Inocência midiática

          PARAFRASEANDO o título de um poema do alemão Bertold Brecht, o jornalista Celso Vicenzi cunhou a expressão “analfabeto midiático”, para designar aquela pessoa que, segundo o jornalista, (1) ouve e assimila tudo sem questionar, (2) orgulha-se de estar sempre bem informada pela grande mídia, (3) imagina que tudo pode ser compreendido com “pouco esforço intelectual”, e (4) não consegue perceber os “enfoques” construídos deliberadamente pela mídia para distorcer fatos e manipular informações.

        Esse seria, segundo Celso Vicenzi, o tal “analfabeto ou inocente midiático”. Essa locução, porém, muito embora possa ser uma expressão bastante didática para designar os que se informam através da mídia, sem crítica nenhuma, passivamente, é na verdade uma expressão muito forte; e talvez até contenha alguma espécie de violência verbal que atinge a própria vítima – poupando os verdadeiros responsáveis por essa forma (vá lá!) de “analfabetismo”.

            Importante perceber que, se há mesmo algum “analfabetismo midiático” no Brasil é porque há um abuso do direito de informar. E esse abuso se manifesta de maneira absolutamente insofismável por meio de pelo menos cinco aspectos: (a) concentração da propriedade dos veículos de informação de massa; (b) vinculação da mídia ao poder político e econômico; (c) impunidade dos crimes praticados pelos “barões da comunicação”; d) manipulação interesseira dos fatos e da informação; e) poder de interpretar e comentar os fatos.

           É realmente injustificável (e insustentável) a absurda concentração da propriedade privada dos meios de comunicação social no Brasil: oligopólio e propriedade cruzada desses meios (jornais, revistas, tevês, rádios, mídias etc.) nas mãos de uns poucos proprietários – tão poucos que contam-se nos dedos de uma mão; isso só existe no Brasil; é um verdadeiro abuso do direito de informar – uma “libertinagem de imprensa”.

         Como dizia o velho Leonel Brizola, é impossível a construção de uma democracia com esse tipo de mídia. Pois, o oligopólio da informação, toda ela concentrada nas mãos de cinco ou seis famílias lideradas pelo Grupo Globo, impede o “pluralismo das ideias” que é, como todos sabemos, quase um “sinônimo” de sociedade democrática. Além disso, além da informação, esses grupos têm o poder de “comentar”, sob sua ótica aquilo que informam, inculcando opiniões; e têm também o poder de não informar muita coisa.

            Aqueles que detêm o poder econômico detêm também a propriedade dos meios de comunicação, com os quais fazem a propaganda de si próprios e de seus interesses de classe. A mídia empresarial constitui, naturalmente, um aparelho ideológico de difusão dos valores e da visão de mundo burgueses. Ou não? Segundo o pensador italiano Antonio Gramsci, os detentores do poder material são também aqueles que detêm a “direção cultural” da sociedade, promovendo o consenso político e a uniformização do pensamento – naturalmente em torno de seus objetivos.

          Os que têm a “direção cultural” da sociedade, consequentemente, concentram em suas mãos um grande poder político e econômico, logo, jamais poderão ser considerados politicamente “neutros” e tampouco “imparciais”. Por isso, é muito arriscado (ou ingênuo) fechar os olhos e acreditar na “imparcialidade da mídia”. Essa é uma crença quase infantil, uma ilusão que transforma muitos cidadãos em verdadeiros “inocentes úteis” aos projetos dos poderosos.

            Por fim, já não é mais segredo pra ninguém que a grande mídia manipula fatos, cria factoides, sonega informações, mente à vontade, replica notícias falsas, faz interpretações enviesadas, pratica o chamado “pinçamento”, cria manchetes bombásticas nas primeiras páginas e esconde notícias nas páginas internas, enfim, ilude a opinião pública ao sabor de suas conveniências e projetos político-econômicos; essa é a consequência mais daninha da mídia oligopolizada: o leitor fica sem alternativa; fica nas mãos de uns poucos poderosos que sabem muito bem o poder de suas máquinas de propaganda.

         Desse modo, soa contraditório defender a liberdade de expressão e de pensamento, deixando-se aprisionar passivamente pelo discurso dos “donos” da comunicação de massa como fazem os “inocentes midiáticos”. É uma grande ingenuidade – dessas que custam muito caro a qualquer democracia -, imaginar que a mídia é “neutra”, “imparcial” ou “politicamente desinteressada”, e que, por tudo isso, deve ser mantida fora de qualquer controle ou regulação, acima do bem e do mal.

        Aqueles que desejam preservar a autonomia do próprio intelecto, que pretendem manter o pluralismo do pensamento, que tencionam exercitar o “senso crítico” em oposição ao “senso comum”, que não querem “alugar o cérebro” aos magnatas da informação, precisam superar algumas crendices – a começar pela superação do mito da imparcialidade ou neutralidade política da mídia.

          Além disso, as “vítimas midiáticas” precisam deixar de confundir ” democratização da mídia” com “prática de censura”, e abandonar a identificação muito comum entre “desconcentração do poder midiático”, que é muito saudável, e “controle dos conteúdos da informação”, que é pernicioso, pois, do contrário, continuarão ecoando (sem perceber) o discurso e os argumentos dos “imperadores da mídia” – esses poderosos que querem continuar praticando a libertinagem em nome da liberdade.

          Em nenhum país do mundo democrático o poder da mídia é tão concentrado e tão fora de controle como no Brasil. Aqui, esse poder é tão forte que até usurpou do sistema escolar e da universidade o papel de formar consciências e divulgar o conhecimento, assumindo um protagonismo arbitrário e nocivo na tarefa de “formar consciências”; de formar cidadãos.

          Assim, seria muito saudável que a banda “bem-informada” da sociedade brasileira, que se entrega docemente ao noticiário da TV e às “verdades” veiculadas pela grande imprensa tradicional, procurasse superar de vez a “síndrome” da cabeça-feita-pela-mídia, pois ela faz muito mal à consciência política das pessoas, à normalidade institucional do país, aos legítimos interesses nacionais e à nossa muito frágil, aliás, fragilíssima democracia.

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2 respostas para Inocência midiática

  1. Arthur Jacon disse:

    Oi, Professor,

    Escreveu tudo que eu penso (para variar).

    Eu só não vejo saída para essa alienação mental em que a classe média (e estúpida) foi mergulhada. É desalentador.

    Abs,

    Arthur Jacon

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