparada, ou pérfida, para fazer esse tipo de comparação – tão incabível quanto aleivosa. Coisa que só faz alimentar a humilhação e o complexo de vira-lata que o nosso país, um dia colonizado e escravista, precisa superar urgentemente.

               E uma estatueta concedida pela Academia de Cinema, tal como a Jules Rimet que levantamos pela primeira vez em 1958, certamente que ajudaria a erguer a tão rebaixada autoestima dos brasileiros. Mas, pelo jeito, as elites e seus ventríloquos não querem; seria muito desaforo para o ego inflado de quem baba ovo diante das potências estrangeiras e se considera brasileiro apenas por acaso – tem que dar um Oscar de boçalidade para essa gente…

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Fascismo desejado

             HÁ um tempo em que as pessoas querem o fascismo. Não é um descuido histórico, simples desconhecimento da história, ou alienação política: é um desejo mesmo. Querem e pronto, é deliberado; ninguém as convence do contrário. Por um conjunto de fatores, mais ou menos identificáveis, irrompe a opção coletiva pelo fascismo – é isso o que alguns especialistas andam dizendo sobre o momento atual.

             E dizem mais: hoje, estaríamos vivendo um momento desses – no Brasil e em boa parte do mundo democrático. Uma como que “pulsão autoritária”, um desejo irracional de destruição das instituições democráticas. Assim como o ser humano tem “pulsões de morte” – portanto, destrutivas e até autodestrutivas – poderia ter também “pulsões autoritárias” – desejo de destruição das instituições que estruturam a democracia.

          No Brasil, por exemplo, é sintomático o tanto que se vê de grupos (e até gente pacífica, aparentemente sensata) querendo fechar o Parlamento, acabar com os tribunais, cancelar os partidos políticos, atacar a universidade e a cultura… E tudo isso sem terem a menor ideia do que pôr no lugar das instituições que querem destruir – é a destruição pela destruição, simplesmente.

             É alarmante, sobretudo depois da eleição de Bolsonaro, o quanto se alastrou no país o discurso fascistoide dos que acham que “bandido bom é bandido morto”; que as instituições públicas são corruptas ou cabides de emprego; que a Justiça é frouxa e protege bandidos; que o Estado é a fonte de todos os males; que os pobres são culpados pela pobreza; que proteção às minorias vulneráveis é privilégio; que no Brasil há muitos direitos e poucos deveres…

             Alguns, totalmente sem rumo, falam na “volta dos militares”. Mas a maioria ataca as instituições democráticas esperando uma solução mágica, que venha dos céus, algo sobre-humano, superior e perfeito, enfim, algo que não sabem bem o que seria nem de onde viria. Uma solução mirabolante, messiânica, personalista, que pudesse assegurar uma ordem perfeita na família, na pátria, no mundo…

           Os estudiosos têm atribuído essa repentina revolta contra a democracia ao fracasso ou insuficiência da democracia liberal representativa, que não foi capaz de atender às expectativas populares (sobretudo da classe média) de bem-estar e status socioeconômico. Notemos que, no mundo todo – e também no Brasil – as revoltas antidemocráticas têm sido de fato lideradas pela elite e pela classe média.

          Às vezes há também alguma ressonância dessa insatisfação nas classes subalternas, mas a inciativa, a liderança do processo de revolta tem sido das elites, das classes médias altas e das camadas efetivamente médias – que se espelham e tendem a atender ao apelo dos de cima, com quem pretende equiparar-se.

        A esse fator – fracasso ou insuficiência da democracia representativa – talvez se pudesse somar um outro: a crise econômica mundial que teve início em 2008, simbolizada na quebra do banco Lehman Brothers (ou crise dos subprimes) nos EUA, que vem ameaçando privilégios e status das classes médias em toda parte, pois trata-se de uma das maiores crises do capitalismo global.

           Isso tudo – o desencanto com a política e as ameaças da economia – insuflado pela percepção da corrupção, pode estar por trás da distopia, e do desejo autoritário, que pretende destruir a velha ordem democrática, nem que seja na marra. Nem que seja para mergulhar no fascismo. (É por demais sintomático que nos últimos dez anos a busca pelo termo “distopia” aumentou mais de dez vezes na internet, e 2018 foi o auge dessa busca, segundo o Google Trends.)

