Tchau, petróleo!

           O MEGALEILÃO do pré-sal que acontece hoje é o maior leilão do mundo. Inédito. Único. Nunca houve um leilão assim. Claro, nunca nenhum país do mundo vendeu suas maiores reservas de petróleo nem entregou de mão beijada sua tecnologia extrativista aos concorrentes estrangeiros – é a primeira vez.

         Com esse leilão, o país pretende arrecadar 106 bilhões de reais. Acontece que os campos leiloados têm um excedente de 15 a 20 bilhões de barris que podem chegar a valer até dois trilhões de reais. Você leu corretamente: dois trilhões estão sendo trocados por 106 bilhões – negocião da China!

            Os arrematantes pagarão 6 a 7 dólares por barril, terão um custo de 14 dólares para a extração mais pagamento de impostos e royalties, chegando a 20 dólares o custo final de um barril extraído. Pois bem. Cada barril desse será vendido pelos arrematantes no mercado internacional (inclusive para o Brasil) a 60 dólares – dez vezes mais do que os 6 ou 7 que nos pagaram – esse é o tamanho do nosso prejuízo.

         Mas não é só isso. As empresas estrangeiras (11 petroleiras) comprarão o nosso petróleo por essa ninharia sem precisar fazer prospecção nem estudos sísmicos. A Petrobras – com nosso dinheiro – já fez isso tudo. Quem compra nosso petróleo só terá o trabalho de extraí-lo – sem risco nenhum: já sabe que há petróleo, sabe onde ele está e ganha a tecnologia para extraí-lo. Que beleza!

         Assim, além de vender essa riqueza natural na bacia das almas, o governo entrega também a nossa tenologia – de graça. Com isso, vão-se embora nossas esperanças de usar o petróleo do pré-sal para custear a saúde e a educação, bem como o sonho de autonomia energética – hoje, neste 6 de novembro, estão leiloando o futuro e a soberania do Brasil.

           Não é à toa que nenhum país do mundo fez um negócio desses. Reservas como essa do pré-sal são exploradas pelo próprio país que a detém, ou por meio de contratos terceirizados de prestação de serviços, e não de venda – ninguém vende uma riqueza desse tamanho.

           É incrível.  O Brasil tem o petróleo, tem a tecnologia, tem a terceira maior petrolífera do mundo – em lucro, tecnologia e investimentos -, mas, mesmo assim, entrega tudo isso de mão beijada aos concorrentes internacionais. Por quê?

           Porque somos um país explorado pelas grandes potências. O golpe que derrubou um governo popular e democrático, que pretendia implantar uma política de “conteúdo nacional”, preservando nossas riquezas e nossas empresas, resultou nisso: no entreguismo, que, aliás, é um traço histórico de nossas elites, desde o pau-brasil, passando pelo ouro e a borracha.

         Os brasileiros assistem a tudo isso passivamente. Ninguém vai ressuscitar suas estridentes panelas para defender nossas riquezas e nosso futuro. Defendiam com unhas e dentes a Lava Jato que se jacta de ter recuperado 11 bilhões de reais para a Petrobras, mas não movem uma palha para impedir que o país tenha um prejuízo de dois trilhões de reais com o megaleilão do petróleo que seria comercializado pela Petrobras.

           Isso dá bem a medida da alienação política e cultural do nosso povo. Essa sim, uma mega-alienação.

           Quando se dizia que por trás do golpe que derrubou Dilma Rousseff estava o nosso petróleo, e os interesses geopolíticos de grandes potências estrangeiras, era isso que se queria dizer: o governo do PT constituía uma pedra no sapato do imperialismo do Norte. Precisava ser derrubado para que não nos tornássemos uma potência energética e, assim, continuássemos – como desde o descobrimento – fornecendo matéria-prima aos países desenvolvidos.

         Foi exatamente o que aconteceu. Parece uma sina, uma maldição histórica. Há sempre alguma coisa para travar o nosso avanço. E o retrocesso – social, político e econômico – em que nos enfiamos dificilmente será revertido. Custarão décadas e décadas; gerações. E tudo isso por causa de um antipetismo cego, irracional, desinformado e preconceituoso.

            Agora: tchau, petróleo; adeus, soberania!

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2 respostas para Tchau, petróleo!

  1. Álvaro disse:

    Olá, li o seu texto sobre petróleo e tenho algumas considerações.

    Primeiramente, que a exploração do petróleo não tem garantia do grandioso retorno mencionado, visto que existe o “risco exploração”, situação na qual o petróleo não poderá ser mesmo encontrado nas áreas abarcadas pelo megaleilão. A quantidade de barris baseia-se e suposição quantitativa, que pode não se confirmar.

    Sob o ponto de vista econômico, a Petrobrás é EXTREMAMENTE CARA. A mão de obra, manutenção, investimento, (des)valorização da bolsa, tudo vai em conta. Os servidores, em muitos casos são concursados e oneram demasiadamente a folha – exemplo disso foi a necessidade da reforma da previdência.

    Pelo texto, seria uma decisão muito fácil até para uma criança de três anos em não vender, se estes números fossem assim.

    Tem muito outros pontos a se considerar mas o comentário ficaria muito extenso, esses foram apenas dois contrapontos. Grande abraço!

    • Obrigado, Álvaro, pela leitura e comentário.
      Sobre os pontos levantados: 1) Segundo especialistas, o risco da exploração não existe – a quantidade de petróleo nos campos de Santos (RJ) foi prospectada e é conhecida. 2) A Petrobras é “cara” mesmo, pudera, é a maior petroleira da América Latina; só que ela é lucrativa: nos últimos dez anos o lucro oscilou entre 25 bi e 33 bi, ficando na média de 25 bi anuais. É isso o que importa: o saldo final. 3) Sinceramente, não vejo relação entre a Petrobras e reforma da Previdência.
      Abraço.

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