Não vê quem não quer

        COMO os brasileiros andam bastante decepcionados com a política – e por razões mais ou menos óbvias -, tem sido muito comum ouvir por aí que político é tudo igual e que partido político é tudo a mesma coisa –  não existe mais esquerda e direita, dizem. Para exemplificar, costumam referir que até o Partido dos Trabalhadores, que ontem se apresentava como um partido de esquerda, acabou fazendo um governo de direita. Mesmo alguns setores da “esquerda mais à esquerda” andaram dizendo que o “lulismo” nunca passou de um conjunto de políticas conservadoras e neoliberais.

          Mas não é bem assim, não. Quem gosta de estabelecer essa confusão é a direita, e os conservadores, que têm na mídia reacionária, corporativa e golpista seu porta-voz mais eloquente. Essa confusão, no fundo, tem o objetivo de desorientar e enfraquecer as lutas populares. Por isso, os conservadores ficam apregoando por aí que não existe mais ideologia; que político é tudo a mesma coisa; que não há diferença entre os partidos políticos e que, portanto, não há por que lutar. E o pior é que tem muita gente boa, – e até doutor -, que entra nessa conversa.

         Quer um exemplo, ou melhor, vários exemplos de que existe uma diferença muito grande (e decisiva) entre políticos e entre partidos? Veja o caso da terceirização do trabalho, aprovada na última quarta-feira pela Câmara dos Deputados. Trata-se de um caso bem didático – só não vê quem não quer. Pois bem, esse projeto, que visa rebaixar o salário da classe trabalhadora e aumentar sua jornada de trabalho, estava prontinho desde 2002, ou seja, desde a era neoliberal de FHC. Assim que Lula assumiu o governo em 2003, o projeto foi “engavetado”, ficou “congelado” por esse tempo todo, sem chance de aprovação. Mas foi só derrubar o PT e o projeto voltou. Já está aprovado na Câmara, será aprovado no Senado, e os trabalhadores pagarão a conta – com o suor e com a saúde, pois 80% dos acidentes do trabalho ocorrem no setor de mão de obra terceirizada.

      Quer outro exemplo? Muito didático também. Foi só derrubar o Partido dos Trabalhadores e o governo golpista “congelou” salários, gastos com saúde e educação, e investimentos sociais na infraestrutura por vinte anos. É a tal PEC do Teto, ou PEC do “fim do mundo”. Uma medida dessas, que congela tudo, menos os juros ilegais (e imorais) que o país paga aos rentistas, é uma verdadeira desgraça para a classe trabalhadora. Uma medida assim seria impensável num governo de esquerda, como o do PT. Seria absolutamente incompatível com os programas de qualquer um de nossos partidos de esquerda ou centro-esquerda (PT, PC do B, Psol, PDT etc.).

              Outro exemplo? Tenho sim. Foi só a direita golpista assumir o poder e o presidente usurpador já apresentou sua proposta de reforma da previdência social, arrasando com a aposentadoria da classe trabalhadora. Segundo a proposta do governo, os trabalhadores brasileiros teriam de contribuir e trabalhar a vida inteira para se aposentarem apenas às vésperas da morte, quase com o pé na cova. E a mulher trabalhadora, que já tem uma jornada dupla de trabalho (no emprego e em casa) seria ainda mais penalizada com a elevação do limite de idade para se aposentar.

       Quer mais um exemplo? Lá vai. O governo petista reservou à Petrobras uma participação de 30% na exploração do pré-sal, vinculando (por lei) os recursos daí advindos para investimentos na educação. Foi só o governo golpista assumir o poder e a reserva dos 30% do pré-sal foi por água abaixo – literalmente. Já acabaram com essa garantia de participação da petroleira nacional na extração do pré-sal em águas profundas (especialidade da Petrobras) e permitiram que empresas estrangeiras explorem mais esse recurso natural que poderia significar pelo menos duas coisas: nossa soberania energética e o resgate da educação de qualidade no Brasil.

           Por falar em educação, tenho outro exemplo nessa área sobre a diferença entre políticos e entre partidos. Assim que o governo golpista usurpou o poder e se aboletou no Palácio do Planalto, o presidente usurpador já mandou um projeto de “reforma da educação” que quase pôs fogo no país, provocando ocupação de escolas e graves confrontos entre estudantes e polícia. Era o projeto da tal “Escola sem Partido”. Uma loucura! Procurava acabar com o ensino crítico e consciente nas escolas para formar cidadãos alienados, dóceis, ignorantes e conformados, algo só imaginável num governo reacionário de direita, que não tem nenhum compromisso com a consciência política nem com a cidadania plena.

