O megafracasso do megaleilão

              SURPREENDEU a todo mundo o fracasso do leilão do petróleo excedente na Bacia de Santos (RJ), reserva do pré-sal. Ninguém entendeu. As empresas estrangeiras não compareceram ao certame e a Petrobras arrematou quase tudo, ou seja, 70% do que foi ofertado, equivalente a 90% da compra efetivada; dez por cento disso ficaram com duas petroleiras estatais chinesas, em consórcio com a Petrobras.

           Especialistas estão queimando as pestanas para explicar essa ausência das grandes empresas estrangeiras no megaleilão. Foi um vexame para o governo brasileiro, que, mesmo na bacia das almas, não conseguiu vender o nosso petróleo aos gringos, especialmente às petroleiras norte-americanas que o governo Bolsonaro tanto corteja.

             O que aconteceu?

            Já disseram que o preço mínimo estabelecido pelo governo (106 bilhões de reais ao todo) era muito alto, e isso teria espantado os arrematantes. A mídia burguesa tenta “vender” essa versão. Mas não é verdade. O preço estabelecido era de 6 a 7 dólares o barril, cujo custo poderia chegar a 20 dólares, um valor ainda muito baixo e atrativo – não foi isso, portanto, o que assustou e afastou os estrangeiros do leilão.

         Houve quem dissesse que as petroleiras internacionais desistiram de investir no Brasil por causa da instabilidade política e jurídica que se instalou no país. Temiam que esse leilão fosse parar na Justiça (como de fato foi; já estava sub judice). Em menos de seis meses o chamado Risco Brasil foi lá em cima e em seguida despencou lá embaixo; uma montanha-russa que desanima qualquer investidor.

        Mas há quem diga que o fracasso do leilão do pré-sal se deveu à presença da Petrobras, com direito de preferência e privilégio de escolha dos lotes. Logo, as empresas estrangeiras não estavam dispostas a participar em situação de desigualdade. Isso quer dizer que o governo brasileiro vendeu o petróleo a si próprio – não teve competência nem para entregar as nossas riquezas aos gringos.

          Pode ser que todos esses fatores, juntos, tenham realmente concorrido para o fracasso do leilão de ontem. Mas a causa é outra; há uma explicação bem mais plausível.

           As empresas estrangeiras preferem que a Petrobras faça a extração do petróleo in natura, que ela assuma os custos e os riscos dessa extração, para depois comprar dela toda a matéria-prima em estado bruto, refiná-la e vender – inclusive para o Brasil – a um preço dez vezes maior do que o preço aquele pago à petroleira nacional para a extração.

        De fato, o Brasil deixou de investir no refino do petróleo, está vendendo suas refinarias aos gringos, e vai agora vender também o produto extraído do pré-sal para ser refinado pelas empresas estrangeiras. Vale dizer: a Petrobras vende o barril cru a 6 ou 7 dólares e depois compra o mesmo barril refinado por 60 dólares. Essa é a jogada das petroleiras que já compraram nossas refinarias e boicotaram o leilão do pré-sal.

            Nenhuma surpresa nisso. Como sempre, vamos continuar com o nosso modelo extrativista, ou seja, o modelo primário-exportador, fornecendo matéria-prima de baixo custo ao primeiro mundo e comprando dele o mesmo produto com valor agregado, muito mais caro. É assim que se perpetuam a nossa dependência econômica e o atraso das nossas políticas sociais.

              É de se esperar que os brasileiros – e especialmente os patriotas que andavam aí nas ruas com suas camisetas verde-amarelas – despertem e acompanhem atentamente esse suspeitíssimo processo de venda do pré-sal, para intervir no momento necessário, em defesa do nosso petróleo e da nossa soberania.

          Desta vez, a Petrobras abocanhou quase tudo o que foi leiloado. Pelo menos por enquanto, o petróleo do pré-sal ainda é nosso. Mas, se dependesse daqueles que até ontem diziam defender os cofres públicos contra a corrupção, a vaca teria ido pro brejo; os gringos, se lhes interessasse, teriam levado tudo – e na bacia das almas; como de fato ainda poderá ocorrer mais adiante, quando a Petrobras vender para as refinarias estrangerias o petróleo extraído do pré-sal. A conferir…

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