O papo-furado sobre ditadura

          ME entendam bem, por favor: ditadura é coisa séria, não pode ser minimizada nem esquecida; precisa ser lembrada e combatida sem trégua, sem concessões. Ditadura, portanto, não é papo-furado; papo-furado é o papo do Bolsonaro sobre ditadura, determinando a comemoração do golpe de 64, neste domingo.

          E por que o papo do presidente é furado?

        Porque ninguém deu bola. A mídia, que ajudou a colocar o capitão na presidência e agora está com um pé atrás tentando controlar o autoritarismo dele, tratou logo de desestimular essa ideia; passou a pulverizar no noticiário fotos, reportagens e entrevistas que lembram os “probleminhas” e os crimes da ditadura.

          Nem a cúpula das Forças Armadas deu trela ao capitão. Ficaram constrangidos com a nota de que o Ministério da Defesa deveria tomar providências e iniciar os preparativos para comemorar este 31 de março. Os militares desconversaram; ninguém acatou a ordem do presidente.

     Aliás, nem o próprio prestigiou sua ordem: escafedeu-se para Israel, não está comemorando golpe nenhum.

          Está lá, paparicando o chefe de um Estado bélico (Bolsonaro tem fixação por tudo que diz respeito a bélico, arma, ataque etc. – é belicoso, portanto!) parceiro do expansionismo (também bélico) norte-americano; um Estado sionista (o povo judeu não têm nada com isso!) que mantém a céu aberto, sob armas, a maior prisão do mundo – Gaza.

          Consta que o capitão, logo após emitir a ordem pra comemorar o golpe castrense de 64, suavizou, desdisse-se: esclareceu que seu texto era apenas pra ser lido nos quartéis, e não pra comemorar a “revolução” militar. Quer dizer: deu em nada sua exortação; era só papo-furado mesmo, marola.

        Mas cabe a pergunta: por que será que o Bolsonaro faz esse barulho todo, levanta questões de conteúdo moral, comportamental e cultural, atiça o bate-boca entre democratas e antidemocratas, progressistas e conservadores e depois dá o fora, ou volta atrás?

         Por sinal, desdizer-se e recuar são as únicas coisas que Bolsonaro tem feito nestes três meses de presidência, a ponto de alguém afirmar outro dia que voltar atrás é a melhor coisa que ele sabe fazer.

         E de fato é. Porque o que ele fez na saúde? Cortou investimento. O que ele fez na educação? Desarranjou o MEC. O que ele fez na economia? Estagnação e desemprego (12,4%). O que ele fez em relação à desigualdade social? Cortou benefícios sociais. O que ele fez para os trabalhadores? Tirou mais direitos. O que ele fez para preservar nossas riquezas? Entregou o pré-sal. E nossas empresas públicas? Está privatizando.

         Vejam, se ele voltasse atrás em tudo isso já seria uma bênção; mas não se iludam, o capitão veio pra quebrar tudo isso, obstinadamente.

        Pensando assim, dá até pra entender por que vira e mexe ele arma todo esse babafá em torno de questões morais, culturais e comportamentais. Sem contar as questões místicas: Deus acima de todos; Jesus na goiabeira; derrota do marxismo cultural com a ajuda da Providência… Esse povo é doido, cara!

         Enquanto isso, sem nada pra oferecer ao país em termos de crescimento econômico, geração de emprego, justiça social, ciência e democracia, o capitão-presidente vai distraindo o respeitável público com seus malabarismos e estrepolias de picadeiro.

        Desvia a atenção dos distraídos, faz uma cortina de fumaça para esconder seu não governo e, de quebra, tapeia boa parte daqueles que já estão deixando de falar no “laranjal”; não estão mais preocupados com quem mandou matar Marielle; estão esquecendo a investigação sobre vínculos com milícias; sobre desvio de dinheiro público nos gabinetes parlamentares; e dinheiro na conta da primeira-dama.

      Tudo isso vai ficando pra trás: o importante é discutir onde ficará a embaixada brasileira em Israel; se a nossa população deve ou não andar armada; se devemos ensinar sociologia e filosofia nas escolas; se o marxismo cultural está mesmo dominando o mundo; se o Trump será reeleito no ano que vem; se a Venezuela deve ser invadida; se aideologia de gênero é perniciosa; se devemos comemorar ditadura ou se o “golden shower” é imoral.

         Como diz um ditado por aí: “Se fechar, vira hospício; se fechar e cobrir, vira circo”. E olhem que maluco e artista não faltam – nem plateia: o público do capitão diminuiu, mas não acabou; portanto, seguirá havendo espetáculo – podemos esperar, sim, novas apresentações dessa trupe que chegou saltitante e promete ficar em cartaz por uma boa temporada.

__________ http://www.avessoedireito.com

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