1964: golpe, revolução ou movimento?

CLARO que foi golpe. A deposição de um governo democrático, eleito pelo voto direto do povo, usando tanques nas ruas e procedendo à nomeação de um presidente sem eleição popular não pode ter outro nome: é golpe! Foi isso o que aconteceu em 31 de março de 1964, ou na madrugada de 1º de Abril, o Dia da Mentira.

A tentativa de reescrever a História, por parte de uma extrema-direita populista no país, transformando um golpe num movimento que salvaria o país das garras do comunismo, não passa de simples boçalidade – mais um golpe contra a verdade factual.

Neste 31 de março, os quartéis estão de novo em polvorosa. Bolsonaro demitiu o ministro da Defesa porque este não concordava com seus projetos autocráticos. Em solidariedade ao ministro demitido, os chefes das três Forças Armadas entregaram seus cargos. Com isso, o presidente, fiel ao seu projeto e feitio, abre também uma crise na cúpula militar do país. Nada escapa à sanha destrutiva do ex-capitão!

Hoje, o Ministério da Casa Civil, da Defesa, Da Ciência e Tecnologia, das Minas e Energia, da Infraestrutura, o Gabinete de Segurança Institucional e a Controladoria-Geral da União são pastas chefiadas por militares. Até outro dia o Ministério da Saúde também o era, isso sem contar a Secom e a Petrobras que também estão nas mãos dos militares, além dos mais de 2.500 militares que ocupam cargos de chefia no segundo escalão do governo federal.

No governo Bolsonaro, os militares chegaram ao poder sem dar o golpe que deram em 1964. Nunca se viu, nem mesmo na ditadura de 64 a 85, tantos militares no governo – a chegada deles não foi um golpe, mas foi uma “invasão”, convocada pelo presidente (militar reformado) que não desiste de seu projeto autoritário.

Para concretizar esse projeto, Jair Bolsonaro vem cortejando também as polícias militares dos estados; apoia um projeto de lei no Congresso que retira a autonomia dos governadores sobre suas polícias estaduais. E agora, na intempestiva reforma ministerial, o presidente põe no Ministério da Justiça, pela primeira vez na história, não um homem da Justiça, mas um policial, delegado da Polícia Federal.

Põe também no Ministério da Defesa um militar, Braga Netto, conhecido mais por suas qualidades de homem disciplinado e cumpridor de ordens do que por alguma especial habilidade política. A intenção, claramente, é cooptar o apoio das Forças Armadas para a aventura autoritária desse tiranete irresponsável que ocupa hoje (ilegitimamente) o Palácio do Planalto.

Vê-se que os militares que comandaram as Forças Armadas até agora estavam contra qualquer manobra golpista, fora da Constituição. O comandante do Exército, Edson Pujol, demitido, já vinha se manifestando publicamente contra a presença de militares na política. E com razão: o poder armado não pode fazer política.

As Forças Armadas, dizia o ex-comandante do Exército, e também os comandantes das outras Forças, são instituições de Estado – e não de governo. São instituições permanentes. Logo, não poderiam ser instrumentalizadas pelo presidente da República como se fossem uma milícia particular, uma guarda pessoal.

Com a demissão dos militares de alta patente, duas coisas ficam bem claras: (1) Bolsonaro busca mesmo o fechamento do regime; (2) ele não conta, até o momento, com a cúpula castrense para levar adiante seu projeto de autogolpe. Conseguiu, por isso, instalar uma crise militar no país como não se via desde a ditadura.

Ironicamente, neste 31 de março, a única coisa a comemorar é justamente essa crise, ou seja, o “desgolpe” dos militares que desembarcaram da nau desgovernada que se chama “bolsonarismo”.

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