          Pois bem, em meio a esse quadro creio que se possa acrescentar um terceiro fator distópico, igualmente poderoso, que tem contribuído, talvez decisivamente, para as “pulsões autoritárias”, ou o desejo de soluções políticas messiânicas e fascistas: o domínio do ambiente digital pela extrema-direita, que investiu milhões e milhões de dólares na chamada tecnopolítica.

              O objetivo desses grupos milionários extremistas, onde despontam os nomes de Robert Mercer e Steve Bannon, é acabar com o que chamam de “velha política”; atacar as elites que ainda acreditam e defendem a “velha democracia”; arrasar o “velho” pensamento crítico (de esquerda) pela imposição do conservadorismo moral e político; aniquilar o “velho” Estado, abrindo caminho para o “novo”, a saber, o esquema de poder supraestatal das grandes corporações privadas, sobretudo os monopólios da informação.

            Em resumo, a distopia do presente, o desejo autoritário e fascista, podem ter suas raízes no real desencanto com a democracia e na nova crise econômico-financeira do capitalismo, mas é uma distopia, uma pulsão autoritária, em grande parte manipulada pelos novos senhores do capitalismo pós-democrático, pelos arautos do pensamento único e mensageiros das sociedades totalitárias, que invadiram a internet, os corações e as mentes.

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Trocando tudo sem trocar nada

            A ATRIZ Regina Duarte, que assumiu o posto do neonazista Roberto Alvim na Secretaria de Cultura, trocou o título de “namoradinha do Brasil” pelo de “namoradinha de metade do Brasil”. No país da polarização, trocou o todo pela parte, a unanimidade pela discrepância, o certo pelo duvidoso.

           E já começou trocando até os santos: foi comemorar no Twitter o dia de São Sebastião – padroeiro dos cariocas – e postou no lugar dele a imagem de Santo Expedido, que dizem ser o santo das causas impossíveis. Seria um ato-falho do inconsciente dela?, Regina Duarte sabe que é impossível defender a cultura num governo que destrói a cultura?

                 Na mesma tuitada a atriz disse que é CCC – Conservadora, Católica e Cristã. Mais uma troca: embarca no novo Comando de Caça aos Comunistas, ou seja, entra num governo que vê comunismo em todo canto – até a Rede Globo os banqueiros e o nazismo são comunistas.

        Virou moda dizer que é conservador. Mas ser conservador num país com as desigualdades que tem o Brasil, com tanta exclusão social e com tamanha concentração de renda é ser a favor da continuação disso tudo. Ou seja, num país injusto como o nosso ser conservador é quase um crime, um sacrilégio.

           E mais: a diferença entre quem combate e quem apoia um governo defensor de milicianos e matadores, que promove o armamento da população, que faz apologia ao nazismo, que enaltece torturadores e outros tiranos sanguinários, não é uma simples diferença entre ser conservador e progressista; não é uma diferença ideológica – é uma diferença moral.

             A atriz troca as bolas também aqui: ser conservador na Inglaterra é uma coisa, no Brasil, é outra, bem diferente.

              Mas a troca difícil mesmo para a nova secretária da Cultura é deixar o salário da Globo para administrar os 2 bi da Secretaria. Tanto é difícil que ela exigiu um “período de testes”. Se a coisa não andar bem na nova função, volta correndo para o aconchego da família Marinho. É essa troca difícil que explica a hesitação da atriz; não é sua alegada (e notória) falta de preparo ou habilidade política.

            Ainda nesse ponto da troca de bolas, a atriz disse que o presidente da República é “um homem doce”.

             Machão e valentão como ele é, do tipo que prefere ter um filho morto a um filho gay, que estupraria só mulher que merecesse ser estuprada, que diz que a ditadura matou pouca gente e deveria ter matado uns 30 mil, e “otras cositas mas”, não sei se ele gostou da troca de homem durão por “homem doce”.

