Um exército pra chamar de “meu”

AGORA, sim, o presidente Bolsonaro tem um Exército todinho pra chamar de seu: mandou o comandante dessa força terrestre arquivar o processo de Pazuello e o comandante, que já não comanda tanto assim, simplesmente arquivou os autos, acolhendo a justificativa esfarrapada do general indisciplinado.

Semanas atrás, o ex-ministro da Saúde, que é general da ativa, havia participado de um ato político-partidário (e golpista) a favor do presidente Bolsonaro no Rio de Janeiro. Essa atitude do militar é proibida pela regulamento das Forças Armadas e pela Constituição, logo, Pazuello deveria ser punido por indisciplina, mas o capitão-em-chefe “dobrou” o comandante do Exército e o processo disciplinar deu em nada.

Dizem que essa decisão, enfiada goela abaixo do comandante do Exército, poderá incitar a indisciplina entre os militares. E pode. Mas isso ainda não é o mais grave. O grave mesmo é a ameaça que representa à democracia brasileira: a absolvição de Pazuello indica que as Forças Armadas, apesar de apregoarem o contrário, estão embarcadas no governo do capitão indisciplinado, que fora expulso do próprio Exército.

Sim. Com a malsinada eleição de Bolsonaro em 2018 os militares foram trazidos de novo para o jogo político. São milhares deles em cargos do primeiro e segundo escalões do governo federal. Se não temos hoje um “governo militar”, temos sim um “governo militarizado”. E os militares estão adorando isso – retomaram o poder sem a necessidade de um golpe tipicamente militar, como no passado.

Dentro das Forças Armadas pode haver alguém ou algum grupo que não concorda com todas as maluquices do capitão presidente. Mas, mesmo assim, mesmo com divergências pontuais, essas Forças apoiam o governo atual e são capazes de apoiar seu projeto autoritário até o fim, inclusive com golpe em 2022, caso Bolsonaro perca nas urnas.

Não nos iludamos. A República brasileira foi proclamada por um golpe dos militares e, nos seus primórdios, presidida por eles. Depois da proclamação da República, os militares estiveram no centro de todos os golpes de Estado no Brasil – quer apoiando, quer protagonizando esses golpes, desde a Primeira Revolta Armada em 1891 até a deposição de Dilma Rousseff em 2016.

Não é de estranhar, pois, que estejam de novo tão assanhados com o poder, já que a presidência e a vice-presidência da República passaram às mãos de dois militares da reserva.

A absolvição de Pazuello é emblemática: as Forças Armadas, que na verdade são instituições de Estado, embarcaram (felizes da vida) no governo de turno. E é assim até mesmo por razões históricas. Mas há outras: os militares sempre almejaram o controle das empresas estatais e também da Amazônia – vejam que Bolsonaro não mostra disposição para privatizar as estatais e deixa nossa Amazônia ao deus-dará, o que justificaria uma futura tutela militar.

Engana-se quem acha que as Forças Armadas estão constrangidas com o governo genocida e incompetente do capitão. Nem há “racha” nenhum na tropa. Nada disso. A sede de poder sempre falou mais alto nos quartéis. O eleitorado brasileiro é que precisa tomar tenência e mandar os militares pra caserna, devolvendo o poder político aos civis – porque onde o poder das armas faz política não há democracia.

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