O começo de tudo

          TUDO começou em junho de 2013. O Movimento Passe Livre (MPL) organizou um protesto na capital paulista e quase paralisou São Paulo, provocando violentíssima reação da Polícia Militar – o alvo das manifestações era tão somente um aumento na tarifa de ônibus de R$ 3,00 para R$ 3,20. De início, atribuíram tais protestos, como sempre, a partidos de esquerda que estariam por trás do quebra-quebra que os black blocs viriam a provocar em seguida.

            De repente, manifestações contra o aumento de tarifas no transporte público de São Paulo ganharam as ruas de várias capitais do país – em poucos dias, o protesto paulista se tornou uma manifestação nacional. Muitos começaram a estranhar a súbita capacidade de mobilização do Movimento Passe Livre (MPL), que em poucas semanas foi capaz de sensibilizar o país inteiro. Até os integrantes desse movimento se assustaram, e chegaram mesmo a dizer que suas reivindicações não tinham a dimensão que acabaram ganhando nas ruas – era tudo muito surpreendente.

             Alguns analistas atribuíram o surgimento desses vários protestos, em várias regiões do país, a uma suposta “insatisfação generalizada do povo” – uma insatisfação generalizada com tudo, sem que se soubesse exatamente com quê, nem por quê. Diziam que era uma “insatisfação represada”.

             Mas, ela causava estranheza porque naquele momento a economia do Brasil ia bem, não crescia mais a 5% ao ano, é verdade, mas o Nordeste apresentava crescimento de 4% anuais; as reservas internacionais eram de 380 bilhões de dólares; a inflação estava mantida dentro da meta; a taxa de desemprego era de 6,8% (níveis alemães); o salário mínimo continuava com aumentos reais; o consumo estava aquecido, e os investimentos estrangeiros diretos no Brasil (IED) aumentavam e chegariam a 8% (42 bilhões de dólares) em 2014 – não havia por quê, nada explicava uma revolta súbita como aquela.

               Era muito estranho mesmo que a manifestação do Movimento Passe Livre em São Paulo se alastrasse daquele jeito por todo o país, feito “fogo no palheiro”. Muitos se perguntavam: de onde saiu essa insatisfação toda que chacoalhou o país num momento de calmaria, exatamente como aquelas turbulências que atemorizam os passageiros de avião em dias de sol claro, sem tempestade na rota, com céu de brigadeiro – a verdade é que os protestos nas ruas desafiavam a argúcia dos especialistas e “entendidos” naquele momento.

          Hoje, porém, com o pequeno recuo histórico de apenas três anos já é possível enxergar tudo com clareza: a insatisfação que explodiu nas ruas em 2013 não tinha nada a ver com a capacidade de mobilização do MPL – um movimento até então pouco conhecido. E o fato de as reivindicações do MPL terem se estendido a vários estados em poucos dias também não tinha nada a ver com a capacidade de comunicação desse movimento, que era pequena – enfim, a inesperada “federalização” das reivindicações do MPL, que se espalharam pelo país de uma hora pra outra, foi uma manobra muito bem conduzida, e foi o “ovo da serpente” que acabou envenenando o povo e o governo de Dilma Rousseff.

           Agora, ficou muito claro que a direita, por intermédio de seus porta-vozes, a mídia empresarial e seus comparsas, se apropriou dos protestos iniciados pelo MPL e fez com que eles passassem das ruas para o Jornal Nacional da Rede Globo, diariamente. Da tevê, saltaram para as páginas dos grandes jornais e revistas impressos. Daí para as rádios. E assim, aquilo que era uma manifestação contra o aumento de apenas 0,20 centavos nas tarifas do transporte público em São Paulo, e a tal “insatisfação generalizada do povo”, transformou-se num dos fatos políticos mais importantes e mais ruidosos dos últimos tempos.

             O passo seguinte foi tão simples quanto previsível: a mídia burguesa adicionou aos protestos o tema da corrupção, um tema historicamente sedutor, e conquistou de vez o coração benigno e sempre aflito da classe média. Com isso, conseguiu pôr a elite e a pequena burguesia nas ruas, inventando alguns “movimentos sociais artificiais” como o “Vem pra rua”, o “Revoltados on-line” e “Movimento Brasil Livre”. Com esses movimentos, substituiu os movimentos sociais autênticos, que não estavam participando dos protestos; inventou também, artificialmente, alguns líderes “ad hoc”, como o pândego Kim Kataguiri; e, por fim, direcionou os protestos e toda a tal “insatisfação generalizada” contra o governo de Dilma Rousseff.

           O objetivo era desgastar a presidenta, pois as eleições de 2014 já se avizinhavam. E direcionaram os protestos também contra a Copa do Mundo, que aparecia como uma realização de Lula. Em meio a tantos protestos, vieram as eleições e a direita quase conseguiu eleger o bon vivant Aécio Neves. Como a vitória de Dilma foi apertada, e o país ficou dividido, a direita derrotada percebeu que um golpe não seria má ideia, nem tão traumático, e teria até um certo respaldo popular – por parte da elite, obviamente, e de alguns setores reacionários e moralistas como a classe média tradicional e a “nova classe média”.

        A partir de então, com o aparelho burocrático policial/judiciário, investigando, denunciando e alardeando pela mídia apenas a corrupção política relacionada ao partido da presidenta da república, e com um Congresso ultraconservador disposto a tudo para acabar com o governo da presidenta reeleita, os golpistas se sentiram seguros para apostar no tão sonhado “terceiro turno”, ou seja, perceberam que estava aplainado o caminho do golpe empresarial/midiático/parlamentar – o resto você já sabe.

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