       Tem mais exemplo. Foi só o governo de direita assumir o poder e o presidente usurpador já preparou uma medida provisória permitindo que estrangeiros adquiram terras no país. É isso mesmo, comandante: os “estranja” donos do solo brasileiro. É assim que vai por água abaixo a soberania do território nacional. Lembra aquele verso do Hino Nacional que a gente cantava (e canta ainda) com tanto ardor: “Dos filhos deste solo és mãe gentil”? Pois então, acabou a “mãe gentil”. E tudo para beneficiar as grandes empresas estrangeiras do agronegócio como as multinacionais Monsanto, Cargill e Bunge, por exemplo.

          Mas não acabou, não. Aguenta aí. Tenho ainda mais um exemplozinho: foi só o governo golpista derrubar o PT e tomar as rédeas da nação que desmancharam a chamada “política de conteúdo nacional”, que obrigava a Petrobras a adquirir bens, serviços e insumos de empresas genuinamente brasileiras. A política “entreguista” do novo “governo”, impensável num governo de esquerda, abre a possibilidade de empresas estrangeiras serem fornecedoras da nossa petroleira, expandindo aqui os seus lucros e remetendo-os para fora do país, onde serão aplicados em benefício de outros povos – exatamente os povos que exploram os nossos recursos naturais desde sempre, deste os tempos do pau-brasil.

        Teria outros exemplos, mas creio que esses bastam para demonstrar que há, sim, muita diferença entre políticos e entre partidos. Especialmente entre políticos de direita e políticos de esquerda; entre partidos reacionários e partidos progressistas; partidos burgueses e partidos populares. Tantos exemplos assim, em tão curto espaço de tempo, servem também para entender por que o Partido dos Trabalhadores era uma pedra no sapato da alta burguesia; por que o PT tinha de sair da frente e deixar o governo livre para os poderosos; por que Dilma Rousseff tinha mesmo que cair. Com esse “pacotinho” de medidas neoliberais que estavam por trás do golpe dá pra entender melhor o próprio golpe, e o tamanho do nosso retrocesso social e político – não vê quem não quer, ou aquele a quem não aprouver.

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Acesse http://www.outrasprosas.wordpress.com

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8 respostas para Não vê quem não quer

  1. Arthur disse:

    Pena que o PT se meteu com essa gente rentista que o articulista tanto critica. E pena que a Dilma e o Mantega tenham sido tão imprudentes no controle das finanças públicas e da inflação. Era de uma recessão profunda que a mídia precisava para dar o golpe que deu. Não é possível fazer como faz o articulista, e exonerar, de modo tão paternal, o PT de responsabilidade pelo desastre político e econômico vividos.

    • Prezado Arthur,

      Fico especialmente grato por sua leitura e comentários. No que se refere ao alegado “modo tão paternal” do articulista para com o Partido dos Trabalhadores, peço licença para sugerir-lhe a leitura do post DOIS GRANDES ERROS DO PT neste mesmo blog Avesso e Direito.

      Espero continuar contando com suas intervenções.

      Att. Antônio Alberto Machado

      • Arthur disse:

        Li o texto. Concordo em parte. O fato de o PT haver aderido ao capitalismo liberal não foi um erro. Aliás, o sucesso do governo Lula fundou-se no compromisso com a austeridade financeira, que propiciou a plataforma para os avanços sociais, decorrentes do implemento de programas que só ocorreram porque havia fluxo de caixa no Tesouro.

        Outro diagnóstico que teria faltado na sua análise (desculpe aqui o atrevimento) foi a completa inaptidão de Dilma para exercer a Presidência da República, o que gerou os fatores determinantes do Impeachment. (Do ponto de vista jurídico, não acho correta a tese do golpe, que pressupõe um rompimento com a normalidade constitucional.)

  2. Arthur disse:

    Caro Professor Antônio:

    Vou ler os textos, sim.

    Fico feliz pelo retorno. Sou leitor assíduo, como deve ter notado.

    Para mim, é honroso dialogar com o senhor.

    Abraços de Goiânia,

    Arthur

  3. Fernando Matos disse:

    Antônio Alberto, sempre é proveitoso ler suas análises, e, digo-lhe a direita sempre irá lhe criticar, não têm programas sociais e atiram pedras em quem não governa apenas com olhos para a burguesia.
    Abraços

  4. Arthur disse:

    Para não ser tachado “de direita” é preciso concordar com tudo o que o blogueiro escreve. Difícil, viu!

  5. Raimundo disse:

    Escreva sobre as delações dos diretores odebrecht, pf! Gostaria de ler sua análise sobre o financiamento da construtora aos governos de esquerda na América latina, pagamento para meios de comunicação que se dizem de esquerda, partidos de esquerda, esquema comandado pelo ex prefeito do PT de Ribeirão Preto. O que acha do departamento de operações estruturadas criado para manter o governo do PT e tantos outros partidos!

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