Desatino

NO começo da pandemia, de maneira conformista e displicente, o nosso chefe de Estado (e de governo) disse que o vírus e a doença estavam aí, que isso era uma realidade, e que iria morrer quem tivesse que morrer. Dava a impressão até que o presidente da República não tinha nada com o problema – nem o que fazer para combatê-lo.

Mais à frente, o capitão disse que o país estava “quebrado”, e que ele, presidente, não poderia fazer nada, como se a gestão da economia, os planos e a política macroeconômicos, estímulos e aliança com os setores produtivos, não fossem da alçada do chefe de governo e sua equipe econômica especialmente escolhida (e paga) pra fazer isso.

Agora, o presidente declara: “o caos vem aí e a fome vai tirar o povo de casa”, como se evitar o caos e combater a fome também não fossem desafios do governo que ele comanda; como se caos e fome fossem algo inevitável na pandemia e que ele, Bolsonaro, feito um simples analista, se limitará a prever e contemplar a bancarrota.

A conclusão é que o país está há dois anos sem governo – quer no que diz respeito à saúde, quer no que tange à economia. Na saúde, o presidente assume atitude fatalista (e inerte) diante de uma pandemia que, segundo ele, “vai matar quem tiver que matar”. Na economia, o capitão se limita a constatar que o Estado está quebrado e que a fome e o caos econômico, inevitavelmente, vêm por aí, sem que ele, presidente, nada pudesse fazer.

Em vez de articular ações conjuntas entre as unidades da federação (estados e municípios); em vez de se articular com o Congresso Nacional para enfrentar a pandemia; em lugar de assumir a liderança para alavancar a reação econômica, junto com o empresariado e as representações sindicais; em lugar de unir o povo brasileiro em torno desses desafios todos, Bolsonaro preferiu isolar-se, assumindo uma atitude omissa ou absenteísta – a dúvida é saber se o capitão não fez nada porque não quis ou por porque é incapaz mesmo.

A única coisa de que parece ser capaz é ameaçar as instituições e a democracia. Flerta o tempo todo com o golpe e a autocracia. Ainda agora ressuscitou a Lei de Segurança Nacional para perseguir todos os que divergem de seu desgoverno. Em apenas dois anos de Bolsonaro, os inquéritos com base na LSN, um resquício da ditadura, aumentaram em inimagináveis 285%.

Por fim, o presidente diz que poderá tomar “medidas duras”, insinuando que o Estado de Sítio é uma possibilidade ante o caos que se avizinha – e que ele próprio desencadeou. É um homem desatinado; alguém tem que parar esse maluco. Queira Deus que as instituições (Judiciário e Legislativo), e sobretudo o povo, tenham um pouco mais de discernimento do que tiveram até aqui; caso contrário, poderemos ficar sem saúde, sem comida e sem direitos.

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