Um vira-lata fenomenal

             O JORNALISTA e dramaturgo Nélson Rodrigues utilizou a expressão “complexo de vira-lata” para descrever o sentimento de inferioridade que tomou conta dos brasileiros logo após a derrota traumática, na Copa do Mundo de 1950, quando perdemos por 2 a 1 na final para o Uruguai, em pleno Maracanã. Segundo o jornalista, os brasileiros somente iriam superar parte desse complexo, no campo futebolístico, em 1958, quando viríamos a ganhar a nossa primeira Copa do Mundo na Suécia, encantando o planeta com o futebol de Pelé, Vavá, Garrincha, Bellini, Nílton Santos e cia.

             Mas, o que o jornalista Nélson Rodrigues nem sempre deixou muito claro é que esse “complexo de vira-lata”, ou “sentimento de inferioridade”, também afetou os brasileiros em outros campos, não apenas no futebol – pelo menos desde a segunda metade do século XIX. São muitas as causas que explicariam esse complexo. Dentre elas, especula-se com a nossa origem colonial, nossa escravidão prolongada, a origem mestiça e crioula do nosso povo, enfim, levantam-ase vários motivos que os antropólogos saberão certamente apontar com mais propriedade.

             Todavia, o motivo mais poderoso para o surgimento do tal “complexo de vira-lata” no Brasil parece ter sido a ação do imperialismo inglês no século XIX que fez o mundo europeu – e também a própria América Latina -, acreditar que aqui nos trópicos os répteis eram imensos, os animais ferozes eram raquíticos, os insetos gigantes, o solo pantanoso e o povo era mesmo inferior. No século XX, o imperialismo ianque-europeu continuou enfiando na cabeça de brasileiros e americanos do sul que somos realmente povos incapazes, incompetentes e irremediavelmente atrasados.

               Essa tática tipicamente imperialista – a tática do “divide et impera” -, reforça o nosso “complexo de vira-lata” e facilita a exploração desembaraçada (muitas vezes com a colaboração de alguns maus brasileiros) sobre as nossas riquezas naturais, a nossa mão de obra barata, nossa biodiversidade, nosso grande comércio consumidor etc., exatamente como ocorria no passado, quando exploravam o nosso pau-brasil, o ouro, o café, o açúcar, a borracha… e até a carne humana, nesta América Latina das “veias abertas”, como já o denunciou, com lucidez e coragem, o uruguaio Eduardo Galeano.

           É sempre bom lembrar que o imperialismo do século XIX, comandado pela Inglaterra, fez com que Argentina, Brasil, e Uruguai destruíssem criminosamente o Paraguai, que era a única nação latino-americana independente dos ingleses. E ainda enfiou na cabeça de brasileiros e latino-americanos que tudo o que vem do Paraguai é falsificado ou não presta. Até hoje, na cabeça dos vira-latas complexados, “paraguaio” virou sinônimo de falsificação, contrafação e comércio clandestino.

         Dizem que é justamente por causa desse tal “complexo de vira-lata” que muitos brasileiros têm a autoestima rebaixada, um pessimismo exagerado e uma grande desconfiança quanto ao potencial da nossa gente em qualquer setor: científico, cultural, produtivo, intelectual, esportivo e quejandos. É precisamente isso o que confirmou o ex-jogador Ronaldo Fenômeno ao dizer lá na Europa que estava com vergonha do Brasil por causa dos atrasos, da burocracia e da incompetência do país na organização da Copa do Mundo de 2014.

           Mas, esse garotão deslumbrado foi convocado pela CBF, então comandada pelo senhor Ricardo Teixeira (que dizem ser corrupto), para ser o “embaixador do Brasil” na Copa do Mundo de 2014. E sabe-se que ele aceitou prontamente o convite. Aceitou também o convite para integrar o chamado Comitê de Organização Local (COL) dessa mesma Copa, cuja função o ex-craque vem desempenhando até agora.

          Como é que alguém, comprometido desde o início com a realização da Copa do Mundo no Brasil, pode sentir vergonha de seu próprio trabalho, das suas próprias realizações? De repente, o garoto-propaganda da Copa (e de muitas empresas, inclusive as suas) deu pra maldizer a Copa do Mundo no Brasil e os organizadores dela, como se ele próprio não fosse um desses organizadores, como se ele não fosse também responsável pela realização do Mundial de 2014 no Brasil.

        Esse comportamento do garoto-fenômeno lá fora, lá na Europa, no coração do imperialismo colonialista, causa um grande estrago para a imagem do Brasil e realmente acentua o estereótipo do “vira-lata” de que se falava nos anos 50. É por isso que a presidenta Dilma Rousseff, bem ao seu estilo, reagiu prontamente e disse que o ex-atacante da seleção brasileira não precisava ter vergonha nenhuma, pois nós, os brasileiros, não temos mais aquele antigo complexo de inferioridade descrito pelo dramaturgo Nélson Rodrigues.

           É claro que a presidenta, por tabela, acabou chamando o Ronaldo Fenômeno de “vira-lata”. Porém, deveria tê-lo chamado é de “vira-casaca”. Com efeito, deslealdades desse tipo não se podem imputar aos “vira-latas” – que são animais extremamente fiéis, leais, valentes e companheiros até o fim. A presidenta Dilma pretendeu espantar o complexo de inferioridade dos brasileiros, mas não fez justiça aos nossos cãezinhos mestiços ou “crioulos”, pois eles são capazes de tudo, menos de virar a casaca no último minuto do segundo tempo do jogo.

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