Ingredientes da crise

            O ATUAL momento por que passa o país está desafiando a inteligência e a argúcia dos analistas. A sucessão diária de fatos e factoides no cenário político está deixando todo mundo desnorteado, e sem saber ao certo qual é realmente a grande crise (econômica, política ou institucional), quais são as causas e quais seriam os possíveis desdobramentos dessas crises.

         No campo econômico há de fato um quadro crítico decorrente de mais uma debacle do capitalismo global, que entrou em colapso a partir da crise dos chamados subprimes nos EUA em 2008, alastrando-se pela Europa, notadamente, pela Grécia, Irlanda, Espanha, Portugal e agora também pela França e Itália – é uma crise de proporções alarmantes, dizem os especialistas.

        A China já não mantém mais seu crescimento de 7% ao ano; o Japão chegou a apresentar PIB negativo em alguns trimestres do ano passado; o Canadá tem fechado suas contas no vermelho há três anos; e já faz tempo que os EUA oscilam entre zero e 2% de crescimento anual. Numa economia intensamente globalizada, tudo isso acabou afetando o Brasil, que já não cresce mais à taxa de 7% ao ano como acontecia na era Lula, cujo governo soube aproveitar o chamado boom das commodities e o ótimo desempenho da economia no mundo, sobretudo no mundo asiático, para crescer com inclusão social, distribuição de renda e alianças comerciais multipolares.

           No campo político, o país atravessa também um momento de crise profunda. Começa que o governo do Partido dos Trabalhadores, que está no poder há 13 anos, já experimenta todos aqueles desgastes naturais provocados, pura e simplesmente, pelo fato de estar no governo há tanto tempo. Além disso, o partido da presidenta da república está sob constantes denúncias de corrupção política, acusado da “compra” de votos no Congresso Nacional e de desvio de dinheiro na Petrobras, a maior empresa semipública do país.

              Apesar das investigações seletivas e talvez partidarizadas, apesar dos processos que violam sistematicamente direitos fundamentais, visando atingir apenas as pessoas ligadas ao governo federal, o fato é que o Partido dos Trabalhadores ainda não deu à sociedade todas as explicações necessárias para esclarecer, de uma vez por todas, o envolvimento de alguns de seus quadros mais importantes nas denúncias de corrupção política.

           Para agravar, a base aliada da presidenta da república no Congresso Nacional está sob o comando de dois parlamentares, Eduardo Cunha e Renan Calheiros, que também respondem na justiça por corrupção política. Isso faz com que ambos, apesar de aliados, tentem tirar proveito da fragilidade da presidenta para se beneficiarem politicamente de um eventual processo de impeachment contra a ocupante do Planalto.

           Não bastassem esses ingredientes todos, o Brasil ainda tem uma mídia empresarial fortemente monopolizada que faz a mais aguerrida oposição política ao governo, manipulando sem escrúpulos a opinião pública e insuflando uma crise política e econômica que poderia ser naturalmente enfrentada com diálogo e, sobretudo, responsabilidade.

          Para piorar a conjuntura, percebe-se que nos últimos tempos emergiu uma onda conservadora e moralista no país, especialmente por parte da classe média tradicional, que se tem revelado uma classe por vezes mal informada acerca dos reais problemas brasileiros; outras vezes autoritária e facilmente seduzida por argumentos até mesmo fascistas no que diz respeito às saídas imaginadas para a crise brasileira.

            É tanto o atual moralismo conservador da classe média que ela parece disposta a reincidir no erro que cometeu em 1964, quando apoiou o golpe militar-empresarial contra o governo democrático de João Goulart, levando mais de 500 mil pessoas às ruas de São Paulo na famosa “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, cujos integrantes defendiam valores tradicionais e soluções conservadoras com medo das amplas “reformas sociais do Jango” – mais ou menos como acontece agora em relação às reformas do lulismo.

           Essa onda conservadora, insuflada também por questões religiosas e por diversas igrejas, refletiu intensamente na última composição do Congresso Nacional, conhecido como o Congresso BBB, ou seja, o Congresso da Bala, do Boi e da Bíblia, o que dificulta muito a necessária negociação política com o governo progressista da presidenta Dilma – um governo que já está sucumbindo diante do conservadorismo religioso, político e social que se alastrou de súbito.

          É justamente por causa dessa asfixia do governo Dilma, imposta pelas forças mais reacionárias da sociedade, da mídia e do Congresso Nacional, com evidentes retrocessos no campo social e político, que os movimentos sociais têm levantado a voz e já estão se articulando para exigir a manutenção do calendário eleitoral, bem como o cumprimento do programa e da agenda que a presidenta da república prometeu na última campanha.

          Por fim, fica cada vez mais claro que há uma oposição político-partidária (PSDB, DEM, PPS e Solidariedade) tão incompetente quanto irresponsável, pois, insiste na tática do “quanto pior, melhor”, catando qualquer tipo de PRETEXTO (e não MOTIVOS reais) para desencadear o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, conturbando ainda mais o já conturbado ambiente político no país.

            Essa tática golpista da oposição pode precipitar um outro tipo de crise, isto é, a crise institucional pela evidente possibilidade de ruptura democrática. Trata-se de uma via bastante arriscada, pois, há sinais de que as classes populares, os movimentos sociais e grande parte dos eleitores de Dilma Rousseff não estão dispostos a contemplar, passivamente, as peripécias dos golpistas.

            O momento requer a superação do ódio e do preconceito político, exige também a “deposição de armas”, o debate qualificado e a disposição para o diálogo. Pois é muito grande o risco de que, neste momento, uma aventura política irresponsável possa ocorrer com o custo da própria democracia e do nosso crescimento econômico. É incrível, mas, às vezes parece que alguns setores da sociedade estão mesmo dispostos a sacrificar 3% a 4% do PIB nacional, bem como as nossas instituições democráticas, duramente conquistadas depois de 20 anos de autoritarismo, apenas para conseguir na marra aquilo que não conseguem nas urnas!

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