História mal contada

              É IMPRESSIONANTE como a mídia brasileira, nos últimos meses, tem insistido em noticiar, divulgar e alarmar a população sobre a “inflação crescente no Brasil”. E é particularmente intrigante como essa mesma mídia insiste em atribuir a culpa pela inflação apenas ao governo – mais precisamente à política econômica equivocada e à incompetência do governo federal.

                Eu reconheço, é difícil entender o “economês” – essa linguagem cifrada dos tecnocratas. Mas antes de “comprar” essas ideias divulgadas por uma imprensa que faz declarada (e por vezes descarada!) oposição ao governo, seria prudente que a população brasileira se fizesse duas perguntinhas básicas, simples, primárias. Primeiro: o que é a inflação? Segundo: o quê e quem provoca a inflação?

              Sobre a primeira pergunta, os economistas estão plenamente de acordo em dizer que a inflação é simplesmente o fenômeno do “aumento generalizado dos preços” numa determinada economia, isto é, ela se identifica com aquilo que nós chamamos de “alta do custo de vida”, carestia etc. Acerca da segunda questão, os economistas sabem muito bem que os preços das mercadorias são definidos pelo próprio mercado, pelos agentes que atuam no setor produtivo e no comércio – interno e externo.

           Assim, os preços altos ou são o resultado das chamadas “leis de mercado” ou são produto da ganância dos que produzem e dos que vendem no âmbito desse mesmo mercado. É certo que os governos podem complicar o processo inflacionário, e o fazem basicamente de duas maneiras: (a) quando provocam a “expansão da base monetária”, aumentando artificialmente (sem lastro) a quantidade de moeda circulante na economia para saldar a dívida pública; e (b) quando aumentam a taxa de juros a ser praticada pelos bancos.

              Mas, nesses dois casos – aumento da base monetária e aumento da taxa de juros -, o governo age claramente pressionado pelos agentes de mercado que querem aumentar seus lucros aumentando seus preços. Assim, os governos emitem moedas e elevam as taxas de juros numa tentativa desesperada de enfrentar e conter o processo inflacionário. Logo, é fácil chegar à conclusão de que governos e governantes, bem feitas as contas, na verdade são vítimas da inflação, e não os culpados.

             O vilão dessa história toda, portanto, não é exatamente o governo, mas, sim, a tal “mão invisível do mercado” de que falava Adam Smith, com suas leis irresistíveis como, por exemplo, a lei da “oferta e da procura”, que explica muito bem a “alta de preços”, a “escassez de bens”, a carestia e, portanto, a famigerada inflação. O governo dispõe de algumas medidas regulatórias (elevação de juros, modulação cambial, incentivo de importações etc.) para atuar sobre a inflação; mas são paliativos: quem decide mesmo o destino da inflação são os agentes de mercado

        Nenhum governo, em sã consciência, por mais medíocre que fosse, desejaria alimentar espontaneamente o processo inflacionário que lhe corrói a popularidade, as finanças e ainda poderá desestabilizá-lo. Na verdade, os governos apenas reagem à inflação que o mercado fabrica ao fabricar preços e salários com toda a liberdade da famosa fórmula do liberalismo sintetizada no laissez-faire, laissez-passer.

          A mídia brasileira – e também os economistas do capital -, se não fosse tão conservadora e tão politicamente comprometida, bem que poderia contar essa história mais claramente, explicando ao nosso povo o papel definitivo que o mercado exerce no fenômeno inflacionário, deixando de contar a estória, muito mal explicada, de que é o governo quem provoca a inflação.

             Governos e governantes não “fabricam” nem erradicam inflação, eles são vítimas dela! E às vezes são vítimas também de uma certa mídia conservadora e reacionária que, para desestabilizar governos em tempos de eleições, fazem o alarde necessário à exploração político-eleitoral de uma inflação que o mercado fabricou silenciosamente, e às vezes maliciosamente, com aquela sua “mão invisível”.

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