O nome da crise

          DESDE que explodiu a crise da economia mundial em 2008, ouço falar a todo instante numa “crise europeia”, numa “crise do euro”, numa “crise global” e outros nomes que tais. Quem não é economista nem domina o “economês” tem se limitado a ouvir os especialistas, as análises, as previsões… e o fracasso de todos eles. Ninguém explica nem a causa nem a saída para essa nova crise que tem tantos nomes mas não se sabe bem se é uma crise da Europa, se é do euro, se é da economia global, se é dos países centrais, se é sabe-se lá do quê.

         Mas, uma coisa é verdade: as crises cíclicas ou periódicas ou sucessivas do capitalismo é algo que Marx previu há mais de um século e meio. Sendo assim, seria muito recomendável que os especialistas (e os curiosos em geral) dessem uma rápida passada pelas páginas do filósofo alemão, se é que pretendem mesmo entender um pouco mais do momento por que passa a economia capitalista de mercado. A crítica, o diagnóstico e as previsões marxistas são compreensivelmente indigestos. Os especialistas da ordem ou do establishment, por razões mais do que óbvias, evitam Marx o quanto podem. Porém, desta vez, não será possível ignorá-lo seriamente.

            De fato, Marx previu que as contradições internas do capitalismo provocariam crises cíclicas até a completa autodestruição do sistema. A última grande crise do capital ocorreu na década de 1930, simbolizada pela quebra da Bolsa de Nova Iorque em outubro de 1929. Agora, setenta anos depois, a nova crise estoura em 2008 puxada pela “bolha imobiliária” e pela insolvência que abalou o sistema financeiro norte-americano com reflexos ondulatórios em toda a economia globalizada.

              Dentre as várias contradições responsáveis pelas crises periódicas do sistema capitalista, segundo as previsões de Marx, está uma que parece absolutamente atual, e que, talvez, explique bem a origem estrutural da crise econômica neste momento. Trata-se da contradição ou da disparidade entre a enorme “capacidade produtiva” do capitalismo avançado e a cada vez mais escassa “capacidade de consumo” nas sociedades de mercado. Explico melhor: na sociedade capitalista de mercado é natural que a produção de mercadorias tenha em vista apenas o consumo, e não as necessidades humanas nem as possibilidades de consumir. Isto é, a produção está orientada pelo “valor de troca”, que gera o lucro, e não pelo “valor de uso”, que visa a satisfação das necessidades do homem.

           Assim, a produção de mercadorias precisa crescer até ao máximo para gerar o máximo de trocas e de lucros, mas a capacidade de consumo da massa trabalhadora não acompanha esse crescimento. Instala-se, pois, a contradição: é preciso produzir mercadorias em grande quantidade, mas não há quem as compre na mesma quantidade da produção. Vale dizer, a massa trabalhadora, por absurdo que pareça, não consegue consumir o que ela própria produz. Essa contradição é mais uma estupidez do capitalismo, mas ela é insolúvel e vai gerando as famosas crises econômicas de tempos em tempos.

               Para amenizar esse problema, sem resolvê-lo contudo, as economias e os governos lançam mão de vários expedientes tais como “estocagem do excedente da produção”, “liquidação do excesso a baixos preços”, “estímulo e abertura de crédito para o consumo” etc., e às vezes chegam até ao absurdo de praticar a “destruição do excedente”, inclusive a destruição de gêneros (mercadorias) alimentícios num mundo que ainda tem fome. Essas são as medidas paliativas imaginadas (quanta imaginação!) para resolver as crises de um sistema que precisa produzir infinitamente, lucrar infinitamente e consumir infinitamente…

            Para manter a taxa de lucro, as economias têm estimulado artificialmente o consumo por meio de duas estratégias perceptíveis a qualquer leigo: a propaganda e a abertura de crédito. É nesse ponto que os bancos jogam um papel decisivo: facilitam o crédito, impulsionam o consumo artificial e, consequentemente, preparam a temível insolvência que pode decretar a quebra do próprio sistema financeiro no futuro. Isso é o que os especialistas chamam de “financeirização da economia”. Foi exatamente o que aconteceu nos EUA em 2008, e que explica bem a origem e a dinâmica de toda essa crise atual.

              Há notícias de que espanhóis, portugueses, gregos, italianos e franceses estão em apuros, e têm recorrido à venda e ao empenho de bens considerados supérfluos, como joias e carros por exemplo, para manter o consumo de bens essenciais no dia a dia. Isto é uma evidência de que essa nova crise é, sobretudo, uma crise de consumo, justamente porque este último não conseguiu (e não conseguirá nunca) acompanhar a velocidade da produção, exatamente a produção que precisa ser mantida de qualquer jeito para gerar os lucros que, por sua vez, são apropriados pelos capitalistas, mantendo a lógica da acumulação. Se os níveis de consumo estivessem altos ou razoáveis na Europa e nos Estados Unidos, a produção estaria a pleno vapor e a economia plenamente aquecida, não haveria recessão nem insolvência.

          Como sair desse dilema entre a necessidade de produzir mercadorias e a incapacidade de consumi-las? Não tem jeito. Na sociedade capitalista de mercado é assim mesmo. Como diria um bom caipira interiorano: é “morder o freio e aguentar o relho – ou a crise”. Por mais que os economistas da ordem disfarcem, por mais que eles relutem, qualquer um sabe que a compreensão da realidade exige que primeiramente se dê “nome aos bois”. E o nome da crise atual não é nada de “crise do euro”, de “crise da União Europeia ” ou simplesmente de “crise global. Nada de rodeios, disfarces ou dissimulação: o nome dessa crise, em bom português, é “crise cíclica do capitalismo”, e pronto.

              Depois de sepultar Marx e o socialismo, depois de tecer loas à desregulamentação do mercado, depois de entoar o cântico teológico do neoliberalismo, quem é que tem coragem de voltar ao bê-á-bá do marxismo, de reconhecer a procedência do diagnóstico marxista e de dizer o nome verdadeiro da crise atual? Acham tudo quanto é desculpa e explicação: menos dizer que a crise atual e apenas mais uma das crises cíclicas do capitalismo – nada mais.

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