Depois da ameaça

             O PROJETO econômico neoliberal instalou-se decididamente no Brasil a partir de 1990 com o governo de Fernando Collor de Melo, prosseguiu na presidência de seu vice Itamar Franco entre 1992 e 1993, e se consolidou com o governo de Fernando Henrique Cardoso de 1994 a 2002.

          O mundo inteiro sabe que o Brasil, nesse período, submeteu-se passivamente ao chamado “Consenso de Washington”, às exigências financeiras do FMI e do Banco Mundial. E o mundo inteiro sabe também que as receitas neoliberais desses organismos, que gerem o sistema financeiro mundial, só provocaram recessão econômica (pela absurda aceleração das taxas de juros), resultaram no aumento do desemprego, na diminuição do poder de compra da classe trabalhadora por causa do arrocho salarial, e no desmonte do Estado, pelo “delírio privatizante” que tomou conta do país.

           Os conservadores, a direita e os antipetistas não gostam de ouvir isso, mas é bobagem negar essa realidade. Basta consultar as estatísticas, as pesquisas e os indicadores econômicos e sociais daquele período de predomínio das políticas neoliberais para saber, com base em números e não com apoio apenas em argumentos ou teses acadêmicas, que essas políticas na década de 1990 provocaram um verdadeiro desastre socioeconômico no Brasil, e em alguns outros países da América Latina.

              Todavia, a partir de 2003, com a eleição de um trabalhador para a Presidência da República, essa realidade começou a mudar. O Partido dos Trabalhadores rompeu com a ortodoxia neoliberal e conseguiu a façanha de promover crescimento econômico com distribuição de renda e inclusão social, incrementou o crédito popular, promoveu o consumo de massa dos bens duráveis pelas classes inferiores, aqueceu a economia com a política de aumento real do salário mínimo, expandiu o emprego elevando-o aos níveis das economias desenvolvidas, e freou o processo de privatização das empresas estatais, evitando assim o “completo desmonte do Estado brasileiro”.

              Os conservadores, a direita e os antipetistas também não gostam de ouvir isso, mas é outra bobagem negar essa realidade. Basta novamente conferir estatísticas, pesquisas e indicadores socioeconômicos para ver a diferença de desempenho econômico e social entre os governos neoliberais da última década do século XX e os governos pós-neoliberais da primeira década do século XXI – a diferença é assustadora. Pois bem… é exatamente este último projeto, esta oposição e o contraponto que o Partido dos Trabalhadores vem fazendo ao neoliberalismo no Brasil desde 2003 que estiveram seriamente ameaçados nesta eleição presidencial de 2014, concluída dramaticamente no último domingo, numa disputa acirradíssima entre o PT de Dilma Rousseff e o PSDB de Aécio Neves.

         Como a disputa eleitoral foi a mais acirrada da história, dividindo o eleitorado brasileiro praticamente ao meio, pois a diferença entre Dilma Rousseff e Aécio Neves foi de apenas 3,5 milhões de votos num universo de 105 milhões de votos válidos, muitos têm afirmado que o país “rachou”, os ânimos e os ódios também se teriam acirrado, e farão com que os próximos anos de governo sejam de muita turbulência e desunião – talvez até com alguns problemas de governabilidade.

          Pode até ser, quem é que sabe? Mas essa história de “país rachado”, de “nação dividida ao meio”, de muita gente prometendo deixar o país por causa do resultado da última eleição é uma história velha e tem qualquer coisa de exagerada. Há muitos desafios a enfrentar ainda neste país, há muita distorção social, política e econômica a ser corrigida, há muito que progredir, e isso é tarefa de todos os brasileiros – não apenas do partido que está no governo.

             O grande problema é que tem uma enorme parcela do eleitorado que se empolga exageradamente com eleições, mas não pode nem ouvir falar de política; há muita gente que fica excitadíssima por ocasião das disputas eleitorais, mas, passadas as eleições, não quer nem saber dos verdadeiros problemas políticos do país, e corre logo a cuidar da sua vida privada. Há muita gente que fica indignadíssima com o resultado numérico das urnas, mas ignora completamente o resultado e as consequências da própria apatia política entre uma eleição e outra; empolga-se durante o período eleitoral, mas, uma vez encerradas as eleições, mergulha na mais absoluta indiferença política – em resumo: tem muita gente que adora eleição, mas odeia política!

              Por isso, passada a ameaça de um retrocesso neoliberal no país, o importante agora era transformar toda essa “indignação eleitoral” numa “indignação política” para lutar, por exemplo, (1) por uma reforma do sistema político que acabasse com o financiamento privado de campanhas, e que garantisse a participação popular nos planos e nas decisões de governo; (2) por uma reforma que assegurasse a democratização (não o controle) dos meios de comunicação de massa, hoje monopolizados pelos barões da mídia golpista; (3) por uma reforma tributária que deixasse de penalizar os trabalhadores e começasse a tributar fortunas, patrimônio, heranças e doações como acontece nos países capitalistas do Primeiro Mundo.

              Essas sim, são “lutas políticas” – e não apenas “disputas eleitorais” -, que valem a pena. O problema é que grande parte dessa gente indignada com o resultado das últimas eleições não sabe ou não quer nem saber dessas reformas. Muitos continuarão “viciados no jogo eleitoral”, como se as eleições fossem um grande cassino, com suas previsões e apostas, um animado fla-flu, ignorando completamente o “jogo político” onde se dão realmente as transformações progressistas ou a manutenção conservadora da ordem vigente.

                Se não fizermos reformas como aquelas mencionadas acima – e outras -, o sistema político continuará corrupto e sem participação popular; a mídia corporativa continuará manipulando a vontade do eleitorado (inclusive na “boca da urna” onde isso é crime); e os ricos, livres de ônus e impostos, continuarão financiando abertamente a política – e tudo isso diante do silêncio imperdoável, ou até mesmo com a cumplicidade, de muita gente que hoje se diz indignada. Essa gente “indignada” com o resultado das eleições precisa provar que sua indignação não é apenas despeito; desejo de revanche.

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Uma resposta para Depois da ameaça

  1. Guilherme Rosinha disse:

    Professor, tendo conhecimento das diferenças evidentes entre o projeto de país visado por cada um dos lados me senti desatendido no debate político por ambos candidatos, pois gostaria de ter visto um debate sobre reforma política, tributária e principalmente educação, acho que muito provavelmente pelo desespero do PT em ganhar a eleição após o susto e do PSDB de aproveitar este momento extremamente favorável para uma campanha de “mudança por mudança” em face das manifestações de junho e ambiente econômico desfavorável.

    Enfim, aliviado com a vitória. Tentarei em breve fazer minha contribuição por uma análise da tributação injusta no Brasil. Ouvi de muitas pessoas o argumento de que pagam muito imposto e tinham direito de “mudar”. Pois bem, é bem fácil demonstrar que um grande empresário paga menos imposto que um trabalhador de renda de 5 a 10 salários mínimos que, por sua vez, paga menos que o trabalhador que ganha um salário mínimo.

    Tributação sobre fortuna, herança e doação, é tão bizarro que salta aos olhos.

    Abraços,

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