Perguntas desconfortáveis

     NINGUÉM duvida que a revista Veja tinha o direito – e até o dever – de informar o eleitorado brasileiro às vésperas da eleição presidencial do último domingo sobre as declarações do doleiro Alberto Youssef que teria afirmado, em seu depoimento secreto numa delação premiada, que o ex-presidente Lula e a presidenta Dilma sabiam ou pelo menos deveriam saber dos desvios e lavagem de dinheiro na Petrobras.

     Um dos maiores deveres da imprensa é realmente informar a sociedade, em qualquer circunstância, em qualquer ocasião, mesmo às vésperas de uma eleição. O que se exige da imprensa – também em qualquer ocasião e em qualquer circunstância – é apenas que ela seja responsável pelo que divulga e que divulgue sempre a verdade, que ela seja imparcial e que faça um jornalismo ético, fundado em fatos e não em boatos.

    Pois bem, sobre a reportagem de capa da revista Veja que circulou nos dois dias anteriores ao pleito eleitoral, e no próprio dia do segundo turno das eleições presidenciais, estampando a fotografia do ex-presidente Lula e da candidata Dilma Rousseff ao lado da acusação do doleiro, há pelo menos uma meia dúzia de perguntas que não querem nem podem calar. Perguntas que, oxalá, sejam devidamente esclarecidas pela Polícia Federal no inquérito que já instaurou com a finalidade de apurar o vazamento das declarações do doleiro indiciado.

     Lá vai a primeira pergunta: por que o depoimento do delator Alberto Youssef tinha de ser tomado exatamente na semana da eleição, quase na boca da urna, se essas declarações já poderiam ter sido colhidas antes, ou mesmo depois de um pleito eleitoral acirradíssimo, disputado palmo a palmo, voto a voto?

    A segunda pergunta: por que é que o doleiro Alberto Youssef foi chamado a depor novamente no inquérito, na quarta-feira da semana da eleição, exatamente no dia 22 de outubro, se ele já havia prestado o seu depoimento no dia anterior, na terça-feira, dia 21 de outubro?

    A terceira pergunta: por que é que esse novo depoimento foi apenas um “aditamento” das declarações prestadas um dia antes e teve a única finalidade de incluir a afirmação de que o Planalto sabia dos desvios na Petrobras e que os presidentes Lula e Dilma deveriam saber também desses desvios?

   A quarta pergunta: quem é a pessoa que fez “vazar” esse novo depoimento para a imprensa se a delação ou colaboração premiada, nos termos do art. 7º da Lei nº 12.850/13, é sigilosa e esse sigilo só pode ser quebrado depois de oferecida a denúncia pelo Ministério Público e recebida pelo juiz criminal competente?

    A quinta pergunta: por que é que só a revista Veja, e apenas a Veja, teve acesso ao conteúdo dessas declarações explosivas do delator Alberto Youssef?

    E, para arrematar, uma última pergunta especialmente inquietante: por que é que a Rede Globo, com o poder que tem, e cujo diretor geral (Bonifácio Sobrinho) já admitiu publicamente ter manipulado a vontade dos eleitores em outras eleições presidenciais, recusou-se a repercutir a matéria da revista Veja no Jornal Nacional de sábado à noite, na véspera da eleição, quando poderia ter “virado o jogo” a favor da direita?

     Esse comportamento, digamos, inusitadamente ético da Rede Globo, recusando-se a completar a manobra midiática da Veja (e da Folha de S. Paulo) na hora de decidir o jogo eleitoral, é uma coisa bastante esquisita. Essa “prudência” da TV Globo na hora “h” é bem misteriosa. O caipira desconfiado lá da minha terra, com aquela sua intuição muito típica, certamente diria: “nesse pau tem mel”.

       E aqueles que ainda costumam exercitar a crítica e a dúvida, e que não desejam se passar por inocentes nem por “analfabetos midiáticos”, além de exigir a apuração de tudo quanto ocorreu na Petrobras, deveriam exigir também o esclarecimento a essas perguntas que envolvem o direito fundamental de informação e a liberdade de imprensa – e que eventualmente poderiam até explicar golpes e crimes.

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