Por que genocida

SÓ o fato de Jair Bolsonaro estar à procura do seu quarto ministro da Saúde, em plena pandemia e em apenas dois anos, já é uma evidência de que o governo brasileiro não tem estratégia, nem política nem plano nenhum para enfrentar aquela que é, por certo, a maior crise sanitária do século.

O governo brasileiro, deliberadamente, fez questão de ignorar a crise. E pior: em muitos momentos agiu para agravá-la. Não por acaso, no ranking dos países que vêm enfrentando a pandemia, o Brasil ocupa o último lugar. A pior gestão. Atrás – mas muito atrás mesmo -, de países pobres como Gana, Zâmbia e Zimbabwe.

O presidente brasileiro começou desdenhando a doença e contrariando – inclusive com atitudes pessoais – todas, absurdamente todas, as recomendações médicas e sanitárias para o enfrentamento do novo coronavírus: foi contra o lockdown desde o início, desencentivou o uso de máscaras e o distanciamento social, e promoveu aglomeração de pessoas, muitas vezes gratuitamente – só por pirraça.

No auge de sua loucura, o presidente passou a desdenhar também as vacinas; chegou a recusar imunizantes oferecidos por outros país – no ano passado, recusou 70 milhões de doses oferecidas pela Pfizer. A empresa disse que tentou diversas vezes tratar do assunto com o governo brasileiro, mas não teve sucesso.

Em vez de criar um “gabinete de crise” para enfrentar a pandemia, para unificar o discurso e as ações no país todo, para informar devidamente a população, Jair Bolsonaro brigou com prefeitos e governadores, preferindo insistir no seu “tratamento precoce”, com medicamentos que, comprovadamente, não têm nenhum efeito sobre a covid-19 – cloroquina e até aplicação de ozônio no ânus esse presidente recomendou.

O caso de Manaus é emblemático do genocídio. Desde o ano passado a população manauara infectou-se acima da média (76%) e acabou por propiciar o surgimento de uma variante do vírus, mais infecciosa e mais letal, que agora se alastra por todo o país. Manaus foi o “laboratório” desta nova fase da pandemia.

O governo federal sabia disso. Sabia inclusive que em Manaus faltavam leitos, respiradores e oxigênio. Mesmo assim, não fez nada. Resultado: só no dia 14 de janeiro deste ano morreram na capital amazonense 51 pessoas asfixiadas – foi um massacre, esse dia foi também um marco que inaugurou a fase mais letal da pandemia entre nós.

Enfim, não temos estratégia de combate à doença traçada pelo governo central; não temos uma população suficientemente informada (nem convencida) das medidas de prevenção; não temos a adesão das pessoas ao distanciamento social (virou caso de polícia!); os sistemas de saúde em 25 dos 27 estados estão à beira do colapso; seremos os últimos povos a serem vacinados, e o presidente da República anda à cata de um novo ministro da Saúde.

Hoje, o Brasil registra o maior número de contaminações do mundo (494 mil nos últimos sete dias), e o maior número de mortes (12,3) na última semana. Estatística do Sivep-Gripe informa que 72 mil pessoas morreram no Brasil por falta de UTI – uma morte agônica para cada três pessoas hospitalizadas.

Se havia alguma dúvida sobre a necropolítica e o necrogoverno de Bolsonaro, agora não há mais. Os nossos 11 milhões de casos e as quase 280 mil mortes revelam, desgraçadamente, por que um dos símbolos da campanha do atual presidente da República era uma “arminha” simulada com as mãos.

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2 respostas para Por que genocida

  1. Arthur Jacon disse:

    Oi, Professor, tudo bem?
    Concordo que a política sanitária é desastrosa. Mas os brasileiros não ajudam em nada. Não tem um dia em que pelo menos um de meus vizinhos não enfiam o pé na jaca, em reuniões “familiares”, regadas generosas quantidades de cerveja e música de qualidade sofrível. Todo dia. Pelo menos em Goiânia, “a capital da música sertaneja” (argh!!) é assim Essas pessoas ficaram tão embrutecidas que nem essas tragédias diárias conseguem dar lugar a um mínimo de sensatez. Que horror!

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