A Palestina e o silêncio do mundo

        NÃO é preciso grande tirocínio, nem seria necessário recorrer à Bíblia, à Torá e ao Corão para ver que é realmente condenável o que fazem com o povo palestino; um povo vítima de agressões que se podem caracterizar, sem nenhum exagero, como crimes de lesa-humanidade. As violações sistemáticas ao direito internacional nas regiões onde deveria existir hoje, por resolução da ONU desde 1947, um Estado palestino independente e livre, revelam que o que na verdade governa o mundo não é o direito – é a força.

            Para começo de conversa, deve-se lembrar que o povo da Palestina vive encarcerado em seu próprio território. É isso mesmo: vive como “prisioneiro” na Cisjordânia e como “refugiado” na Faixa de Gaza – ambos territórios palestinos. O Estado de Israel controla as fronteiras dessas regiões, controla a entrada e a saída dos que lá vivem, e até a água é controlada pela potência que pretende colonizar o território invadido e varrer do mapa qualquer resquício do Estado palestino e seu povo.

            Se não bastasse isso, se já não fosse suficiente essa “prisão domiciliar”, é necessário dizer que o território palestino está sendo progressivamente invadido, ocupado e anexado pela política expansionista israelense, isto é, pelo sionismo imperialista que pretende dominar o Oriente Médio – muito mais por razões de estratégia geopolítica e militar do que por motivos históricos, religiosos ou nacionalistas. Nada contra o povo de Israel; muitos israelenses condenam as ações bélicas de seu próprio país; mas a opressão ao povo palestino é um fato.

       Se ainda não fosse suficiente o encarceramento de um povo e a tomada de seu território, o que aniquila abertamente o direito internacional de autonomia e de autodeterminação dos povos, é certo também que o exército de Israel, um dos mais bem equipados do mundo, tem despejado sobre a Palestina seus poderosos mísseis de alto poder destrutivo, lançando suas armas mortíferas por meio de moderníssimos aviões, cujo aparato bélico é fornecido pelas indústrias norte-americanas.

         Agora mesmo, Israel está disparando tiros e bombas de gás lacrimogêneo contra civis e crianças na Faixa de Gaza – já foram mais de 60 mortos. No último grande ataque antes deste, mataram 600 civis, dentre eles 120 crianças inocentes; dois hospitais inteiramente destruídos. Somente com muita cegueira, ou com muita má-fé, se poderia chamar isso de “confronto” ou de “guerra”. O que há na Faixa de Gaza é uma “guerra de agressão”, um genocídio, um verdadeiro atentado contra um povo indefeso e, enfim, contra a própria humanidade.

           Não nos esqueçamos: essas coisas todas ocorrem com o apoio explícito dos Estados Unidos, com a omissão da Organização das Nações Unidas, e com o silêncio oportunista da Europa. Nem mesmo o jornalismo internacional pode cumprir sua função de revelar a verdade dos fatos, de ser imparcial e informar por completo tudo aquilo que realmente ocorre nos verdadeiros campos de concentração em que se transformaram hoje os territórios palestinos.

         A Carta Africana dos Direitos Humanos dos Povos de 1981, conhecida como a Carta de Banjul (Gâmbia), diz em seu art. 20 que todos os povos têm direito à existência, e os povos colonizados ou oprimidos têm o direito de resistência. Porém, quando o Hamas resiste, disparando seus poucos mísseis, ou utilizando seus desesperados homens-bomba contra Israel, opondo-se a uma invasão injusta de seu território, esse fato é sempre noticiado como “prática de terrorismo”, “fanatismo religioso” ou puro jihadismo praticado pelo “eixo do mal” contra o Ocidente democrático.

          Alguns comentaristas, desses que opinam na grande mídia brasileira, já tiveram o desplante de atribuir a culpa pela morte de civis inocentes ao próprio grupo Hamas, argumentando que esse grupo armado atira mísseis contra Israel e se esconde atrás da população civil – inclusive nos hospitais. Mas, para onde haveria de correr o Hamas se a Faixa de Gaza tem apenas 41 km de comprimento por 9 km de largura, é uma das regiões com maior densidade populacional do planeta, e está encurralada entre o Egito, Israel e o Mar Mediterrâneo?

           E mesmo que o Hamas tivesse essa prática de atacar seus agressores e esconder-se por detrás da população civil, Israel não teria o direito de rasgar todas as Convenções de Genebra, de agredir populações inocentes e desarmadas, de impedir o socorro, o tratamento e a remoção de vítimas, sobretudo quando essas vítimas são crianças desamparadas. Parece que não há limites para o cinismo de certos profissionais da mídia conservadora que insistem em não ver a realidade e mantêm seu público enganado, na mais profunda escuridão!

          Enfim, se os Estados Unidos apoiam a guerra de agressão contra o povo palestino, se a Europa ignora convenientemente essa guerra, se a ONU nada faz para impedi-la, se a mídia não pode ou não quer denunciar tudo o que ocorre naquela parte do Oriente Médio, e se o resto do mundo ocidental não tem como saber o que de fato acontece em Gaza e na Cisjordânia, quem poderá frear essa “máquina de guerra” que mata sem parar, e sem misericórdia?

        O resultado de tanta violência acabará sendo mesmo a destruição do Estado e do povo palestino. Aos quais se nega o direito à existência, o direito à autodeterminação, o direito à paz e o direito à vida. E tudo isso decretado por um tosco imperialismo bélico e um estúpido terrorismo de Estado que as potências ocidentais praticam como se fossem o “eixo do bem” agindo contra o “eixo do mal” – matando gente e destruindo sonhos diante do “silêncio despropositado do mundo”.

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