Desmascarado pela máscara

FOI preciso que o país batesse na casa dos 300 mil mortos em um ano; contabilizasse 11% das mortes no mundo todo; respondesse por 27% dos mortos no mundo na última semana; ultrapassasse a marca de 3 mil mortes por dia para que o presidente da República enfiasse uma máscara na cara, falasse em vacina e lamentasse a morte de milhares de brasileiros. Não convence.

Jair Bolsonaro só mudou o discurso. E mudou, não por causa das mortes e da explosão da pandemia, nem porque é um homem sensível ao sofrimento alheio e preocupado com seu povo, mudou porque sua popularidade despencou, e continua despencando. Ele só pensa na reeleição em 2022. Ou terá sido a fala de Lula enquadrando o presidente? Ou terá sido a carta de banqueiros e empresários que também puxaram a orelha do capitão?

Como um menino travesso e sem juízo, o presidente fora chamado e advertido pelos chefes do Legislativo, que provocaram uma reunião com governadores e, finalmente, a criação de um comitê para gerir a pandemia, sob o comando do presidente do Senado – porque o presidente da República nunca pensou em criar um “gabinete de crise”, não tem plano de vacinação e já demonstrou, fartamente, que não tem condições de gerir nada, a não ser a paranoia de seus seguidores.

A máscara que agora ostenta grotescamente no focinho, Bolsonaro já disse que era coisa de “maricas”. Incentivou a aglomeração de pessoas sem o uso dela. Pior: participou dessas aglomerações como um moleque doidinho fazendo pirraça para aqueles que preconizavam o distanciamento social e o uso de máscara em qualquer circunstância. É grotesco vê-lo agora com o anteparo no rosto; desmascarado pela máscara que muito a contragosto passou a usar.

Sobre as vacinas que ele agora defende, nunca e empenhou-se em comprá-las. Quando alguém o confrontou por essa omissão, ele disse; “Só se eu for comprar na casa da tua mãe!”. Desdenhou da vacina chinesa (Coronavac) e recusou 70 milhões de doses oferecidas pela Pfizer norte-americana.

Sobre as mortes de milhares de compatriotas, Bolsonaro também já escarneceu: “Fazer o quê?”. “Vai morrer quem tiver que morrer!”. “Não sou coveiro!”. “É preciso parar de tanto mimimi!”. Nunca demonstrou qualquer empatia, muito menos compaixão, para com aqueles que foram desgraçadamente atingidos pela doença. Bem por isso já o chamam de psicopata e genocida.

Mas, de duas coisas o presidente ainda não abriu mão: tratamento precoce e oposição ao distanciamento social. Se o capitão voltar atrás nesses dois quesitos, acabou. Os malucos que o seguem ficarão completamente órfãos, desamparados – sem o que dizer lá em casa! Ele precisa manter esse discurso cloroquínico para atiçar suas bases e seus seguidores mais lisérgicos.

A força dos fatos, porém, vai se impor pouco a pouco. Disfarçadamente, talvez por meio de seu novo ministro da Saúde, Bolsonaro vai admitir o distanciamento social (sem se dobrar ao lockdown), e vai parar de defender o “kit covid” como fez até agora; vai, como se diz, sair à francesa, pois gerir a pandemia e um país do tamanho do Brasil não é coisa para o mísero tamanho do capitão.

Em seu último pronunciamento por rede nacional, o presidente mentiu à vontade. Tentou esconder a omissão criminosa que foi a tônica de seu comportamento desde o início da pandemia. Que Bolsonaro tenha sido incompetente e leviano em face desse drama de proporções mundiais é perfeitamente compreensível – ele tá na dele, nunca fez nada que prestasse por onde passou; o que espanta é ter quem o apoie, quem acredita nele.

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