Política e neopentecostais

        TEMPOS atrás, numa entrevista ao programa “Roda Viva” da TV Cultura, o historiador Boris Fausto da USP considerou que já é muito preocupante o papel e o poder que algumas igrejas neopentecostais têm exercido no âmbito da política brasileira. Para o historiador, essas igrejas fincaram fortemente suas raízes no Congresso Nacional, onde o evangélico Eduardo Cunha, que até ontem pertencia ao chamado “baixo-clero” da política brasileira, presidia a Câmara dos Deputados  e era, pasmem!, o segundo homem na sucessão presidencial.

         Sob o ponto de vista da simbologia do poder, é muito sugestivo que o deputado Eduardo Cunha, no começo da legislatura,  tenha permitido, ou até mesmo convocado (não sei!), a realização de um culto evangélico, com direito a música gospel, nas dependências da Casa Legislativa que presidia. Como o Estado é laico, sem religião oficial, as dependências dos poderes da república não devem se prestar à realização de cerimônias ou rituais religiosos como cultos, missas, sessões etc.

           A interferência religiosa na política não é coisa nova. E a igreja católica tem uma longa história nesse terreno. Mas, na referida entrevista da TV Cultura, o professor Boris Fausto chamou a atenção para um problema específico das igrejas neopentecostais, que nem sempre fica muito visível e não está suficientemente compreendido. Segundo ele, o grande problema dessas igrejas para a democracia é que os votos dos fiéis são definidos pelos “critérios político-religiosos” do pastor.

               Ou seja, “arrebanhadas” pelo pastor, comunidades inteiras acabam manipuladas e votando em bloco nas eleições. De maneira uniformizada. Como um “rebanho nos velhos currais eleitorais”. Seguindo à risca as orientações (“bíblicas”) da igreja e seus pastores, que transformam o púlpito num palanque político, em campanha escancarada, deturpando, ou até mesmo suprimindo, a finalidade e o mecanismo do voto como escolha livre, individual e consciente.

               Não é por acaso, portanto, que alguns têm chamado o atual Congresso Nacional de “Congresso BBB”, quer dizer, um parlamento dominado pela “bancada da BALA”, pela “bancada do BOI”, mas também pela “bancada da BÍBLIA”. Logo, não é mero acaso que esse Congresso, se comparado a legislaturas anteriores, exiba uma das composições mais conservadoras e reacionárias dos últimos tempos.

             Oportuno lembrar que as igrejas neopentecostais deitaram também suas raízes no campo da mídia, onde têm a propriedade de rádios e tevês com enorme influência sobre a opinião pública. É justamente essa influência religiosa que tem contribuído para disseminar ideias e convicções ultraconservadoras sobre costumes, comportamento e política.

           O conservadorismo religioso não é novo, e não é propriamente uma especificidade das igrejas neopentecostais, pois as religiões em geral tendem mesmo a produzir um pensamento mais conservador – pelo natural apego a dogmas e verdades intocáveis, seja no campo dos costumes seja no que diz respeito a valores políticos e sociais.

             O que de fato preocupa, no caso da maioria das igrejas neopentecostais, além do projeto de poder baseado em estratégias de mercado e marketing político incompatíveis com objetivos genuinamente religiosos, é o conservadorismo fundamentalista que explora e favorece a discriminação, o preconceito, o racismo, a homofobia, o moralismo obsessivo e todo tipo de intolerância – inclusive a intolerância religiosa e política.

           Aliás, diversas religiões afro-brasileiras (umbanda, candomblé, quimbanda etc.) e seus seguidores têm sido crescentemente atacados por líderes e adeptos de algumas igrejas neopentecostais, o que vem motivando até mesmo o ajuizamento de ações na justiça, em diversos Estados brasileiros, com a finalidade de garantir a essas religiões de matriz africana a plena liberdade de culto.

              Não há democracia real (ou material) sem as liberdades políticas de votar e de ser votado; não há democracia de fato sem as liberdades civis que garantem o multiculturalismo, bem como a plena diversidade racial, religiosa e sexual; e nenhuma democracia se sustenta senão sobre as liberdades sociais que asseguram trabalho justamente remunerado, igualdade social e dignidade humana – essas liberdades todas são a base de qualquer democracia.

           E, nos termos do art. 5º, VI, da Constituição da República, o direito de crença é uma deles; um direito fundamental que protege também o neopentecostalismo. Mas, é preciso lembrar que esse direito não é absoluto e, portanto, não está acima do direito à diversidade religiosa (igualmente fundamental), nem pode sobrepor-se aos valores democráticos assegurados pela Carta Magna, que veda qualquer forma de preconceito, discriminação e intolerância.

             Nada contra os “evangélicos” ou neopentecostais, evidentemente. O direito de crença deles também está garantido pela Constituição – e deve ser respeitado. Mas essa vinculação de fé, marketing religioso, poder midiático e ação político-partidária, que eles praticam, constitui retrocesso político. Pois quando Maquiavel “fundou” o Estado moderno (há 500 anos) o fez justamente estabelecendo a necessária separação entre Estado, poder civil (econômico, midiático etc.) e igreja – misturar tudo isso de novo é retroagir a um tipo de Estado pré-moderno.

               Por tudo isso – e por outras coisas mais -, parece que há motivos de sobra para que nos preocupemos – como alertou o professor Boris Fausto na tevê -, com os impactos políticos de um certo “conservadorismo religioso”, praticado e difundido pelas igrejas em geral mas, sobretudo, por algumas religiões neopentecostais, cuja pregação evangélica fundamentalista pode se pôr em confronto com direitos individuais básicos, ameaçando valores coletivos e até mesmo o desenvolvimento da nossa já ameaçada democracia social, política e cultural.

__________

http://www.avessoedireito.com

Esse post foi publicado em Avesso e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s