A direita impaciente

     SEGUNDO o filósofo Paulo Arantes, numa entrevista concedida a um grande jornal brasileiro, o “surto de impaciência” e as manifestações de junho de 2013 teriam propiciado o surgimento de uma “nova direita” no Brasil, muito semelhante àquela que surgiu nos EUA e que, segundo ele, “não está interessada em constituir maiorias de governo, mas apenas “impedir que governos aconteçam”; “não quer constituir políticas no Legislativo e ignora o voto do eleitor médio”; “não precisa de voto porque é financiada por grandes corporações”.

    Essas características da “nova direita” brasileira apontadas por Paulo Arantes talvez se ajustem de alguma forma às bandeiras do movimento conservador ultradireitista que os norte-americanos chamam de Tea Party Movement ou Partido do Chá, cujas ideias são extremamente reacionárias e por vezes chegam mesmo a pregar soluções folclóricas que passam pelo descarte da negociação política e pelo desprezo às liberdades fundamentais.

     A “nova direita” no Brasil, que teria nascido do “surto de impaciência” dos movimentos de junho de 2013, pode até ter alguma semelhança com o ideário conservador do Partido do Chá norte-americano, mas as suas manifestações nas ruas e nas redes sociais, na última eleição presidencial, revelam que se trata apenas de mais um “surto de impaciência” de uma pequena parte do eleitorado brasileiro, uma parte pouco familiarizada com a vida e com a dinâmica democrática.

     Realmente, as manifestações preconceituosas da direita brasileira durante e depois da campanha eleitoral, o ódio destilado após a derrota da oposição conservadora nas urnas, as infundadas insinuações de fraude nas votações, os pedidos bizarros de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, o clamor pela intervenção militar e pela volta da ditadura, e até mesmo a proposta ridícula de uma intervenção dos EUA no governo brasileiro, indicam um claro “surto de desorientação” política por parte dessa “nova direita” no Brasil.

     Essa desorientação deve-se, fundamentalmente, ao fato de que a mídia empresarial, de forma irresponsável, soube manipular muito bem o “moralismo seletivo” de uma grande parcela da classe média mais despolitizada, despertando um ódio de classe sem precedentes contra pobres e nordestinos. Essa direita está tão politicamente desnorteada que não percebe que qualquer projeto de desenvolvimento do Brasil passa pelo desenvolvimento do Nordeste (Celso Furtado), e que qualquer país desenvolvido precisa eliminar a pobreza sem eliminar os pobres.

     Uma direita que pede a volta da ditadura militar e a intervenção dos EUA no governo brasileiro não tem a menor ideia do que seja democracia nem o que representa o valor da soberania nacional. Por isso, é um “movimento espasmódico” que não deve ser levado a sério, sobretudo porque está fundado no preconceito, na discriminação, na intolerância e no autoritarismo político mais vulgar. Um “espasmo eleitoral” que, além de tudo, acabou despertando alguns dos sentimentos humanos mais rebaixados como, por exemplo, o ódio, a violência e a vingança.

     O sinal  inequívoco de um processo realmente civilizatório, como já diziam os pensadores da Escola de Frankfurt, é a confiança nos valores democráticos que estimulam os sentimentos humanos mais nobres – dentre eles a justiça e o respeito pelo outro -, sem os quais não será possível estabelecer nenhuma convivência ética nem uma sociedade minimamente sustentável na direção de um aperfeiçoamento crescente (e possível) da humanidade.

     Os que desprezam a soberania do voto popular, os que descartam a própria soberania nacional, os que buscam desmoralizar o processo eleitoral e a vontade da maioria, os que procuram semear a desconfiança no processo democrático, e ainda por cima desejam viver sob uma ditadura, ou não sabem o que estão dizendo ou não têm o menor compromisso com qualquer projeto decente de civilização.

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Acesse http://www.outrasprosas.wordpress.com

 

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2 respostas para A direita impaciente

  1. Lígia disse:

    Pois é, quando a democracia não convém mais aos interesses dessa nova direita, apela-se até para a intervenção militar! Adorei o texto, permita-me compartilha-lo no face?

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