O desespero da extrema-direita

RADICAIS (e malucos) da extrema-direita norte-americana invadiram ontem o Capitólio, sede do Congresso dos EUA, para impedir a votação que confirmaria (como confirmou) a vitória de Joe Biden. O dado mais relevante é que o próprio Donald Trump incentivou essa invasão – numa clara tentativa de golpe.

O tempo fechou. Houve correria, bombas de efeito moral, caos e cenas de faroeste (ou James Bond). Seguranças do Congresso empunhavam armas e ameaçavam atirar contra os invasores. Dezenas de pessoas foram presas e uma mulher morreu baleada durante o tumulto.

A democracia dos Estados Unidos, que dizem ser a maior do mundo, ainda não havia conhecido uma tentativa de insurreição como essa, ainda mais estimulada por um presidente da República. O país de Tio Sam experimentou seus dias de República das Bananas, coisa que só acontecia, segundo os próprios norte-americanas, no quintal deles, a América Latina.

Que o presidente Trump é um representante burlesco da “nova direta” no mundo todo mundo já sabia. O que não se sabia é que ele fosse capaz de agir como um caudilho estúpido, desesperado com a derrota nas urnas, manchando a democracia liberal representativa que sempre foi o orgulho dos estadunidenses.

Se essa balbúrdia toda pode ocorrer no parlamento da – vá lá! – “maior democracia liberal do mundo”, pode ocorrer também no quintal dessa democracia. E se Jair Bolsonaro tem como ícone o amalucado Donald Trump, pode repetir aqui as diabruras de seu ídolo. O capitão já anda pondo em dúvida as urnas eletrônicas e sinalizando que não aceita derrota, tal como o paspalhão do Norte.

Os brasileiros que abram os olhos! Antes mesmo de assumir o governo, Jair Bolsonaro já falava em fechar o Congresso e o STF. Uma vez eleito, creio que só não deu asas a esse delírio autoritário porque as Forças Armadas não embarcaram na sua aventura irresponsável; mas estivemos perto…

Essa invasão estapafúrdia do Congresso norte-americano constitui mais uma chaga a combalir a já combalida democracia liberal capitalista. Mas é também um sinal evidente de que o sucesso da extrema-direita, que vem se levantando desde os anos 90, está em processo de evaporação.

Outra evidência dessa evaporação da extrema-direita foi a eleição na Georgia, um estado historicamente racista que, no mesmo dia da invasão do Capitólio, elegeu um negro para o Senado, Raphael Warnock. Foi uma derrota histórica dos supremacistas brancos para os democratas, consolidando o racha dos falcons republicanos e da direita norte-americana.

Donald Trump era o seu mais vistoso (e excêntrico) representante. Trump perdeu as eleições parlamentares há dois anos e agora na eleição presidencial foi derrotado pelo modesto Joe Biden. Não há dúvida de que a extrema direita perdeu seu símbolo mais precioso.

Após a derrota, Trump contestou o resultado das eleições, disse que não aceitaria sair da Casa Branca, pediu recontagem de votos, pressionou autoridades do comitê eleitoral para alterar os números da votação e, por fim, insuflou a patuleia que o apoia a invadir o Congresso – esperneou do jeito que deu, mas não deu – deve sair com o rabinho entre as pernas.

A chamada “nova direta” ou new right começou a se erguer no mundo com advento da internet, quando surgiram os institutos liberais e as think thanks disseminando a ideologia ultraliberal (ou libertarianismo) de extrema-direita. Trata-se de uma estratégia financiada por milionários como Steve Bannon, Robert Mercer e Charles Koch. No Brasil, o mais caricato ideólogo desse movimento é o senhor Olavo de Carvalho – um bufão: misto de jornalista, astrólogo e filósofo.

O que querem esses extremistas neorreacionários – nos Estados Unidos e no mundo -, é acabar com a democracia e com a soberania popular. O sonho deles é substituir o Estado pelo Mercado; substituir a política pelo controle das grandes organizações econômicas; trocar os políticos pelos CEOs, gestores ou controladores – os famosos management.

Pois bem. O eleitorado norte-americano – que não costuma ser lá essas coisas em tema de consciência política – acordou: mandou embora da Casa Branca o fanfarrão alaranjado; esperemos que o eleitorado brasileiro também acorde, e mande pra casa o farofento capitão sem tropa, sem farda e sem quartel.

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