A morte por opção

UMA das maiores chacinas da história do país acontece em meio à maior pandemia do século. Nesta última – na pandemia – os que mais morreram e continuam morrendo têm sido os pobres e pretos. Na outra – na chacina – só morreram pobres, pretos e pardos. Como se vê, a morte não é isonômica e reflete, como um espelho, as desigualdades sociais.

Isso significa que ela (a morte) – um fato natural em si mesmo – é também um “fato social”. Ou seja, um fato “socialmente construído”, delineado, circunscrito pela imediata violência de Estado (omissão na pandemia e intervenção violenta da polícia na chacina), e mediatamente por uma herança colonial e escravista que perpetua suas vítimas preferenciais.

A barbárie do Jacarezinho e as quase 500 mil vítimas da pandemia, em que predominam as mortes com viés étnico/racista, constituem ao mesmo tempo uma vergonha nacional e uma prova de que o Brasil permanece prisioneiro de seu passado tão iníquo quanto resiliente, e intocável.

Intocável pelo silêncio de muitos que não ousam – porque não sentem e não sofrem – afrontar as estruturas racistas que produzem e reproduzem a miséria e as desigualdades do nosso cotidiano, a revelar que há mesmo “vidas que não importam” e mortes que não merecem sequer um lamento, uma indignação.

De silêncio em silêncio, a morte seletiva vai se naturalizando; vai voltando a ser apenas um “fato natural”, talvez até aceitável. O silêncio dos bons é o fermento dos regimes genocidas, como foi no nazi-fascismo do século XX.

Já o falatório dos maus é o responsável pela necropolítica de um Estado que mantém a polícia mais letal do mundo e abriga um dos governos mais genocidas da história brasileira: diante da pandemia, o presidente da República diz que “vai morrer quem tiver que morrer”; e diante da chacina o vice-presidente afirma que “só morreu bandido”. O que explica esse desprezo pela vida senão o gosto pela morte?

Enquanto isso, nas redes sociais, uma horda de milicianos imbecis, reproduzindo a leviandade de seus líderes políticos, comemora a morte dos moradores do Jacarezinho dizendo que “morreu foi pouco”. Se já seria chocante a ausência de compaixão, imaginem esse regozijo com a morte, essa celebração da barbárie.

Não há saída para um povo que não sabe fazer distinção entre civilização e barbárie. Um povo que não consegue perceber, na sua própria identidade, a violência estrutural que nos constituiu no passado e que brutaliza nosso presente – um horror ocultado pela escuridão das trevas que envolvem nossos olhos, nossas consciências e inconsciências. Seguimos prisioneiros do dilema infernal de viver num país “bonito por natureza” e horrível por opção.

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