              Quando Lula foi eleito em 2002, a atriz Regina Duarte disse que tinha medo. E não queria trocar o medo pela esperança. Viu-se depois que ela tinha medo era do sucesso econômico, social e político do governo Lula. Tinha medo da mudança, mesmo que fosse para melhor – os conservadores são assim mesmo: têm medo do novo e saudade do passado.

              Por isso, na Secretaria de Cultura do governo Bolsonaro é bom não esperar muita coisa nova não – nem da Secretaria nem da secretária. Aquele sorriso “todos-os-dentes” da namoradinha do Brasil pode ser trocado rapidinho pelo sorriso amarelo da “namoradinha da suástica”. Porque, se alguém tinha alguma dúvida do perfil neonazista desse governo, o ex-secretário Roberto Alvim cuidou de espantá-la.

            Ele não caiu porque é nazista – caiu porque não sabe ser nazista. E porque Bibi Netanyahu mandou o embaixador de Israel, Yossi Shelley, telefonar para o presidente brasileiro. Bastou. Se dependesse do Bolsonaro – que anda até trocando afagos com movimentos nazistas de Minas Gerais – o ex-secretário Roberto Alvim estaria mais forte ainda no cargo, exatamente como ele (Alvim) calculou, mas esquecendo-se do Bibi.

             A troca de Roberto Alvim por Regina Duarte é como trocar seis por meia dúzia. Não que ela fosse nazista (evidentemente não a conheço), mas a atriz disfarça bem o nazismo. Enquanto o ex-secretário mostrava as garras, a nova secretária mostra os dentes – mas não muda nada; a única coisa que muda é o “homem macho” em lugar do “homem doce”, o santo das causas impossíveis em vez do santo martirizado. Rezemos!

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O teatro da corrupção

              ENTÃO… estamos vendo aí mais um caso pra lá de suspeito no governo Bolsonaro: o chefe da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Fábio Wajngarten, é o homem do Planalto que distribui as verbas para as TVs, e, ao mesmo tempo, tem uma empresa em sociedade com a mãe, FW Comunicação, que presta serviços e recebe dinheiro das tevês, ou seja, ele distribui e depois arrecada.

             Coisa mais ou menos parecida (bem menos grave) aconteceu no governo Dilma. Para resolver, a então presidenta editou uma lei (nº 12.813/13), a chamada Lei do Conflito de Interesses, impedindo que o servidor do executivo federal tivesse emprego ou fosse dono de alguma empresa privada que recebia ou poderia receber dinheiro do governo. Simples assim.

            Com isso, a ex-deputada Rebecca Garcia do Amazonas, que fora nomeada por Dilma para comandar a Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus), teve de renunciar a suas cotas participativas numa empresa que poderia ter interesses em verbas governamentais. Renunciou à empresa e ficou no serviço público.

            O mesmo aconteceu com o então ministro da Saúde de Dilma Rousseff, o médico Arthur Chioro, que era dono de uma empresa de consultoria na sua área – Consaúde Consultoria – e teve de desativar essa empresa para permanecer no cargo de ministro; Dilma não aceitou nem mesmo que ele transferisse suas cotas para a esposa; precisou desativar a firma.

            E em 2013, ainda sob Dilma, houve um outro caso semelhante: o então diretor de Gestão da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), Elano Figueiredo, teve de pedir demissão do cargo de gestor público porque anteriormente havia trabalhado para planos privados de saúde.

             Esse é o governo do PT, que diziam ter inventado e implantado a corrupção no país: editou uma lei para evitar conflitos de interesses entre o setor público e o setor privado, prevenindo a corrupção, e fez com que os servidores ou deixassem a iniciativa privada, permanecendo no governo petista, ou pedissem demissão de seus cargos públicos e fossem cuidar da vida. Simples assim.

               E o que acontece agora, num caso idêntico, dentro do governo Bolsonaro, que foi eleito para acabar com a corrupção? O empresário é simplesmente mantido no cargo público e não desiste de sua participação na empresa privada (em que é dono de 95% das cotas), a qual recebe dinheiro público por intermédio das agências privadas de TV. Simples assim.

