Macaco em loja de louça

      A NOVA operação da Polícia Federal, batizada de Operação “Carne Fraca”, é um desastre – tanto do ponto de vista jurídico quanto econômico e até político. Por quê? Por duas ou três razões óbvias: não se faz um estardalhaço desses, com prisões e denúncias públicas, sem uma prévia investigação ampla e convincente; esse estardalhaço atinge todo um setor da economia que responde por significativo percentual de nossas exportações; trata-se de uma divulgação espetaculosa que golpeia a imagem do país no exterior onde está grande parte dos consumidores da carne produzida no Brasil.

        As denúncias de que frigoríficos brasileiros vinham comercializando carne estragada, reembalando produtos com prazo de validade vencido, adicionando substância supostamente cancerígena à carne, e até misturando papelão nos enchidos, já estava na Polícia Federal há mais de dois anos. Convenhamos: tempo suficiente para concluir a investigação, instaurar processos e condenar os culpados antes de qualquer divulgação espalhafatosa que, além de atropelar o devido processo legal, só faz disseminar o pânico na população.

       A agropecuária representa mais de 20% do PIB brasileiro, ou seja, um volume de produção que supera um trilhão e duzentos bilhões de reais (1,2 tri). Desses, o setor pecuário contribui com aproximadamente 500 bilhões, vale dizer, mais de 30% da produção. A desmoralização de um setor dessa magnitude é, para dizer o mínimo, uma irresponsabilidade. As divulgações no fim de semana tiveram, não há dúvida, um tom sensacionalista. E se a Polícia Federal estava buscando holofotes, deu um tiro no pé. Podem conferir os jornais de hoje: as notícias, apesar de alarmantes, sumiram das primeiras páginas. A Rede Globo, na sua programação de ontem (domingo), já abriu espaço para o contraditório, suavizou o problema e refreou os ânimos dos seus milhões de telespectadores.

      Apesar da gravidade das denúncias, nada justifica condenar e prender pessoas antes do devido processo legal; nada justifica alarmar a população nem demonizar um setor da economia que, no chamado boom das commodities, fez o PIB brasileiro saltar de míseros 500 bilhões de dólares para 2,5 trilhões. Claro que é preciso investigar, claro que é preciso processar, claro que, quando for o caso, é preciso punir. Mas tudo nos termos da lei, respeitando o contraditório e a presunção de inocência – sem processos midiáticos.

     Parece que a Polícia Federal tomou gosto pela notoriedade espetacular, pela celebridade. Deve ser o efeito lava-jato. Essa operação da Polícia Federal foi pródiga em atropelar direitos – e direitos fundamentais. Escorados nas desastrosas decisões do juiz Sérgio Moro e de alguns tribunais superiores, órgãos repressivos do Estado (PF e MPF) pintaram e bordaram em cima da Constituição, tripudiaram noite e dia sobre a noção de Estado de Direito – e sempre com apoio da mídia reacionária, e de uma parcela da população (também reacionária), que tudo fez para desancar a esquerda e o partido de esquerda que estava no governo.

       Para atingir esse objetivo político, valia a pena destruir o sistema de liberdades fundamentais que são, como se sabe, o núcleo ético das democracias; valia até arruinar todo o setor da construção civil e da indústria naval que respondiam também por parcela importante do emprego, do PIB nacional, e de nossas exportações de serviços. Em nome de um hipócrita combate à corrupção destrói-se o resto – direitos, empregos, produção econômica, crescimento econômico, exportações, soberania nacional e alguns outros et céteras. É como se diz por aí: os homens da lei estão parecendo macaco em loja de louça – deslumbrados com o brilho das coisas, acabam quebrando tudo.

       Bem ao contrário do que fazem, por exemplo, os órgãos de repressão nos países desenvolvidos, como os Estados Unidos e estados europeus, onde os empresários corruptos são punidos, mas as empresas preservadas. Onde a corrupção é combatida sistematicamente, não como um “surto” de moralidade (ou moralismo burlesco). É burlesco atropelar a lei para preservar a lei; destruir a economia para salvar a economia; arrasar direitos fundamentais para assegurar o Estado de Direito; desmoralizar a Constituição para moralizar a política – é burlesco, é bufão.

        Num contexto desses, era mesmo previsível que ainda acabássemos trocando o Estado de Direito pelo Estado de Polícia. O “lavajatismo” que tomou conta da vida nacional não poderia produzir outra coisa senão um estado autoritário, policialesco, ressuscitando o fascismo de uma sociedade extremamente conservadora, de raízes coloniais e escravista. Uma sociedade cuja elite, gananciosa e irresponsável, monopoliza a informação e manipula a cabeça da tradicional classe média, açulando o ódio e despertando o fascismo que tanto aterrorizou (e que hoje envergonha) os alemães nos anos 30 e 40.

       Enquanto o autoritarismo estava atingindo apenas aqueles que eram chamados – com muito ódio -, de “petralhas” e “corruptos”, tudo bem. Enquanto o “lavajatismo” atingia só os “outros”, nada contra. Já ouviu falar naquela história de que “pimenta nos olhos dos outros é refresco”, né? Então, agora é que são elas, pois os órgãos repressivos – que não se detiveram diante da lei e da Constituição, e pouco se lixaram para os estragos produzidos na economia -, podem se voltar contra qualquer um de nós – até mesmo contra aqueles desavisados que adoravam o “japonês da federal” e andavam por aí, no maior assanhamento, fazendo selfies com polícia.

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Uma resposta para Macaco em loja de louça

  1. Arthur disse:

    Texto muito bom. Não se pode atropelar garantias constitucionais, a pretexto de “limpar o país de tudo isso que está aí”. Não concordo com os métodos da Lava Jato e com muitas decisões de Sérgio Moro. Abominei o “power point do Lula”. Aborreço essa parceria entre MP e mídia. Porém, não pode o Ministério Público deixar de tomar as medidas persecutórias pertinentes, só porque elas podem causar danos à economia. Também não se pode imputar ao Ministério Público a responsabilidade pelo desastre econômico vivido. Como as construtoras não sentiriam os reflexos da prisão de seus diretores?

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