Inacreditável

          ESTAMOS no país do futebol, somos donos de cinco títulos mundiais, fomos o primeiro país a conquistar um tricampeonato mundial, temos o melhor futebol do planeta e um povo delirantemente apaixonado pelo esporte bretão. Apesar disso tudo, faltando menos de um mês para o início da segunda Copa do Mundo em terras brasileiras, “a pátria ainda não calçou as chuteiras” – como diria Nélson Rodrigues.

              Em lugar da euforia que sempre marcou a estreia da seleção brasileira numa Copa do Mundo, em lugar do orgulho e da confiança na vitória com que sempre enfrentamos nossos adversários pelos gramados do mundo inteiro, o que baixou foi uma grande depressão; o que temos visto nos jornais, nas revistas e televisões do país é o retrato da derrota e do pessimismo.

        Com efeito, aqui é uma notícia sobre o atraso das obras nos estádios, ali outra informação negativa sobre a infraestrutura que não ficará pronta a tempo, acolá a notícia de que os gastos com a Copa do Mundo são excessivos e equivocados – pois teríamos outras prioridades -, em outro lugar é a suspeita de roubalheira por parte das construtoras… e por aí vai. Para completar, vêm as análises daqueles que Nélson Rodrigues chamava de “entendidos” reforçando a sensação de que somos mesmo incapazes de organizar uma Copa do Mundo – destilando a mais nova versão do nosso velho “complexo de vira-lata”.

           E o pior é que esse pessimismo destilado pela mídia brasileira está dominando muitas cabeças. Mesmo entre os apaixonados por futebol, e que se dizem bem informados e “entendidos”, é comum ouvir-se a crítica severa contra os gastos da Copa e a defesa das prioridades com educação, saúde, transporte e moradia. Mas, sobre o escrete canarinho, que já nos deu tanto orgulho e tantas alegrias, sobre as possibilidades do time de Felipão: nenhum entusiasmo; nenhum comentário ufanista.

        Os leitores e telespectadores da grande mídia brasileira andam encabulados, ressabiados, com um pé atrás, pois a adesão entusiasmada à Copa do Mundo deste ano no Brasil poderá parecer uma espécie de adesão ao governo, que a trouxe para o país, e que trouxe também os já criticados Jogos Olímpicos de 2016. Entusiasmar-se com a Copa do Mundo no Brasil seria como reconhecer e aplaudir os méritos de uma política externa muito bem-sucedida.

          De uma hora pra outra essa turma de “entendidos” deu pra defender educação de qualidade para os mais carentes, hospitais e saúde para todo mundo, transporte coletivo eficiente e acessível, moradia com qualidade para os excluídos, em lugar de curtir a Copa no Brasil. Enfim, parece que a Copa do Mundo teve pelo menos o mérito de despertar a consciência social e política de uma classe que até hoje só reivindicou esses direitos para si mesma – nunca esteve nem aí com a saúde, educação e transporte coletivo populares.

            Que bom que essa Copa do Mundo despertou tanta solidariedade e tanto espírito crítico! Mas, teria lá minhas dúvidas sobre se esses “entendidos” estariam assim tão afiados, tão solidários com os excluídos, e tão críticos contra a Copa de 2014 no Brasil se esse evento esportivo fosse uma conquista de outro governo, de um governo de direita, de um governo acalentado pela mídia corporativa, enfim, um governo de patrões e não de trabalhadores.

          Aposto que a essa altura as televisões já estariam exibindo os jogos do passado, fazendo os prognósticos e as chances da seleção nesta Copa. E os economistas contabilizando os $ 142 bilhões de reais que, segundo o Governo, a Copa vai movimentar. Estariam computando os empregos diretos e indiretos gerados pelo evento, o incremento do PIB, a benéfica exposição internacional do país… essas coisas que os economistas alardeiam quando querem gerar otimismo.

             Mas o que espanta não é a frieza e a quase indiferença por parte de uma parcela dos brasileiros em relação à Copa do Mundo em nosso país, não é a indiferença sobre o dia a dia da seleção brasileira, não é o pouco-caso com a maior competição do futebol mundial; o que espanta é a capacidade, o poder da mídia de manipular mentes e corações – mesmo entre aqueles que se dizem escolarizados, “entendidos” e “bem-informados”. É isso que espanta!

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