Uma burca sobre as revoltas árabes

           NINGUÉM fala mais na tal “Primavera Árabe”. Falou-se muito, aqui no ocidente, sobre essa onda de revolta no Oriente Médio em 2010. Mas a imprensa ocidental, a julgar pelo noticiário que se viu nas mídias e na grande imprensa brasileira (e que já não se vê mais), não quis ou não conseguiu levantar o “véu” das revoltas na Tunísia e no Egito. Como era de seu dever, a imprensa precisava informar, com clareza, quais os reais motivos que impulsionaram os protestos generalizados nesses dois países, cujo estopim foram as atitudes extremas de dois desesperados que atiraram fogo aos próprios corpos.

      As notícias, os comentários e as análises dos especialistas insistem no fato de que tunisianos e egípcios se revoltaram apenas contra as ditaduras, a corrupção e a violência, instaladas ao longo de décadas pelos regimes autoritários de Ben Ali e Hosni Mubarak. Insistem também no medo de que as revoltas nesses dois países pussam criar o clima político propício à instalação de teocracias islâmicas, como ocorreu, por exemplo, com o Irã do aiatolá Khomeini em 1979.

            Isso tudo é verdade, mas não é toda a verdade. De fato, o que vem impulsionando as revoltas no mundo árabe, e que a grande imprensa não desvela com a clareza necessária, é que egípcios e tunisianos se revoltaram não apenas com a supressão das liberdades públicas, mas, sobretudo, com o desemprego, com a fome, com o sucateamento dos serviços básicos de saúde, educação, transporte, moradia e tudo o mais que compõe um quadro de desigualdade, pobreza e miséria imposto ao longo de três décadas nos dois países – nesse tempo todo, esses povos árabes só fizeram empobrecer.

        Não foram os muçulmanos, por motivos religiosos ou políticos, que tomaram a iniciativa de ir às ruas de Túnis ou do Cairo. Foram os jovens sem perspectivas, os trabalhadores explorados, os desempregados, os pobres, os famintos… O desemprego na Tunísia atingiu o nível de 30%. E mais de 40% dos egípcios vivem abaixo da linha da miséria. É certo que os árabes lutam por liberdade, mas, é certo também que lutam, sobretudo, por uma vida digna, contra a fome, contra a exclusão e o desemprego. Porém, essa é uma face das revoltas que nem sempre fica bem clara, e isso porque a grande imprensa capitalista continua insistindo no fato de que a insatisfação popular é apenas contra a polícia, o exército e a tirania de Ben Ali e Hosni Mubarak.

            Outra face das revoltas, que a imprensa ocidental também não destaca com a devida clareza – nem com a independência que era de se esperar de uma imprensa livre -, é que essa combinação de pobreza, miséria e ditadura é uma realidade imposta e sustentada pelo imperialismo norte-americano, o mesmo imperialismo que já havia imposto e sustentado também o xá Reza Pahlevi no Irã, antes da Revolução Islâmica que levou ao poder o regime dos aiatolás. De olho no petróleo do Oriente Médio, os Estados Unidos, o Banco Mundial e o FMI, por meio de seus tiranos de plantão, como Ben Ali, Mubarak e Reza Pahlevi, têm castigado os povos árabes, impondo-lhes sua cartilha neoliberal, suas armas (o exército do Egito é um dos mais bem equipados do mundo) e seus métodos truculentos.

        A imprensa ocidental que se diz independente, do chamado “mundo livre e democrático”, precisa levantar a burca da Primavera Árabe para esclarecer, sem meias palavras, todos os reais motivos que levaram egípcios e tunisianos às ruas. O problema é que isso implica duas tarefas que a mídia capitalista não topa de jeito nenhum: primeiro, desvelar o fracasso do neoliberalismo; segundo, desmascarar o imperialismo norte-americano que só sabe exportar miséria e ditadura – e essa é a burca que mídia burguesa não levanta nem a pau.

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Uma resposta para Uma burca sobre as revoltas árabes

  1. borborma disse:

    o FMI é o banco do mal ,nunca países irão se reerguer com esse banco sangrento,que elevaram taxas de juros numa época,e impuseram venda de petrobrás no contrato assinado por Serra e Fernandão beira loira.

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