O despudor do general

O EX-COMANDANTE do Exército, general Eduardo Villas Bôas, é portador de uma grave doença degenerativa mas isso não o impediu de participar (decisivamente) do golpe que derrubou Dilma Rousseff e levou Jair Bolsonaro à presidência da República. Ele próprio confessa isso, num livro que acabou de publicar na versão e-book, e parece até orgulhar-se de suas manobras golpistas, de seu “poder”.

O que impressiona é que o general faz questão de dizer algo que normalmente não se diz; parece ter a necessidade de proclamar a Deus e ao mundo que participou mesmo desse golpe. Que teve papel relevante em momentos decisivos. Que os militares estão de volta à política e que ele é o grande responsável por esse retorno.

Sim. Em 2018, no dia anterior ao julgamento do já famoso habeas corpus de Lula, o general Villas Bôas emitiu uma mensagem oficial pelo Twitter, lida imediatamente pelo Jornal da Globo, pressionando os ministros do STF para não soltarem o ex-presidente que se encontrava preso – e o STF, acuado, realmente não soltou.

O mais incrível é que na semana seguinte ao julgamento o vanglorioso general não se conteve e foi para a imprensa (Folha de S. Paulo) dizer que se viu obrigado a pressionar o STF para manter Lula preso, pois havia um descontentamento nos quartéis com a corrupção e, caso Lula fosse libertado, as tropas poderiam resolver as coisas do seu jeito.

Agora, o general, ufano de suas abomináveis manobras golpistas, publica um livro deixando bem claro que houve intervenção militar no julgamento do STF, que resultou na exclusão de Lula do processo eleitoral de 2018 e levou o militar de baixo coturno Jair Bolsonaro à cadeira da presidência. E, no livro, o general, faz outra revelação: essa intervenção militar foi decidida pelo Alto-Comando do Exército, que estava alinhado à Marinha e Aeronáutica.

Quem acompanha a vida política nacional, muito antes das bravatas do general Villas Bôas, nunca teve a menor dúvida da participação dos militares no golpe de 2016, que resultou no governo completamente militarizado de um ex-militar. Hoje se entende porque Jair Bolsonaro, logo após sua vitória, foi cumprimentado por Villas Bôas e disse: “Obrigado, comandante, estou aqui por sua causa”.

O golpe foi descarado, só os ingênuos (e são muitos) não perceberam a manobra golpista da caserna, e ainda colaboraram com seus votos inocentes nas urnas.

Os militares tinham pelo menos quatro motivos para derrubar o governo do PT e voltar ao comando do país: (1) estavam sem fazer política há 30 anos, coisa que contraria a tradição militar na política brasileira e latino-americana; (2) odiavam Lula por terem perdido a batalha pelo controle dos territórios indígenas Raposa Terra do Sol; (3) nunca engoliram a Comissão Nacional da Verdade instalada por Dilma Rousseff.

Depois de confessar (e apregoar) suas ingerências e manobras políticas, o general Villas Bôas, tentando ser magnânimo, disse numa entrevista que se preocupa (e não concorda) com a política nos quartéis. Parece contraditório, mas não é: o general não quer a política nos quartéis, ele quer os quartéis na política – triste sina deste país, e do subcontinente latino-americano, onde o poder armado faz política, e o faz sem nenhum pudor.

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