Especulações maquiavélicas

            HÁ umadistância muito grande entre o programa econômico que a presidenta Dilma Rousseff defendeu em sua última campanha eleitoral e a direção que ela está imprimindo agora à economia brasileira. Da mesma forma: há um grande distanciamento entre o programa social do partido da presidenta e as políticas antissociais que Dilma Rousseff está adotando atualmente.

           A Dilma candidata é tão diferente da Dilma presidenta que chegam mesmo a dizer que ela aplicou um monumental estelionato no povo brasileiro, pois prometeu uma coisa na campanha e está fazendo outra no governo. Há quem diga que a presidenta da república “entregou” seu governo ao capital financeiro e ao fisiologismo de sua base aliada. Por isso, já não governa mais. Dizem que ela “abdicou” do governo apenas para garantir o mandato até 2018 e, no fundo, já teria sofrido uma espécie de “impeachment de fato ou informal”.

         Não vem ao caso refletir agora sobre as forças que acabaram desfigurando o programa de governo da presidenta Dilma, nem identificar os grupos e segmentos que lhe impuseram tantos desvios e concessões. O fato é que as políticas adotadas pela presidenta Dilma guardam pouca identidade com aquilo que a candidata Dilma defendeu em sua campanha de 2014; é fato também que suas promessas se destacavam pelo conteúdo progressista e agora seu governo se destaca pelo viés conservador.

           Mas, como ainda é permitido pensar, e como o papel aceita tudo (ou seria a tela do computador?), podemos fazer um raciocínio bem sarcástico ou até mesmo maquiavélico sobre tudo isso.

           Vejamos. Ao fazer as concessões que tem feito, “entregando” seu governo às forças da direita, pode ser que a presidenta Dilma esteja repassando também a seus adversários todos os ônus e os desgastes de uma política econômica desastrosa, antipopular e recessiva. Ou seja, ao entregar tudo: cargos, ministérios importantes e a direção da economia aos adversários políticos, pode ser que o governo Dilma esteja se “descolando” do próprio governo Dilma.

          Assim, quando vierem os efeitos indesejáveis da atual política de austeridade (que contraria tudo o que Dilma Rousseff pregou na campanha), quando a recessão e o desemprego se fizerem sentir na vida das classes populares (inclusive da classe média trabalhadora), pode ser que as propostas de governo originalmente defendidas por Dilma na campanha, pelo PT, e pelos movimentos sociais surjam como a melhor saída.

           Dessa forma, pode-se chegar à conclusão de que o mais sensato será voltar às políticas do lulismo, ou seja, voltar às políticas que conciliaram crescimento econômico e distribuição de renda, mantendo o poder aquisitivo dos salários, o crédito popular, o aquecimento do consumo e os investimentos em infraestrutura que fomentaram a atividade produtiva e quintuplicaram o PIB brasileiro em apenas 10 anos.

             Nessa hora, já próximo de 2018, pode ser que o ex-presidente Lula da Silva, fazendo uma espécie de “oposição” ou “contraponto” ao governo neoliberal de sua “afilhada” Dilma Rousseff, apareça como a pessoa mais indicada para tocar as políticas antirrecessivas do “lulismo”.

           Quer dizer, os adversários de Lula estarão no comando de fato da economia brasileira, colhendo todos os ônus de uma política desastrada de arrocho e sacrifício da classe trabalhadora, enquanto o próprio Lula, padrinho de Dilma, aparecerá aos olhos do povão como a melhor alternativa ao governo de Dilma. Dessa forma, o líder do PT, que já vem criticando o ajuste fiscal de Joaquim Levy, que já vem falando numa espécie de “frente de esquerda”, que já vem se reaproximando dos movimentos sociais, poderá ser uma boa alternativa ao governo neoliberal do PT. Assim: o líder do PT, paradoxalmente, poderá ser a grande alternativa ao governo do PT!

              Maquiavélico demais, não? Pode ser. Até concordo. Mas as reviravoltas, a astúcia e a fortuna da política eram mesmo a especialidade de Nicolau Maquiavel – quase sempre um pensador atual. É que o cenário político ainda está muito confuso, e tão conturbado que não autoriza nenhuma certeza; somente especulações – inclusive as especulações maquiavélicas.

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