Um prefeito apolítico?

         O PREFEITO eleito da capital paulista, João Dória Júnior, foi muito esperto na sua campanha. Ele percebeu que o eleitorado brasileiro tem rejeitado a política – tanto que as abstenções, os votos nulos e brancos na própria capital foram mais numerosos que os votos obtidos pelo candidato vitorioso –  e se definiu como um “gestor”, não como um “político”. É evidente que isso não é verdade, não passa de estratégia marqueteira. Mas o fato é que ele (ou seu marqueteiro) soube interpretar o momento e levou o eleitorado paulistano no bico.

           O candidato sempre viveu enfiado na política, bem na cúpula dela. Aliás, já nasceu em “berço político” – é filho do falecido deputado federal João Dória; foi presidente da Embratur, nomeado pelo ex-presidente José Sarney; foi presidente da Paulistur, nomeado por Mário Covas; foi Secretário Municipal de Turismo em São Paulo, na gestão Mário Covas; é filiado ao PSDB há mais de 15 anos; e somente não concorreu a nenhum cargo eletivo até hoje porque seu nome nunca teve viabilidade eleitoral.

           O prefeito eleito de São Paulo – que é autor de livros de autoajuda -, quer seguir os passos e as estratégias do ex-prefeito de Nova Iorque, Michael Bloomberg – um magnata que se elegeu três vezes à prefeitura de sua cidade dizendo que não era político, mas apenas empresário. Aliás, essa foi também a tática de Fernando Collor de Mello, eleito presidente da república em 1989 como empresário “caçador de marajá”, e não como político.

              O objetivo desses candidatos que se apresentam como alguém de “fora da política”, como verdadeiros outsiders, é convencer o eleitorado de que eles não têm os mesmos vícios dos políticos. Que não precisam da política. Que são indivíduos bem-sucedidos em suas atividades e, portanto, não necessitam se aproveitar da política para atender a seus próprios interesses. Além disso, pretendem convencer o eleitorado de que serão tão bem-sucedidos na administração pública quanto o foram na administração de seus negócios privados, muito embora isso seja uma falácia, porque os homens de negócio entendem de negócio, e se a política virar também um de seus negócios estaremos todos arruinados.

            Não tem nada mais astucioso e enganador do que esse discurso do prefeito eleito em São Paulo. É o discurso tipicamente populista (e messiânico) que encontra ambiente fértil em momentos de crise e em momentos de desorientação do eleitorado.

            É impossível ser “apolítico”, como quer o futuro prefeito paulistano. Aristóteles dizia que o homem é um “animal político” (Zoon Politikon). Até mesmo aqueles que rejeitam a política, que se dizem não políticos, no fundo, estão tomando uma decisão política – a política de não fazer política e de deixar tudo como está. O simples ato de expressar opiniões políticas decorre, obviamente, de uma decisão política; e até o silêncio é político – ou seja, é a política da omissão ou da aquiescência. Ninguém consegue ser “apolítico” ou deixar de fazer política. Pode-se recusar a fazer política partidária, mas até essa recusa é uma decisão política.

            Acreditar que um grande empresário não é político, ou não faz política, é acreditar em Papai Noel, cegonha e saci-pererê tudo junto. No Brasil, os empresários não só fazem política como financiam a política. Ocupam, eles mesmos, os postos políticos (eletivos ou não), e, quando não, põem lá, nesses postos, seus representantes e mandatários – a conversa do candidato João Dória Júnior de que é “apolítico”, portanto, como se diz lá na minha terra, é conversa pra boi dormir.

             O prefeito eleito de São Paulo, além de ser um empresário metido na política até a raiz do cabelo, é filho e neto de políticos. Originário de uma família abastada – consta até que é descendente de senhores de engenho na Bahia. Integra, portanto, a fina-flor da burguesia paulistana e das elites deste país – não poderia haver um representante mais legítimo das nossas classes dominantes.

             Não há nenhum mal nessa tática do prefeito eleito de dizer que não é político, e sim um empresário. Não há nenhum mal em que os simpatizantes do candidato acreditem nesse discurso mistificador. O mal, o pior de tudo, é ver a periferia comemorando a vitória do candidato da elite; é ver pobre iludido com grã-fino; é ver dominado feliz com a vitória do dominante. Aí, bem… aí dá dó – sinal de que ainda estamos longe, muito longe, de superar o nosso histórico fosso entre casa-grande e senzala.

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