             O caso Secom é um caso muito emblemático de como o problema da corrupção é tratado (e manipulado) no Brasil. Imaginem se isso acontecesse num governo do PT; imaginem o escarcéu na mídia e a enxurrada de editais e análises dos capachos da mídia burguesa pedindo a cabeça (e até cadeia) para os petistas.

         Agora, a corrupção é tratada assim: o governo nega e mantém os suspeitos e indiciados nos cargos (vide Onyx Lorenzoni e o ministro do Turismo); as investigações não andam (vide o caso Queiroz); os órgãos de investigação estão manietados (vide o Coaf e a Polícia Federal nas mãos de Moro); a mídia até noticia, mas não divulga, não faz escarcéu nenhum (uma parte dela nem noticia); os “paneleiros” aposentaram as panelas, e assim a vai… Sem ir.

           Não se pode nem perguntar ao Bolsonaro sobre o Queiroz, o ministro Álvaro Antônio, o Onyx Lorenzoni e agora o Fábio Wajngarten. Certeza que ele vai mandar perguntar pra nossa mãe. E nem se ouse saber sobre o dinheiro depositado na conta da primeira-dama por um miliciano; ou sobre a Val do Açaí, que era lotada no gabinete do então deputado Bolsonaro e vendia Açaí na praia; ou acerca das “rachadinhas” da família…

             A história revela que é assim que funciona. A corrupção foi usada para acabar com o governo popular (e com a vida física e política) de Getúlio Vargas; para derrubar o democrata João Goulart; e para dar o golpe no governo popular-democrático de Dilma Rousseff. Como se vê, ela, a corrupção no Brasil, não é para ser combatida, é para ser usada, manipulada.

            Agora, não adianta ir pra rua pedir a demissão do chefe da Secom – que tem uma empresa privada de comunicação e, como empresário, se reuniu mais de 67 vezes com donos de TVs a quem ele distribui o seu (o meu) rico dinheirinho. Não adianta pôr camiseta verde-amarela da gloriosa seleção, bater panela, meter bandana na cabeça, fazer selfie com polícia, pedir intervenção militar… Não adianta nada disso – a encenação moralista já passou.

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Nazismo plagiado

         PARA dizer o mínimo, é simplesmente assustador o vídeo em que o secretário da Cultura Roberto Alvim – aquele mesmo que chamou Fernanda Montenegro de “mentirosa” e “sórdida” – anunciou a criação do Prêmio Nacional das Artes, dirigido a vários setores artísticos. O vídeo não é só assustador – é também ridículo.

            Começa pelo cenário. De um lado, a bandeira brasileira. Acima da cabeça engomada do secretário, a fotografia do presidente da República. Do outro lado, uma cruz patriarcal. Pergunta-se, pra que aquela cruz ridícula? O Estado não é laico? E ainda por cima uma cruz bizantina, ortodoxa, sugerindo um fundamentalismo religioso fora de lugar; fora do tempo – só faltou a suástica.

           A música de fundo do vídeo (uma ópera de Wagner, compositor preferido de Hitler), se não era tétrica, era exageradamente sóbria para a ocasião, e para o assunto, por isso, chega a ser sombria, soturna, plangente demais – sem exagero, mais própria para anúncios fúnebres.

          A figura do secretário, essa sim, era tétrica, e ridícula também: cabelo emplastrado e penteado para trás, rente à cabeça, imitando sem pudor os dirigentes nazistas. O olhar fixo e arregalado. O semblante pesadão, fazendo caras e bocas, como quem quer falar à alma das pessoas; como quem anuncia medidas extraordinárias de redenção nacional – em tempos de guerra.

         Mas o pior ainda é o texto. O secretário plagiou descaradamente o ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, copiando sem disfarçar, às vezes trocando apenas a ordem de algumas palavras. E o fez sem citar o ministro nazista. Ou seja, é plágio no duro, na caradura. Nem pra ser nazista esses caras servem – precisam imitar, copiar, plagiar…

             Confiram os dois textos.

       Diz o ministro alemão: “A arte alemã da próxima década será heroica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada”. Agora, o secretário brasileiro: “A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada”.

