Fascismo à vista

           O QUE se pode esperar de um governo que restringe educação e amplia armamento? Que se orienta pelas ideias de um guru desequilibrado, meio astrólogo, meio ativista de internet, meio escritor reacionário? – não dá pra esperar muita coisa de um governo assim; nem nada que preste.

       Na mesma semana em que bloqueou verbas para a universidade e pesquisa, o presidente baixou um decreto ampliando o porte de arma para civis, militares e colecionadores; enquanto dificulta o acesso ao saber, facilita o acesso às armas de fogo – estima-se que mais de 19 milhões de pessoas poderão se armar com base nesse famigerado decreto.

            O que pretende esse governo? Essa é a pergunta que os analistas andam se fazendo sem conseguir respondê-la.

            Ao que parece, pretende governar sem a política, monarquicamente. O presidente – que não tem partido; o PSL é uma agremiação oportunista – já disse que governará independentemente dos demais partidos – só com as “bancadas temáticas”. Essas bancadas não têm nenhuma densidade política nem ideológica; são voláteis, agem ao sabor do jogo fisiológico e das conveniências de momento.

            E depois de romper com os partidos políticos, a última é essa briga com os generais, da ativa e da reserva, que embarcaram no golpe e na candidatura do capitão. O guru Olavo de Carvalho, valendo-se de um linguajar chulo, já humilhou diretamente o vice Mourão, o general-secretário Santos Cruz, e o ex-comandante do Exército Villas Bôas.

            E o mais intrigante é que o presidente Bolsonaro, além de apoiar o guru tresloucado nas redes sociais, ainda lhe confere a mais alta homenagem da diplomacia brasileira – a Ordem Nacional de Rio Branco de Grã-Cruz. A mesma que concedeu à vítima de Olavo, o vice Mourão.

     Esse comportamento ambíguo do presidente está irritando os militares que embarcaram no seu governo. O problema é que agora eles não têm como sair dessa fria; nem como controlar o capitão e suas milícias. Sabem que o fracasso anunciado desse governo vai respingar na farda do generalato.

           E nesse ponto não só os analistas andam perplexos: nas fileiras bolsonárias (simples eleitores e aquelas pessoas que se identificam com a visão de mundo do presidente) o desconforto é cada vez maior – tanto com a ineficiência do governo quanto com as interferências amalucadas do guru Olavo de Carvalho, apoiado explicitamente pelos filhos presidenciais.

          Entre os especialistas, há quem diga que o presidente já se livrou dos partidos e a agora quer se desvencilhar da tutela dos  militares. Seu projeto é uma “ditadura civil”, apoiada na base das Forças Armadas, na base do Ministério Público, na base do Judiciário, na Polícia Federal, nas polícias estaduais e, não menos, nas milícias armadas (paramilitares).

       Essas bases são excessivamente autoritárias; pode-se dizer que constituem um microfascismo suficiente para dar sustentação a um governo de força. Esse é o risco que o país está doravante correndo – é capaz que uma ditadura civil nesses moldes (que lembra Fujimori no Peru) seja até mais violenta e duradoura do que uma ditadura militar.

          Que o digam os regimes policialescos do século passado com Antônio de Oliveira Salazar em Portugal e Francisco Franco na Espanha. Em Portugal, os militares se viram obrigados a destronar o ditador civil; na Espanha foi preciso uma das mais sangrentas guerras civis da história recente.

         Entre nós, a intelectualidade e a comunidade acadêmica ainda estão paralisadas, perplexas com as manobras desvairadas do governo Bolsonaro; os analistas andam desorientados com tanta maluquice junta; os políticos estão ressabiados, alguns, ressentidos; os generais, descontentes; e até os “bolsonários” andam vacilando diante dos desatinos do capitão.

           Já a mídia golpista e truculenta, como sempre, permanece à espreita, esperando a hora de intervir conforme suas conveniências. Critica mas não derruba o governo Bolsonaro; denuncia suas mazelas e corrupção, mas não sustenta por muito tempo suas denúncias – quer apenas manter o presidente rebelde sob controle. Só que tá difícil.

           Em meio a tudo isso, os brasileiros que fiquem espertos, pois há muito fascista se assanhando por aí –  Sérgio Moro, João Doria e Wilson Witzel estão de olho no Palácio do Planalto.

           Espera-se que depois dessa fubecada com o Bolsonaro o eleitor brasileiro tenha um pouco mais de perspicácia, mais discernimento político para fazer suas escolhas sem a tutela das mídias reacionárias – que sabem como engambelar a classe média -, e sem a catequese das igrejas evangélicas, que engambelam as classes de baixo. Porque a elite, essa, não tem salvação…

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