Como renasce o fascismo

       TALVEZ não seja rigorosamente correto dizer que o fascismo nasceu na primeira metade do século XX, com Benito Mussolini na Itália. O fascismo é velho: embora com outro nome, existiu na Antiguidade, na Idade Média e na Idade Moderna… e chega até aos nossos dias – é contemporâneo; talvez seja eterno.

      Aproveitando aquele clichê de Nietzsche, ousaria dizer que o fascismo é humano, demasiado humano. Daí por que muitas vezes ele se assemelha a um traço de caráter, de personalidade – não é só uma ideologia que alguém assume ou decide abraçar; nem apenas uma forma de tomar o poder.

       Por isso, não é correto (nem prudente) proclamar a morte do fascismo, tampouco considerá-lo uma página virada da História – ele sempre vai bater à nossa porta. Resta saber como e quando. Essa é a questão.

          Onde houver um indivíduo disposto a liderar um grupo ou uma nação, e onde houver uma nação ou um grupo dispostos a se deixarem liderar por um único indivíduo, aí está a semente do fascismo. E se esse líder messiânico estiver disposto a tudo, inclusive à violência, para atingir seus objetivos, contando com algum apoio de seus liderados, é porque aquela semente do fascismo floresceu, mesmo.

        É mais ou menos isso o que sustenta a professora e ex-Secretária de Estado norte-americana, Madeleine Albright, no seu livro Fascismo: um alerta, publicado entre nós, no ano passado, pela editora Planeta.

         Nesse mesmo sentido, o professor da Universidade de Yale, Jason Stanley, diz que o sintoma mais marcante de uma política fascista é a “divisão”, ou seja, tudo aquilo que se destina a dividir uma população entre “nós” e “eles”, sob a tutela de um líder (ver Como funciona o fascismo, editora L&PM).

          A divisão é a chave do fascismo. Ela destrói a confiança mútua, o respeito pelo outro e qualquer forma de solidariedade. Essa fratura social gera a desconfiança e o medo. É nessa hora que se abre a brecha fatal para que um líder se imponha como o único confiável – a quem se deve dar todos os poderes; inclusive o de vida e de morte.

         Para consolidar a fratura da sociedade, a política fascista utiliza a retórica da Lei & Ordem, dividindo os cidadãos entre aqueles que fazem parte do grupo que segue a lei e os que estão à margem dela; entre os que costumam ser chamados de “cidadãos de bem” e os ditos “cidadãos do mal”; entre os que se submetem à ordem e os que simbolizam a desordem.

           A partir daí, passo a passo, os traços da política fascista vão ficando escancarados,  e pior: “normalizados”, aceitos – pela adesão sectária ou pelo medo.

        O medo é a ferramenta que o fascismo usa para capturar sua base de apoio social – sobretudo nas classes médias. O medo da perda de status, da desigualdade econômica, da pauperização etc., faz com que as pessoas se agarrem a soluções autoritárias, e a um líder forte, que as protejam das perdas e mantenham sua “superioridade” – que imaginam vir desde um passado imemorial.

        Em nome de um passado mítico (quando tudo era supostamente melhor), e de um grupo pretensamente superior (étnico, religioso, socioeconômico etc.), o líder assume poderes e autoridade moral típicos do patriarcalismo, podendo fazer tudo (como um “paizão”) para atingir seus objetivos – que seriam também os objetivos do grupo que lidera.

        Para tanto, pode desconsiderar o direito (e até perseguir) os grupos adversários ou considerados “inferiores”; se preciso, pode reprimi-los com violência; pode suprimir a liberdade em nome das tradições de um passado mítico; pode mentir para impor sua verdade (a realidade do líder é a única que importa); apela para o anti-intelectualismo, desmoralizando o sistema educacional; e, ao fim, destrói a democracia para salvar a democracia.

          Pode-se dizer, em síntese, que o fascismo é filho da divisão e do medo, que fomentam o ódio. Não há fascismo sem medo e ódio: o ódio ao outro (pobre, imigrante, muçulmano, judeu, mulher, homossexual, transgênero, etc.). Bem por isso que as diferenças, os diferentes e, sobretudo, as desigualdades são os combustíveis do fascismo.

        Onde estiveram presentes esses sintomas: ódio e medo, perseguição e preconceito,  racismo, homofobia, misoginia, patriarcalismo, anti-intelectualismo, nacionalismo xenófobo, distorção histórica da verdade, busca nostálgica de tradições idílicas e imaginárias, obsessão pela ordem… podem crer!, aí renasceu o fascismo.

__________

http://www.avessoedireito.com

Esse post foi publicado em Avesso e marcado , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s