               É simplesmente constrangedor. Um plágio clássico. Não dá para entender como é que essa gente chegou aonde chegou. Fica cada vez mais claro que há mesmo um projeto para destruir o acervo civilizatório que o país vem construindo pouco a pouco, a duras penas – pretendem inclusive negar e reescrever a história do Brasil. Deboche ou delírio?

              O vídeo todo se perde numa arenga, num pastiche sem sentido que mistura pátria, família e Deus, sem nenhuma conexão com as artes. Que eram, na verdade, o motivo do pronunciamento. O secretário, arbitrariamente, faz de uma mensagem política uma cerimônia ideológica, religiosa, nacionalista, patriarcal… Miscelânea.

           Termina sua infantilizada e constrangedora peroração dizendo que “2020 será o ano do renascimento da arte e da cultura no Brasil”. Como assim, secretário? Não é o governo de seu chefe que declarou guerra à Ancine?, que censurou filmes e obras de arte cortando patrocínios por empresas públicas? que vai fechar a TV Escola?, que extinguiu o Ministério da Cultura?

            Posteriormente, numa entrevista, o secretário Alvim disse que assina embaixo das declarações do nazista Joseph Goebbels. Afirma e reafirma que as ideias desse ideólogo de Hitler são “simplesmente perfeitas”. Não sei de onde saiu essa gente que Bolsonaro escolheu a dedo; temo que isso não dê em coisa boa – a esperança é que esses caras não tenham competência nem para copiar o nazismo.

         Enfim, resta saber até que ponto o povo brasileiro estará disposto a engolir a mediocridade, o plágio, as mentiras, a censura e o autoritarismo desse governo. O eleitorado bolsonarista não vai dar o braço a torcer, e parece disposto a engolir o Bolsonaro de qualquer jeito – com casca e tudo. A esperança é que os demais brasileiros e brasileiras – nem que seja por medo – comecem a perceber que o “ovo da serpente” veio parar nosso ninho.

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Irã: a favor ou contra?

          A ESTÚPIDA polarização em que se encontra metido o país fez com que muitos brasileiros, mesmo de longe, tomassem partido nessa nova crise do Oriente Médio: aparentemente, o bolsonarismo defendendo Trump, o antibolsonarismo condenando o ataque determinado pelo presidente norte-americano, que matou o líder do grupo de elite da Guarda Revolucionária do Irã – general Qassim Suleimani.

              A internet já está cheia de memes, charges e notícias curtas num e noutro sentido, a favor e contra o Irã. Muitos brasileiros, assim como Bolsonaro, tomaram partido. E, claro, as opiniões são (supostamente) livres, variam de acordo com o “gosto” de cada um. Mas os fatos são os fatos, não variam de acordo com as opiniões, e seria bom que fossem levados em conta antes de opinar.

            Por exemplo: um fato inquestionável é que a grande vítima de toda essa escaramuça é o Iraque. Porque as bombas, mísseis e drones estouram em seu território, vitimando sua população. Aliás, os iraquianos são vítimas passivas desde a guerra de agressão comandada por Bush-pai nos anos 90, continuando com a invasão do país em 2003, esta tocada por Bush-filho – portanto, só os Bush mataram meio milhão de pessoas, milhares de crianças, no Iraque.

            Outro fato é que a guerra no território iraquiano está sendo feita por uma grande potência bélica, atômica e imperialista (EUA) contra uma média potência regional (Irã). Aí não tem inocente, nem vítima. Ambos, EUA e Irã, despejam bombas na cabeça dos iraquianos; o país está destroçado, um palco de guerra entregue à ação das milícias.

            Mais um fato (e não boato) a respeito desse conflito: Os Estados Unidos têm no Oriente Médio 27 bases militares, distribuídas por 12 países, e mantêm na região 80 mil soldados. Só na Turquia os americanos guardam um estoque de 50 armas atômicas, prontas para entrar em ação – notem: isso tudo é fato, não é simples opinião. O que é que os ianques estão fazendo lá? Passeando que não é.

             É fato também que o Irã não está se enfiando na América, ocupando e instalando bases militares aqui no Ocidente, ao redor do império do Norte; os iranianos não têm nem um traque baseado nas imediações do Golfo do México, Canadá e adjacências. Se isso acontecesse, o país persa já estaria destroçado e invadido pelos norte-americanos há muito tempo.

