Mais um arrependido

O SENHOR Fernando Henrique Cardoso é o mais novo arrependido na praça: disse sentir um certo mal-estar por não ter votado em Fernando Haddad em 2018, e anulado o próprio voto. A declaração do ex-presidente – que até hoje ainda é tratado como o “príncipe da sociologia brasileira” – é uma declaração problemática.

Primeiro porque é contraditório que um político de carreira, que dependeu a vida inteira do voto do povo, anule o seu próprio voto, renunciando a esse instrumento da soberania popular e desestimulando o exercício cívico da cidadania. Fernando Henrique deveria guardar para si, debaixo de sete chaves, esse seu mal-estar.

O voto nulo de FHC revela também sua incapacidade de fazer a leitura política do momento e de escolher o melhor candidato na hora do voto. Era de se esperar que o voto do “príncipe da sociologia” fosse um “voto qualificado”, de quem sabe escolher e votar com lucidez e consciência política; não é razoável que um homem experiente e politizado se arrependa do seu voto, ou de não ter votado, e não saiba escolher entre um professor e um miliciano.

Na verdade, Fernando Henrique Cardoso mente. Ele não sente mal-estar nenhum, pois não conseguiria apertar o 13 na hora do voto – até hoje não conseguiu engolir o sucesso do PT e do Lula no governo federal, que fez o povo esquecer do tucano presidente. FHC é vaidoso; achou que seria também o “príncipe dos presidentes”.

Creio até que Fernando Henrique não só deixou de votar em Haddad como votou no Bolsonaro. Seu partido, e ele próprio, estava embarcadíssimo no golpe que afastou o PT do poder. Logo, seu declarado voto nulo tem tudo pra ser mais uma cascata do ex-presidente que afundou o Estado e a economia brasileira para acabar com a inflação.

O jornalista Mino Carta disse certa vez que Fernando Henrique Cardoso é um “blefe”. Concordo. Não custa nada o ex-presidente estar blefando agora para limpar sua barra, ou a barra de seu voto nulo e inconsequente; voto de quem, tendo vivido na e da política, renega a própria política, levado por sentimentos pessoais ou mesquinhos.

Sim, FHC é um blefe – pouca gente o definiu tão bem quanto Mino Carta. Certa ocasião, o ex-presidente – filho e neto de militares – disse publicamente que “nunca conseguira condenar completamente a ditadura militar”. Tem cabimento? Pode um homem tido por democrata contemporizar com um regime que destruiu a democracia? FHC é um logro.

Durante o golpe de 2016 estava todo entusiasmado com a Lava Jato, aliás, protegido pela Lava Jato. Elogiou sempre essa operação, que hoje se sabe vandalizou as nossas instituições, violou sistematicamente a Constituição Federal, violou as leis penais, produziu provas ilícitas, entabulou acordos entre acusação e juiz para condenar Lula… Se FHC não fosse um blefe, viria agora dizer que também sente um mal-estar com a Lava Jato.

A bem dizer, o que causa mal-estares são as declarações de FHC. Uma hora manda esquecer tudo o que escreveu como professor; outra hora diz que não condena inteiramente a ditadura militar; depois diz que votou erradamente na eleição para a presidência; aposentou-se precocemente na USP, e quando fez uma reforma da Previdência em seu governo disse que brasileiro é vagabundo; já disse que o animador de auditório Luciano Huck é uma boa opção para a presidência… Esse “príncipe” engana bem, viu!

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