Democracia do fim do mundo

          ESTÁ  para sair, nos próximos dias, ou até nas próximas horas, mais uma “Lista de Janot” – desta vez, elaborada com base nas delações feitas pelos executivos da Odebrecht. Trata-se de uma megadelação que um site ultrarreacionário (Antagonista) chamou de “delação do fim do mundo”. Dizem que vem chumbo grosso por aí. E dizem que vai sobrar bordoada pra tudo o que é partido político, inclusive para os partidos da direita que até agora vinham martelando na cabeça dos brasileiros que a corrupção no Brasil era coisa da esquerda – do PT e dos petistas.

           Pelo jeito – e pelos “vazamentos” que se viram até aqui – a nova “Lista de Janot” vai, finalmente, deixar claro como é que funciona a democracia brasileira desde muito tempo, desde muito antes da “era PT”. E como é que funciona essa democracia? Ela funciona da mesma maneira que em todo o mundo capitalista: na base do dinheiro. É isso mesmo. A democracia liberal burguesa é irrigada pelo dinheiro e está completamente subjugada pelo poder econômico, trata-se da chamada “financeirização da política”. No capitalismo, os donos do dinheiro sempre serão os “donos” da democracia – aqui no Brasil e lá fora!

          Três coisas fazem andar a democracia capitalista: o DINHEIRO, destinado a financiar campanhas políticas; os CARGOS, concedidos a políticos para formar as coalizões governativas; e, por fim, os milionários CONTRATOS, celebrados entre o poder público e as empresas privadas que financiam campanhas. Não nos iludamos: essa tríade – dinheiro, cargos e contratos -, é o combustível da democracia no capitalismo. É um problema estrutural. Era mesmo previsível que em tempos de hipercapitalismo mercantil e financeiro a esfera da política acabasse inteiramente dominada pelo mercado; e que os interesses privados invadissem a esfera pública, transformando o Estado num espaço de negócios.

         Portanto, é rematada ingenuidade supor que uma operação mal-ajambrada como essa Lava Jato venha livrar a política, a democracia e o Estado brasileiro desse esquema corrompido. Veja, por exemplo, o caso dos EUA que são considerados a maior democracia do mundo. Lá, não foi possível acabar com o financiamento privado de campanha que joga toda essa dinheirama no sistema político a troco de vantagens econômicas; não foi possível acabar com a barganha dos cargos que garante a governabilidade; nem sequer foi possível eliminar a figura do lobista, que faz a mediação dos contratos de obras entre as empresas e o poder público.

          Por exemplo, se fosse nos EUA, esses políticos que estão presos por formação de caixa dois e por recebimento de doação ilegal de campanha no Brasil, e bem assim lobistas como o tal do Fernando Baiano, que fazia lóbi no Congresso Nacional e adjacências, estariam andando livremente por aí, sem nenhum problema com a lei, sem nenhum Sérgio Moro fungando no cangote deles.

            Como não foi possível acabar com as causas da corrupção política no grande país do norte, os norte-americanos acabaram por legalizar o financiamento privado de campanha, o famoso caixa dois, e a profissão do lobista – tudo isso mais ou menos na base do: “Se não é possível vencer o inimigo, junte-se a ele”. A corrupção sumiu como num passe de mágica. E nem poderia ser diferente. Não é possível vencer a corrupção na sociedade capitalista. A democracia burguesa, como tudo no capitalismo, depende do dinheiro, é parte dos negócios, é como qualquer mercadoria – não tem perdão.

                Se no capitalismo direitos fundamentais como a saúde, a moradia, a educação e a previdência viraram mercadoria, por que charadística razão a democracia burguesa não haveria de seguir o mesmo destino?

           Por isso, depois de espantar-se com a nova “Lista de Janot”, que vai comprovar que a corrupção política no país não foi inventada pelos petistas, nem é monopólio do PT, a sociedade brasileira deve se preparar para um novo susto: toda essa trabalheira do desastroso juiz Sérgio Moro não vai adiantar nada, pois, derrubado o governo do PT e condenados os petistas, o financiamento privado de campanha, que gera o caixa dois e que está na raiz de toda a corrupção política, acabará – escreva aí -,  “legalizadinho da silva” – como nos Estados Unidos da América. Não foi exatamente isso o que fizeram com as famosas “pedaladas fiscais”? Isso mesmo: derrubaram a Dilma hoje com base nelas e no dia seguinte, na maior caradura,  legalizaram essa prática contábil.

          Enquanto isso, a malsinada operação Lava Jato segue violando direitos e garantias fundamentais; propiciando um golpe de estado que aniquilou nossa frágil democracia; quebrando empresas brasileiras que respondem por significativa parcela do nosso PIB; arrasando o setor da indústria naval; abrindo o mercado interno para empresas estrangeiras; e ajudando a aprofundar uma recessão que já se anuncia como uma das maiores de nossa história.

          E tudo isso com o apoio e o aplauso entusiasmado (e inocente) de uma parcela da população brasileira que, de repente, da noite pro dia, resolveu entender de política, de economia, de administração pública, de ética, de combate à corrupção… Resolveu exercitar tardiamente a cidadania, lançando-se na tal “militância de sofá” para defender a democracia – só se for a democracia do fim do mundo!

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3 respostas para Democracia do fim do mundo

  1. Arthur disse:

    Tadinhas dessas empresas, não? Afinal, é a corrupção que azeita a máquina que move a economia. Ela tem de ser tolerada, a bem da indústria naval, entre outras. Essa Lava Jato é desastre, pois, em prol de alegados princípios éticos, diminui o bem-estar geral da população, que se vê privada da filantropia forçada das empreiteiras. Esse, aliás, seria um bom fundamento, perfeitamente constitucional, para o Ministério Público, esse algoz sem coração, pedir o arquivamento de tudo isso. Viva o utilitarismo! Abaixo Kant e Rawls!

  2. JOÃO CARLOS SIQUEIRA DUARTE disse:

    POVO ; como combater essas praticas , somente atraves de uma INTERVENÇÃO MILITAR

    • Obrigado, João Carlos, pelo comentário.
      Mas é preciso atentar também para o fato de que no regime militar houve muita corrupção também: caso CAPEMI; propinas pagas por empreiteiras; empreiteira viram potências no regime militar; superfaturamento na compra de navios da Inglaterra; Coroa Brastel; Transamazônica…
      Att. A.A.Machado

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