A hora da direita

              É INEGÁVEL que uma onda neoconservadora está varrendo o país neste momento e, penso eu, seria prudente que os brasileiros se dessem conta disso antes que seja tarde demais. A história já revelou tantas vezes que o exagero dos reacionários costuma trazer consigo o retrocesso político, o autoritarismo e, como se sabe, até mesmo os regimes fascistas e as ditaduras.

               A propósito, observemos algumas esquisitices à nossa volta!

            A política macroeconômica da presidenta reeleita está refém dos fundamentos do neoliberalismo econômico e será conduzida nos próximos anos por um “chicago-boy”, isto é, por um Ministro da Fazenda formado sob os princípios conservadores e ortodoxos do chamado “Consenso de Washington” que, desde os anos 1980, só vem aumentando a desigualdade social e de renda, destroçando os direitos dos trabalhadores e enchendo as burras do capital financeiro no mundo todo.

             Imediatamente após a posse do novo Ministro da Fazenda, o governo já anunciou um “ajuste fiscal” para equilibrar as contas e botar o país a crescer. Não se iludam com esse nome bonitinho – “ajuste fiscal” – ele significa recessão econômica com garantia de pagamento de juros aos especuladores financeiros, e tudo mediante corte dos direitos sociais da classe trabalhadora, tanto é que numa primeira tacada já “dançaram” a pensão por morte e o seguro-desemprego.

            O presidente do Senado, Renan Calheiros, passou a defender publicamente a autonomia do Banco Central que é, como todos sabemos, um instrumento importantíssimo de governabilidade, que possibilita a intervenção do Estado na política econômica. E não se assustem com o termo “intervenção” porque a ideia de mercados autorregulados, absolutamente livres e sem nenhum arbitramento ou regulação estatal, como pregam os neoliberais, é pura balela – isso não existe nem nunca existiu no capitalismo.

                O presidente da Câmara, deputado evangélico Eduardo Cunha (PMDB), nem bem assumiu o cargo e já foi avisando, no seu melhor estilo reacionário e bravateiro, que os projetos de leis sobre a legalização do aborto e ampliação de direitos dos homossexuais não estão na agenda do país, e somente entrarão na pauta de votação daquela Casa Legislativa se “passarem por cima do seu cadáver”.

         Nas últimas eleições, diminuiu a representação política dos trabalhadores no Congresso Nacional e aumentou significativamente a representação do agronegócio, dos evangélicos e daqueles que defendem soluções autoritárias e repressivas para os problemas sociais – a chamada “bancada da bala”. É por isso que alguns já estão até ironizando a composição do Legislativo atual, chamando-o de “Congresso BBB”, ou seja, “Congresso do boi, da bala e da bíblia”.

               É exatamente esse Congresso conservador que acabou de aprovar o texto-base da tal “Lei da Terceirização”, que outra coisa não é senão a precarização legalizada do trabalho, a destruição de direitos trabalhistas conquistados desde a Era Vargas com a CLT (Consolidação das Lei do Trabalho) e, portanto, uma lei que representa enorme retrocesso em termos sociais e políticos para a classe trabalhadora.

               Foi também a Comissão de Constituição e Justiça desse Congresso reacionário que acabou de aprovar a redução da maioridade penal para 16 anos de idade, contrariando toda a filosofia protetiva do ECA e os tratados internacionais de direitos da infância e juventude, na ingênua (ou mal-intencionada) suposição de que o nosso sistema penal, corrupto e violento, é o caminho mais adequado para tratar e recuperar nossos adolescentes infratores, bem como para reduzir a criminalidade e assegurar a manutenção da ordem.

            Sucessivas manifestações de rua querem porque querem arrancar do cargo uma presidenta democraticamente eleita, reconduzida à presidência da república pela via do voto popular, com eleições livres, diretas e legítimas. Pedem a toda hora o impeachment de Dilma Rousseff num claro desprezo pela legalidade, pela Constituição e pela democracia, pois não existe qualquer base legal, não há qualquer crime que jsutifique o impedimento da presidenta.

              Essas mesmas manifestações têm pedido insistentemente a volta do regime militar e, portanto, da ditadura fascista que até há pouco tempo aniquilou os direitos civis e políticos neste país. Chega a ser assustadora (e incrível) a ridícula “tietagem” de jovens, adultos e crianças – à vezes até de famílias inteiras -, posando ao lado das tropas militares para as fotos e as selfies nos últimos protestos de rua.

             Está solto por todo canto um “moralismo enviesado e seletivo”contra a corrupção, mas apenas contra a corrupção do governo e do Partido dos Trabalhadores, porque o mais importante partido da oposição, que é também o maior partido da direita, nunca foi sequer investigado – nem mesmo agora com essa “onda neomoralista” que se espalhou rancorosamente por aí.

             Temos assistido a uma esquisita “criminalização da política” no país. Os políticos são tidos por suspeitos, corruptos ou criminosos. Decretam-se prisões processuais de políticos e dirigentes partidários a todo instante, sobretudo quando eles são membros ou ligados ao Partido dos Trabalhadores. Esquece-se que a política, e não as cadeias, é o único instrumento civilizado e democrático para a solução dos conflitos coletivos, para a mediação dos antagonismos de classes e para o aperfeiçoamento das instituições.

               Em resumo, como diz aquele velho ditado popular, “O mar não está pra peixe”, e o jeito é mesmo seguir levando o barco devagar, remando bem ressabiado e observando melhor o sentido e as consequências dessas coisas todas. Elas sinalizam que pode estar chegando a hora da direita… e parece que está chegando com tudo!

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