Direita e esquerda, existem?

              DEPOIS que um grande partido de esquerda chegou ao poder no Brasil, e depois foi escorraçado desse poder por forças adversárias, o clima político esquentou e parece que os brasileiros “descobriram” o que é se ser de-direita e ser de-esquerda. Tinha muita gente que era de-direita e não sabia; assim como alguns se descobriram de-esquerda – e também não sabiam. Desde que os ânimos políticos se acirraram, a turma começou a sair do armário.

           Esses dois times não se acertam; e se encaram com mútua desconfiança: os da direita ficam incomodados quando os da esquerda falam em igualdade social, proteção aos pobres, defesa das minorias, inclusão social, combate à pobreza, direitos humanos etc. Esse discurso incomoda porque os esquerdistas ficam parecendo mais generosos, mais sensíveis e mais solidários que os direitistas. Por outro lado, os da esquerda se sentem incomodados com os da direita porque estes falam muito em liberdade de negócios, crescimento econômico, livre iniciativa, livre câmbio etc. – e ficam parecendo mais competentes, mais empreendedores.

     No meio dessa pendenga, há quem diga que a dicotomia “direita e esquerda”, utilizada para designar ideologias e posições políticas antagônicas desde os tempos da Revolução Francesa – quando os parlamentares defensores do povo (Terceiro Estado) se sentavam à esquerda e os monárquicos, defensores do clero e nobreza, à direita do rei -, hoje já não tem mais sentido nenhum.

              Será, mesmo? Dei uma espiadela num livro do jurista e filósofo italiano Norberto Bobbio, intitulado Direita e esquerda (publicado no Brasil pela Editora Unesp), onde ele sustenta que essa dicotomia política ainda faz sentido, sim. E, portanto, continua sendo uma designação semântica perfeitamente válida. Isto é, as locuções direita e esquerda continuam identificando e definindo o antagonismo de duas posições político-ideológicas bem distintas – simetricamente opostas.

         Segundo Norberto Bobbio, o divisor de águas entre as posições de direita e de esquerda no campo político e social está no valor igualdade. Para esse pensador, as ideias e as ações tidas como de esquerda são aquelas que fazem a defesa de uma sociedade materialmente igualitária, isto é, que defendem programas e ações políticas tendentes à eliminação das desigualdades socioeconômicas, políticas e culturais. Já os posicionamentos tidos como de direita partem de uma visão muito diferente acerca das desigualdades sociais, bem como de suas causas, e preferem apoiar programas e políticas que tenham por objetivo a defesa do valor liberdade – em lugar da igualdade.

             Pelo que entendi, o jusfilósofo italiano, apesar da linguagem muito acadêmica, toca no cerne da questão. Especialmente quando diz que ser de esquerda significa identificar as causas históricas das desigualdades e das injustiças sociais geradas pelo modo de produção capitalista. Além de fazer esse diagnóstico, o posicionamento de esquerda se caracterizaria pelo pensamento e pela ação concreta no sentido da redução, e mesmo da eliminação, das desigualdades sociais e de suas causas.

           Por outro lado, ainda segundo o pensador italiano, ser de direita significa ter uma obsessão maior pela liberdade e um maior nível de tolerância com as desigualdades socioeconômicas, sob a crença de que elas resultam de causas naturais – e não históricas. Os posicionamentos de direita geralmente estão satisfeitos com a ideia de igualdade formal, como, por exemplo, a igualdade de todos perante a lei – mesmo que as pessoas sejam socialmente desiguais.

             Assim, penso eu, se é possível encontrar ainda hoje, nos governos, nos políticos, nos ideólogos e nas pessoas em geral aqueles que defendem com mais ênfase a igualdade, e os que defendem com maior energia o valor da liberdade; se é possível encontrar os que se satisfazem com uma ideia de igualdade abstrata (formal) e os que lutam por uma efetiva igualdade concreta (real); se é possível encontrar os que identificam a raiz das desigualdades na exploração do homem pelo homem e os que identificam a origem delas em causas naturais; se houver os que encaram a desigualdade social como problema político e os que a consideram simples produto da fatalidade; enfim, se for possível encontrar ainda aqueles que enxergam e se revoltam com as desigualdades e aqueles que não as veem ou não se importam muito com elas, penso eu, ainda será possível continuar falando em direita e esquerda.

           É curioso notar, no entanto, a insistência com que muitos investem contra esses conceitos para proclamar que eles já não fazem mais sentido. E é mais curioso ainda notar que a “morte” ou a dissolução da dicotomia direita/esquerda tem sido apregoada com grande ênfase justamente por aqueles (políticos, ideólogos, cientistas, veículos de comunicação de massa etc.) que nunca demonstraram muita preocupação com o valor da igualdade. São exatamente os representantes do conservadorismo político que exibem esse apressado desejo de escamotear as desigualdades entre as classes sociais, e as diferenças entre a esquerda e a direita.

             Não sei não, mas se fosse nos tempos da Revolução Francesa, é bem capaz que essa turma que apregoa apressadamente o desaparecimento da ideia de direita e esquerda, dizendo que a dicotomia já não faz sentido nenhum, estaria sentada confortavelmente à direita do rei, defendendo interesses e privilégios da monarquia, dos nobres e do clero, isto é, defendendo aqueles a quem não interessava enxergar as desigualdades sociais nem reconhecer os direitos da patuleia – e a patuleia, naturalmente, estaria sentada à esquerda.

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