Não tem lógica

         TRÊS meses de governo e ninguém sabe aonde o país vai parar. Não há projeto, não há rumo, não há coerência. Tampouco sensatez, bom senso. É tamanha a incongruência do governo bolsonário que ele tanto pode desintegrar-se por sua própria fraqueza quanto, no outro extremo, transformar-se num regime de força – ditadura militar ou policial.

    A popularidade do capitão despencou 15% desde a posse – um recorde. Até os “patrocinadores” do atual chefe de governo (mídia, mercado, novos-ricos, evangélicos e burguesia tradicional) estão desorientados, não sabem o que fazer para pôr alguma ordem na casa. O ocupante do Planalto parece alheio à realidade; não obedece a nenhuma lógica racional.

          Vejamos alguns exemplos. A começar pelo lema do candidato: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

         Durante a campanha, o presidente apregoava a supremacia do Brasil, insinuando um certo nacionalismo – tosco, é verdade; só que agora faz um governo entreguista: entregou o petróleo às multinacionais, está entregando as refinarias da Petrobras, já entregou a Base de Alcântara e abre mão da soberania nacional, alinhando-se de maneira subserviente (e ridícula) à política imperialista dos Estados Unidos.

          Colocam o Brasil “acima de tudo”, mas ridicularizam o país lá fora; a política externa brasileira tem sido objeto de chacota no âmbito internacional – a imprensa estrangeira perdeu o respeito para com o governo brasileiro; considera-o folclórico, estúpido, hilariante.

         Durante a campanha, e ainda agora, o presidente vivia e vive falando em Deus, enfia Deus em tudo quanto é lugar; só que defende a ditadura e a violência, faz apologia de torturadores, de grupos de extermínio e milicianos; quer armar a população para fazer a guerra contra os que considera bandidos extermináveis.

     Fala tanto em Deus, mas só pensa em arma, extermínio, tortura, eliminação, violência!…

      Logo após o trágico massacre de Suzano, no mesmo dia, quando se esperava do presidente um discurso sensato e pacificador, ele declarou à imprensa que vai mandar seu projeto de lei ao Congresso para flexibilizar o porte de arma; e seu filho, senador, no mesmo dia da tragédia, apresentou seu primeiro projeto ao Senado regulamentando a instalação de fábrica de armas no país.

        Jair Bolsonaro elegeu-se com o discurso moralista da anticorrupção e do antissistema, prometendo sepultar a “velha política” e pôr todos os corruptos na cadeia; só que agora não consegue explicar nem mesmo o dinheiro depositado na conta de sua própria mulher, por um miliciano; tampouco explica as verbas parlamentares (públicas) que ele e seus filhos recebem por meio de funcionários-fantasma em seus gabinetes.

          O governo usa caneta Bic, mas amplia gastos com cartões corporativos!

        O chefe de governo, e seus ministros da área econômica, asseguravam que a reforma trabalhista iria modernizar o país, alavancar a economia e gerar mais empregos; só que agora, ao tirar direitos dos trabalhadores, o desemprego explodiu (está em 12,4%; na era Dilma estava em 4,5%) e a economia só anda pra trás.

        Agora, na tramitação da reforma previdenciária, a “bala de prata” do governo – pois é seu único projeto -, bem no momento em que o presidente precisa fazer uma delicada articulação política com o Congresso Nacional, o chefe de governo (e seus filhos) arranja uma briga estúpida com o presidente da Câmara, pelo Twitter, pondo em risco a aprovação da proposta governamental para a Previdência.

      Em favor dessa reforma, o presidente argumenta que evitará a quebra do sistema previdenciário e, com isso, protegerá os mais pobres. Só que sua proposta aniquila o benefício de prestação continuada (BPC), que beneficia os pobres e as pessoas com deficiência; dificulta o acesso deles à aposentadoria, aumentando tempo de contribuição e idade mínima; diminui o valor dos benefícios até dois salários mínimos – não tem lógica.

       O próprio ministro da Justiça, que iludiu muita gente com sua aura fabricada de paladino da ética, enquanto foi juiz dizia que o crime de “caixa dois” era grave – até mais grave que corrupção. Só que agora, como ministro de Bolsonaro, diz que esse delito não é tão grave assim, e passou a andar de braços dados com seu colega Onyx Lorenzoni, um réu confesso do crime de “caixa dois” – cadê a lógica?

           Bolsonaro dizia que seus ministros seriam escolhidos a dedo, apenas por critérios de competência técnica. Só que pôs no governo uma Damares, um Vélez, um Ernesto Araújo e um especulador financeiro como Paulo Guedes, sem nenhuma experiência de gestão pública – notórios incompetentes para o trabalho a que se prestam.

        Tanto é verdade que, há poucos dias, o presidente disse ter disposição para ouvir todos os seus ministros técnicos – “até a Damares”; num ato-falho que revela sua contradição interna e o desprezo que tem por seus auxiliares.

        Contradição suprema: Jair Bolsonaro se apresenta como um homem forte, durão, até autoritário – desses que mandam prender e mandam soltar; só que seu governo é de uma fragilidade estonteante: vai e volta; diz e desdiz; não tem nada a oferecer aos brasileiros. Seu governo é, como disse o presidente da Câmara, “um deserto de ideias”.

       A verdade é que o governo (ou desgoverno) de Jair Bolsonaro virou um abismo de contradições – e de incompetência. É óbvia a ingovernabilidade gerada por ele próprio e sua equipe mal formada. O país está à deriva. Dizem que o presidente já não preside mais nada. O “Mito” (não sei de onde tiraram isso!) está se desfazendo por si mesmo; transformou-se num constrangimento.

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