Nenhuma surpresa

         A TÃO esperada “delação do fim do mundo”, feita pelos executivos da Odebrecht ao Ministério Público Federal, que agora deu origem à tal “Lista de Fachin”, revelando que a elite política do país e seus respectivos partidos foram financiados pelos milhões e milhões doados pela empreiteira baiana, há várias décadas, só surpreende os distraídos ou mais incautos. É óbvio que a democracia brasileira, desde muito tempo, caiu no “cativeiro do mercado”; é óbvio que a nossa política está toda ela irrigada pelo dinheiro dos ricos e subjugada por eles.

      E não é só no Brasil, não. A democracia liberal capitalista é, na verdade, uma plutocracia – no mundo todo. Os Estados Unidos da América, que são considerados a maior democracia burguesa do mundo, até já desistiram de combater o chamado “caixa dois” nas campanhas eleitorais – legalizaram essa prática. Os mesmos Estados Unidos desistiram de combater o abuso do poder econômico nas eleições – liberaram as doações de campanha. Na terra do Tio Sam já não se combate mais os lobistas – viraram profissionais legalizados, com “carteira assinada”.

          Por isso, não espanta que no Brasil também a democracia burguesa esteja dominada pelo dinheiro dos poderosos. Afinal, pobres e trabalhadores não têm recursos para financiar campanhas – e elas estão cada vez mais caras. Não espanta, pois, que os grandes partidos políticos, independentemente de seus matizes ideológicos, houvessem recebido recursos de empresas como a Odebrecht para financiar suas campanhas – no capitalismo, não há outra maneira de participar do jogo político com chances reais de se tornar uma alternativa de poder. (Um dos desafios da esquerda é descobrir como participar competitivamente do jogo político no capitalismo sem render-se ao poder do dinheiro, e sem cair na armadilha em que caiu a esquerda europeia que nunca passou de uma social-democracia capitalista).

         Pois é, a democracia burguesa, financiada pelo dinheiro, e não pelas forças políticas e sociais, caiu mesmo no “cativeiro do mercado” – e hoje se tornou parte integrante dos negócios. Nós, mortais comuns, nem imaginamos como funciona o jogo pesado do “grande capital” – que vive da apropriação do Estado, do constrangimento da política e da cartelização dos mercados. Os liberais pregam o Estado mínimo mas não vivem sem o Estado. A democracia liberal burguesa deteriorou, sucumbiu ao poder corrosivo do dinheiro. Aquela ilusão liberal do “Um homem, um voto!” hoje não passa de simples miragem, virou folclore. A soberania popular, no capitalismo, é um imprudente devaneio, pois o povo não elege ninguém – as grandes empresas não votam, mas são elas que elegem os candidatos.

          No caso do Brasil, isso está sendo revelado somente agora, quando a tal “Lista de Fachin” desmancha a mentira de que a corrupção era obra do PT e põe sob investigação toda a cúpula do Poder Legislativo, três ex-presidentes da república, o atual ocupante do Planalto, quarenta deputados federais, oito ministros do atual “governo”, vinte e quatro senadores e nove governadores – entre eles o de São Paulo, que até ontem era chamado de “Santo”. Os grandes partidos nacionais e seus líderes políticos estão sob suspeita. Num certo sentido, pode-se dizer que a política brasileira está “no banco dos réus”, virou “caso de polícia”.

       É um disparate! o próprio juiz Fachin já autorizou a abertura de 76 inquéritos policiais; determinou a remessa de 201 casos a juízes e tribunais inferiores; remeteu 178 pedidos de inquéritos a foros estaduais. Isso não terá fim. A política brasileira permanecerá “sub judice” por tempo indeterminado. O que é muito grave, ou melhor, é gravíssimo. E é grave por pelo menos dois motivos: primeiro, porque não se pode criminalizar a política como um todo já que ela é o único (único, hein?!) meio de resolver os conflitos coletivos na sociedade; segundo, porque nem o Ministério Público, nem o Judiciário, nem muito menos a Polícia Federal têm condições de resolver os problemas políticos do nosso sistema presidencialista conhecido como “presidencialismo de coalizão” – quando Lula foi arrastado para depor na Polícia Federal em Congonhas os delegados que o inquiriram nem sabiam como funcionava esse tipo de presidencialismo.

           Os “distraídos”, ou ingênuos, estão iludidos novamente, depositando todas as suas esperanças de solução dos nossos problemas políticos nos órgãos repressivos do Estado. Isso não existe! Veja no que deu a chamada “Operação Mãos Limpas” na Itália, que pretendeu “passar a limpo” todo o sistema político italiano e foi um fulgurante fracasso, em todos os sentidos: tanto no sentido jurídico, pois não acabou com corrupção nenhuma; quanto no político, pois o sistema eleitoral italiano arranjou novas formas de sobreviver (novas formas de corrupção) com os mesmos vícios de antes.

           A corrupção sistêmica (pois ela é inerente ao sistema capitalista) não se combate com uma única operação policial, nem com um punhado de procuradores voluntariosos, nem muito menos com um único juiz afoito. A corrupção sistêmica tem que ser combatida sistematicamente, cotidianamente, por meio de instâncias administrativas de controle e, quando for o caso, por todo o aparelho policial-judiciário, sem protagonismos, sem espetáculo midiático e sem essa inusual aliança entre mídia privada, Ministério Público, Judiciário e Polícia Federal a que estamos assistindo hoje no país – isso não acaba bem.

          E se acabar mal, como acabou a malograda “Operação Mãos Limpas” na Itália, que tem servido de modelo para a estabanada Operação Lava Jato, não haverá surpresa nenhuma – pois os órgãos repressivos estatais nada têm a ver e nada entendem de democracia, são politicamente desastrados, tanto que, para desbaratar alguns casos de corrupção destruíram nosso sistema de liberdades fundamentais, rasgaram a Constituição mais democrática da nossa história e embarcaram num golpe de Estado que aniquilou nossa cambaleante democracia.

         Veja agora o que fez o chefe do Ministério Público Federal: juntou num mesmo pacote as investigações de corrupção passiva, caixa dois e lavagem de dinheiro; instaurou centenas de inquéritos policiais com base apenas em delações; jogou tudo isso na mídia corporativa; armou um grande circo e emparedou perigosamente a política. Não sei se isso é um bom exemplo de responsabilidade institucional! Deixo essa avaliação aos mais doutos, os “especialistas”. Só sei que não será nenhuma surpresa se tudo isso abrir caminho para o surgimento de políticos “messiânicos” como o marqueteiro João Dória e o tiranete Jair Bolsonaro; ou um “salvador da pátria” como Sérgio Moro – todos eles simpáticos ao que há de pior (e mais arcaico) na política brasileira.

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