O bode na sala

          NOS anos 80, um deputado federal por São Paulo, o falecido Roberto Cardoso Alves, à época líder do “centrão”, disse que a política brasileira só funcionava na base do “É dando que se recebe”, ou seja, na base do puro fisiologismo, dos interesses pessoais – era a “velha política” embalada pela oração de São Francisco.

           O presidente Bolsonaro se elegeu dizendo que ia mudar tudo isso; que ia acabar com o toma-lá-dá-cá e instaurar a “nova política” – muita gente pia acreditou nessa promessa; se não acreditou, fez de conta que.

     Não demorou nada e o próprio presidente veio a público dizer que assumiu o compromisso pessoal de indicar o ex-juiz Sérgio Moro para o STF, e que fazia questão de honrar sua palavra. Segundo ele, o trato era o seguinte: o juiz abria mão de 22 anos de magistratura para assumir o Ministério da Justiça (toma lá!) e, depois, o presidente o indicaria para a Suprema Corte (dá cá!).

       O juiz nega. Diz que não houve nenhuma negociata desse tipo e que não impôs qualquer condição ou contrapartida para integrar o ministério de Bolsonaro: jura que sua intenção era apenas travar um combate contra a corrupção e o crime organizado – nada mais que isso.

            Quem está dizendo a verdade, quem está mentindo, o ministro ou o presidente? Ou os dois?

              Os dois mentem.

             O presidente, com essa declaração pública, não está reafirmando seu compromisso anterior de indicar o ex-juiz ao STF, está apenas cortando as asinhas do ministro Sérgio Moro, que sempre andou de olho na cadeira do Planalto, e não na do Supremo – suas aspirações são mais ambiciosas; e têm o respaldo de gente grossa; inclusive gente do exterior.

         Por sua vez, o juiz mente quando diz que assumiu o Ministério da Justiça só com a intenção de combater o crime, a violência e a corrupção. Notem que a primeira coisa que fez quando chegou à Esplanada foi mudar suas convicções sobre corrupção política e perdoar o crime de caixa dois, para não ter que punir seu agora correligionário Onix Lorenzoni.

           A seguir, fez corpo-mole na apuração do caso Queiroz, porque os desvios de dinheiro levantados pelo Coaf iriam chegar até o presidente da república e sua família; inclusive à primeira-dama, que recebeu dinheiro do miliciano e não conseguiu explicar a origem de um centavo sequer da grana depositada em sua conta – o juiz, antes um paladino da moralidade, agora faz cara de paisagem.

        Na verdade, o ex-juiz assumiu o ministério para se manter no palanque, na cena política. Só que Sérgio Moro cometeu um grave erro estratégico ao aceitar o ministério de Bolsonaro: primeiro porque pegou muito mal ele ter tirado o Lula da eleição e se aliado ao adversário político de Lula; segundo porque o fracasso de Bolsonaro será também um fracasso de Sérgio Moro, superministro desse governo.

         Se o juiz tivesse ficado bem quietinho lá em Curitiba, atuando no âmbito da Lava Jato, mandando prender Michel Temer, outros figurões do MDB e alguns empresários, continuaria sob as luzes, como símbolo do combate à corrupção. Aí, logo após o fiasco do capitão, seu nome seria imediatamente lembrado para a sucessão presidencial.

            Mas o juiz, neófito e sem nenhuma experiência política, foi com muita sede ao pote. Deve estar arrependido de associar seu nome à babel bolsonarista. Uma alternativa para ele, agora, seria pular fora do barco enquanto é cedo; descolar-se do bolsonarismo e recacifar seu nome para o Palácio do Planalto – uma parte da mídia reacionária já está até sugerindo isso.

            Se, pelo contrário, o ministro insistir em permanecer no governo caótico do capitão, será “fritado” politicamente até o final. Porque a classe política não quer nem saber do seu perfil autoritário e moralista; o serviço que ele tinha de fazer, já fez, que era usar a aparência de legalidade para derrubar o PT e perseguir os petistas.

             Agora, os políticos querem ver Sérgio Moro pelas costas, e de longe. Não precisam mais dele. Se calhar, não lhe aprovam o nome nem para o Supremo. O ex-magistrado virou o bode na sala. Pouco a pouco, como aconteceu com outros golpistas (Eduardo Cunha, Aécio e Temer) Sérgio Moro será descartado da política – e Jair Bolsonaro, embora atabalhoado, já deu o primeiro passo…

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4 respostas para O bode na sala

  1. cLÓVIS mODA disse:

    Professor, o nome do político era ROBERTO CARDOSO ALVES e não Sérgio.. Grande abraço e sou leitor assíduo de suas crônicas…. !

  2. Arthur Jacon disse:

    Professor, uma análise melhor que a outra.

    Abs,

    Arthur

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