              Esses são os fatos; agora, uma opinião.

            O presidente Trump mandou matar o segundo homem do Irã para estancar a queda de sua popularidade interna, escapar de um impeachment e reeleger-se este ano. É histórico: a aprovação dos presidentes norte-americanos explode, vai lá em cima, toda a vez que o país entra em guerra. Nessas ocasiões, o povo norte-americano se sente mais seguro apoiando seu líder.

             Outra opinião: o ataque determinado pessoalmente por Trump foi, sim, um ato de guerra – uma guerra não declarada, mas deflagrada. Se o Irã responder na mesma moeda (como parece que já está acontecendo), e tentar matar algum figurão norte-americano nas bases militares dos Estados Unidos no Oriente Médio, aí sim, será guerra mesmo, clássica – de parte a parte.

        É por isso que o governo russo tachou a atitude de Trump como “um passo aventureiro”, que só aumenta as tensões na região. E a verdade é que até mesmo a eleição de Trump para a Casa Branca – um empresário que até ontem apresentava concursos de misses na televisão – foi uma aventura temerária do povo norte-americano; tornou o mundo mais inseguro.

              E o que é que o Brasil ganha tomando parte nessa pendenga, como fez o presidente Jair Bolsonaro, apoiando Trump e qualificando o governo do Irã como terrorista? Não ganha nada – só perde. Perde sua posição histórica de neutralidade nos conflitos do Oriente Médio; o que sempre lhe garantiu a imagem de país conciliador – fundamental para a negociação de nossos interesses comerciais na região.

          Esse alinhamento automático de Jair Bolsonaro ao governo Trump já está patético demais. Passou da conta. A diplomacia brasileira nunca esteve assim tão de arrasto, tão subserviente. É uma diplomacia lambe-botas, que ainda vai acabar arranjando confusão pra nós – e gratuitamente.

              Se Trump é um aventureiro, Bolsonaro não é menos. A diferença é que Trump age em defesa dos interesses de seu país, Bolsonaro defende o país dos outros; Trump não cede um milímetro de seu território, Bolsonaro já entregou a nossa Base de Alcântara; um, ataca o Irã e consolida o poderio de seu país, o outro, xinga o Irã e perde o peso moral de país neutro. Que diferença, hein?!

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Bolsonaro e a necropolítica

            COMO a transparência do termo revela desde logo, “necropolítica” é a política da morte. Trata-se da expressão máxima do poder político: ditar quem pode viver e quem deve morrer. O poder absolutamente soberano é aquele que exerce o controle sobre a mortalidade; com isso, define e controla também a vida – não pode haver nada mais perverso.

               (O conceito de “necropolítica”, tal como reproduzido acima, foi elaborado por um dos maiores pensadores de nosso tempo – o camaronês Achille Mbembe, professor de História e Ciências Políticas na Universidade Witwatersrand, em Joanesburgo, e na Duke University, nos EUA. Ele próprio declara que seu conceito de “necropolítica” coincide com o que Michel Foucault chama de “biopoder”.)

        O perturbador é que essa “política da morte” (Mbembe) ou “domínio da vida controlado pelo poder” (Foucault) é algo que parece estar sendo implantado no Brasil neste momento, com a chegada de um populista autoritário à Presidência da República.

            Depois de passar a vida dizendo que “bandido bom é bandido morto”, de enaltecer milícias e grupos de extermínio, e de dizer que a ditadura no Brasil deveria ter matado umas 30 mil pessoas, Jair Bolsonaro se elegeu presidente brandindo o símbolo de uma arma, prometendo armar a população e dotar as polícias dos meios, materiais e jurídicos, para, sempre que necessário, matarem os que considera “bandidos” ou “fora da lei”.

               Neste primeiro ano de governo, a Polícia Federal liberou mais de 44 mil portes de arma. O governo já mandou ao Congresso a proposta para afrouxar ainda mais a concessão desse porte. É evidente que a população não saiu se matando de uma hora pra outra, e o número de homicídios não explodiu – pois o efeito dessas liberações não é imediato, é progressivo, tem o potencial de produzir mais mortes ao longo do tempo.

