O fascismo cotidiano dos doutores

          O TERMO fascismo serve para designar os regimes políticos autoritários – os diversos totalitarismos que no século 20 negaram o Iluminismo liberal do Século das Luzes. A origem etimológica do termo fascismo está na palavra latina fasces, que designava o feixe de varas, amarradas a um machado, com a finalidade de simbolizar basicamente três coisas: a autoridade judiciária, o poder de punir e o dever de manter a ordem.

          Mas, além dos regimes fascistas, podemos falar num “fascismo cotidiano”, num autoritarismo difuso, destilado individualmente no dia a dia; infiltrado nas visões de mundo, nos valores e na maneira como as pessoas vêm os problemas humanos fundamentais e a sociedade; como enxergam os diferentes e as diferenças; enfim, um fascismo infiltrado nas opiniões autoritárias que se emitem sobre tudo isso – aparentemente sem muita reflexão.

            Ninguém está livre, acredito, dessas afetações autoritárias, sobretudo quando se vive em sociedades desiguais, excludentes e “fraturadas” como a nossa – nunca é demais lembrar que ainda somos um dos campeões em desigualdade no mundo e a sociedade da casa-grande” e da “senzala”. Esse é um cenário propício para a difusão do preconceito e para a formação de juízos prepotentes, irrefletidos, forjados pelo senso comum que é, como se sabe, completamente avesso à crítica e ao diálogo.

          O psicanalista Wilhelm Reich, intrigado com a “onda fascista” que explodiu na Europa dos anos 30 e 40, debruçou-se sobre o fenômeno e escreveu o livro Psicologia de massa do fascismo. Nesse livro, o autor sustenta que há mesmo uma “estrutura irracional do caráter médio”, quer dizer, do caráter do homem comum, que pode ser ativada coletivamente – é inquietante que os fascistas na Itália e na Alemanha dos anos 30/40, que apoiaram o sacrifício de 6 milhões de judeus à época, fossem pessoas de boa índole, de classe média, instruídas e com famílias bem estruturadas!

            Até mesmo os doutores, supostamente bem-formados e mais bem esclarecidos, estão sujeitos a essa “estrutura irracional” de caráter. As cenas que descreverei abaixo são fatos reais, do cotidiano. Eles ocorreram antes dessa polarização política que se vê hoje no país, portanto, antes do microfascismo que se espalhou por aí. É curioso como Wilhelm Reich pode ter razão: o homem médio, inclusive os doutores, carregam mesmo o vírus do fascismo – e ele pode ser ativado a qualquer momento.

                Pois bem… Aos fatos, então:

           Certa vez um juiz de direito, no intervalo de uma audiência pra outra, inventou de discorrer sobre criminologia e criminalidade. Chegou logo à conclusão – cem anos depois de Lombroso (e com laivos claramente medievais) -, que os estupradores deveriam ser castigados e marcados no rosto, com uma tatuagem característica, como na Idade Média, pois isso garantiria maior segurança à sociedade, fazendo com que as mulheres os reconhecessem e deles se afastassem para evitar o estupro – a opinião era séria, não era brincadeira, não.

            Outro dia foi um promotor público indignado, revoltado com a corrupção, que no seu entender vem se alastrando pelo país. Para solucionar o problema, acabou propondo a pena de morte, exatamente como, segundo ele, se faz na China. Tudo muito simples, muito cirúrgico: apanha-se o corrupto, coloca-se uma venda nos seus olhos, desfere-se-lhe logo um tiro na nuca e pronto, lá se foram o corrupto e a corrupção – tudo em nome da ordem, dos bons costumes e da moralidade pública.

            Depois foi a vez de um advogado, bacharel por uma renomada universidade pública do Estado de São Paulo, tentando justificar a manutenção das condições desumanas e medievais nos cárceres brasileiros. Segundo ele, lá estão apenas os pobres que não sentem muito as más condições carcerárias porque já estão acostumados com a pobreza, com a vida cheia de privações e dificuldades, portanto, se acostumariam também com a vida dura das cadeias – sem muito sofrimento.

           De outra feita, foi uma professora bem-formada (creio), coordenadora pedagógica de uma escola de segundo grau. Começou condenando a tortura que um policial havia infligido a uma pessoa de seu conhecimento, e que ela julgava inocente. Terminou, porém, sua conversa afirmando, com ódio transbordante, que no caso do seu conhecido não havia razão para tortura, mas os verdadeiros criminosos, estes sim, deveriam ser mesmo torturados, aliás, deveriam ser torturados sem trégua e sem piedade, até a morte – e isto, 250 anos depois de Beccaria.

            Teve também um médico que, suponho, terá feito o juramento de Hipócrates em defesa da vida. Pois bem, ele andava por aí mostrando um vídeo no seu Smartphone e rindo prazerosamente do pavor do cinegrafista que havia filmado, ao vivo e em cores, as cenas de um assassinato covarde, cuja vítima já agonizava no chão quando fora abatida friamente por seu algoz. A “banalização do mal” (Hannah Arendt) e o sacrifício de uma vida humana eram absolutamente secundários naquele vídeo aterrador, pois, o mais importante era “curtir” o susto do cinegrafista.

           Por último, e para encurtar as histórias, houve aquele caso conhecido de todos, de uma jornalista do SBT que aprovou e aplaudiu publicamente, na bancada do jornal que então apresentava, o fato de um adolescente negro ter sido espancado e amarrado a um poste, completamente nu, com uma trava de bicicleta no pescoço, para execração publica – como se fazia nos tempos da escravidão com o pelourinho. A jornalista disse que o “marginalzinho” espancado não era inocente, e tinha uma ficha “mais suja que pau de galinheiro”.

          Essas histórias vão longe, e são certamente assustadoras. Diante delas, seria até o caso de perguntar se, de fato, já superamos os obscurantismos e a escuridão da chamada “Idade das Trevas”. A intolerância e o triunfo do preconceito, do ódio, da vingança e do autoritarismo, mesmo que praticados em nome da ordem e do direito de punir, são um claro sinal de que há realmente algum fascismo espreitando, de forma sutil e sorrateira, o nosso cotidiano – inclusive o cotidiano dos “doutores”. O sociólogo Florestan Fernandes dizia que Hitler e Mussolini perderam a guerra, mas o fascismo continua vivo.

           Parece que nos tempos atuais a “razão instrumental” vem mesmo triunfando sobre a “razão crítica”; a ideia de autoridade se impõe sobre a horizontalidade comunitária; o individualismo autossuficiente sufoca o “princípio de comunidade” (Rousseau); o egoísmo estrutural subjuga todo solidarismo altruísta; um silêncio intolerante tem preponderado sobre o diálogo democrático; portanto, descontado algum pessimismo pessoal, parece que Tânatos continua triunfando sobre Eros – mesmo entre os doutores.

__________

http://www.avessoedireito.com

Esse post foi publicado em Avesso e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s