Pancadaria e luta de classes

          O EX-PRESIDENTE Lula da Silva previu no ano passado que até 2018, ou seja, até a próxima eleição presidencial, ele e sua família seriam alvo de muita “pancadaria” por parte de seus opositores, mas, principalmente, por parte da mídia burguesa ou empresarial que não pode nem ouvir falar no nome dele.

          Dito e feito! Começaram investigando o suposto enriquecimento ilícito do filho mais velho do Lula; passaram a investigar as medidas provisórias do setor automotivo que envolveriam o filho mais novo do Lula; agora estão investigando um apartamento no Guarujá que seria da mulher do Lula; e investigam também a reforma de um sítio em Atibaia que era pra ser utilizado por quem? Pelo Lula.

         Nessas investigações todas, autoridades e mídia estão ouvindo Deus e o mundo. Já ouviram dono de concessionária de automóvel, dono de construtora, funcionário de construtora, engenheiro, mestre de obra, pedreiro, servente de pedreiro, porteiro de prédio, zeladora de prédio, dono de depósito de material de construção, vizinho, motorista e até marceneiro ouviram.

          A esta hora penso que o Lula deve estar bastante preocupado, pois a força-tarefa que montaram para colocá-lo no banco dos réus, e, se possível, na cadeia, é extremamente poderosa. E além de poderosa, é obsessiva. Tem gente que não dorme enquanto não vir o Lula atrás das grades!

       Os barões da mídia, e seus obsequiosos intelectuais, já estão fazendo cálculos otimistas. Calculam publicamente que, se o Lula não for processado nem preso, pelo menos o desgaste político e os estragos na sua imagem de candidato já estão feitos, e são irreversíveis.

         É bem possível que esses cálculos estejam certos. Mas, se não houver o tal “tiro de misericórdia”, isto é, se não botarem o Lula no banco dos réus ou na cadeia, esses cálculos poderão virar do avesso. Ou seja, em lugar do “tiro de misericórdia” poderá vir um “tiro pela culatra”.

         Depois de tanta pancadaria, depois de tanta investigação obsessiva, depois de tanta campanha negativa na imprensa e nas mídias, ou Lula da Silva naufraga de vez como candidato em 2018 ou acaba saindo fortalecido dessa tempestade toda.

      Neste momento, ninguém ousa afirmar uma coisa nem outra; ninguém prevê absolutamente nada a respeito da sorte e do destino do ex-presidente Lula. O que se sabe é tão somente que o momento político está polarizado: as forças à esquerda torcem pela sobrevivência política desse líder popular, as forças à direita desejam exatamente o contrário.

        Os brasileiros vivem um momento único porque nunca houve na nossa história política um governo de extração genuinamente popular como o governo de Lula e do PT. Sempre fomos governados pela elite e por seus representantes. Logo, essa polarização entre as camadas sociais de baixo e as de cima, e entre as visões de esquerda e direita, é coisa nova no Brasil.

         O alinhamento do eleitorado brasileiro começou já na segunda eleição de Lula em 2006. E era inevitável que isso acontecesse depois que desmoronou o “pacto conciliador do lulismo”, que manteve os privilégios e os ganhos dos de cima, mas obteve significativos ganhos para os de baixo, mercê de um “reformismo leve”, ao mesmo tempo progressista e conservador – coisas do lulismo.

         Esse pacto acabou. Não há mais como restaurá-lo. Ficou apenas a polarização política. Ou seja, Lula já não reúne mais condições político-partidárias para conciliar ricos e pobres; e os ricos já não desejam continuar governados por um partido popular com raízes no sindicalismo, no operariado, nos movimentos sociais e na intelectualidade de esquerda.

          Agora, para o bem ou para o mal, restou apenas isso: a polarização política, quer dizer, a face mais visível da velha luta de classes – essa velha luta que alguns ainda teimam em negar inocentemente, ou seja, essa Velha Senhora que alguns juram que já morreu sem nunca ter sequer adoecido – a luta de classes continua mais vico do que nunca.

            De um lado dessa luta ficou a elite nativa, os de cima, uma parte da classe média tradicional, os grandes banqueiros, as corporações multinacionais, as federações da indústria (FIESP), o movimento ruralista (UDR), as igrejas neopentecostais, o poderoso Grupo Globo, os grandes jornais paulistas, as revistas Veja e Istoé, os intelectuais orgânicos da burguesia, o Clube Militar e, naturalmente, a ala conservadora do Congresso Nacional; do outro lado, ora bem, do outro lado ficou o resto… ou como se dizia no meu tempo de moleque, ficou a rapa.

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