          Ainda não há cifras oficialmente registradas, mas neste primeiro ano do governo Bolsonaro, segundo o Instituto Sou da Paz e Instituto Maria da Penha, só o feminicídio aumentou 27% em São Paulo e 10% no Distrito Federal. Fruto da liberação de armas ou da misoginia de um governante que define quais mulheres merecem ou não serem estupradas?

              Após a chegada de Jair Bolsonaro ao poder, apoiado pelos governadores Witzel e Doria, a letalidade das polícias militares do Rio de Janeiro e de São Paulo aumentou no período de janeiro a outubro. É evidente que essas polícias, mesmo com o incentivo dos governantes, não sairiam matando a torto e a direito – o efeito de uma política que incentiva a letalidade policial também não é imediato, é evolutivo, para o futuro.

            Quando o Exército, “por engano”, matou um músico negro no Rio de Janeiro com 80 tiros, Bolsonaro demorou uma semana para se pronunciar, quando o fez, disse que o Exército não tinha matado ninguém. Numa lógica só sua, afirmou que o Exército é do povo e o povo não é assassino. Enquanto isso, a população negra continua morrendo, ou melhor, sendo morta pela repressão nos morros cariocas.

            Os assassinatos da vereadora Marielle Franco e seu motorista Ânderson Gomes, com repercussão mundial, são “ignorados” por Bolsonaro. Ele faz questão até de pronunciar erradamente o nome da vereadora, chamando-a de “Mariela”, para demonstrar seu desprezo pela vítima, covardemente assassinada por pessoa muito próxima à família Bolsonaro.

           O governo federal, por meio de seu sorumbático ministro da Justiça, propôs ao Congresso um pacote anticrime que previa o instituto da “excludente de ilicitude” para beneficiar policiais que matassem alguém em serviço, desde que o policial tivesse sentido medo na ocasião ou estivesse em situação de surpresa ou violenta emoção – se isso não era uma verdadeira “licença para matar”, era, sim, um sinal, um “convite” sutil para tanto.

      Agora, no final do ano, o presidente Jair Bolsonaro concedeu um indulto inconstitucional apenas aos policiais e “agentes de segurança”. Nunca houve um indulto assim: que beneficiasse apenas uma categoria profissional; isso fere claramente o princípio da isonomia. Mas o objetivo também é claro: sinalizar que agentes de segurança que cometem crimes, e até matam, poderão ser perdoados.

               O presidente deixou seu partido (PSL), com sérios problemas de financiamento de campanha (“laranjal”), e fundou outro. O novo partido, Aliança pelo Brasil, recebeu o número 38, numa clara referência ao calibre de um revólver que se popularizou com o nome de “trezoitão”. Percebe-se uma fixação meio patológica, necrófila, em armas e mortes.

           Cumprindo promessa populista, o governo mandou retirar radares móveis das rodovias federais. Resultado: em dois meses, o número de mortos cresceu 2% e o de feridos aumentou 9,1% em relação ao mesmo período do ano passado. Na área do trânsito, o presidente pretendia exercer controle até mesmo sobre a vida das crianças – propôs abolir a obrigatoriedade das cadeirinhas de segurança em automóveis. Delírio.

               O desmonte do SUS, em 5.507 municípios brasileiros, desde a PEC do Teto, com o cancelamento do programa Mais Médicos e o desinvestimento na Atenção Primária à Saúde (APS), deve causar perto de 50 mil mortes precoces no país até 2030 – isso, segundo apuração do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA), em colaboração com pesquisadores da Universidade de Stanford e do Imperial College de Londres.

     Fatos e números revelam, portanto, que está em andamento no Brasil, progressivamente, a implantação de uma “necropolítica” ou de um “biopoder” que tem por finalidade assegurar o máximo controle da sociedade pela via do “controle da vida”. É uma política perversa que atua sobre o corpo das pessoas. Os brasileiros, mais cedo ou mais tarde, terão de decidir se pretendem mesmo prosseguir nesse caminho…

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