Meia justiça

ONTEM, a Justiça britânica negou o pedido de extradição do ativista Julian Assange, feito pelos Estados Unidos. Assange, fundador do WikiLeaks, é acusado de violar as leis norte-americanas por ter divulgado em 2010 documentos que comprovavam as atrocidades cometidas pelos ianques no Afeganistão e no Iraque.

De acordo com esses documentos então divulgados pelo WikiLeaks, os americanos atiravam contra as populações civis daqueles países, matando homens, mulheres e crianças como se matam moscas. Foram crimes cometidos contra a humanidade por um Estado delinquente que violou a Convenção de Genebra e todas as leis internacionais de proteção aos civis em tempos de guerra.

A divulgação dessa barbárie deveria render a Julian Assange um prêmio Nobel da Paz. No entanto, o ativista do WikiLeaks está preso na Inglaterra tão somente por ter exercitado a liberdade de imprensa e o direito de informação.

Os Estados Unidos querem silenciá-lo para sempre. Pediram sua extradição para impor-lhe a morte civil no cárcere. A Justiça do Reino Unido, porém, negou a extradição por considerar que o estado de saúde do ativista poderia se agravar nas conhecidas masmorras norte-americanas.

Foi pouco. O correto (e justo) seria não apenas negar a extradição, mas conceder a liberdade a Julian Assange para viver em seu país (Austrália), ou asilado onde bem entender. Ele não cometeu crime nenhum. Ao contrário, denunciou os crimes cometidos pela maior potência bélica do mundo; prestou um serviço à humanidade.

O curioso é que a imprensa ocidental, submetida ao poder econômico e bélico dos Estados Unidos, não levanta um dedo para defender o jornalista preso e silenciado injustamente. Essa imprensa, inclusive a norte-americana, que estufa o peito para defender a liberdade de expressão, de imprensa e de informação, é cínica e covarde.

Assim também a brasileira, que esconde o quanto pode o caso Julian Assange. Agora, diante da decisão britânica de não conceder a extradição do jornalista, a Associação Brasileira de Imprensa conclamou nossos órgãos de comunicação de massa a defender a liberdade de Julian. Que nada! Silêncio.

Diz a ABI que, no caso, estão em jogo não apenas a liberdade do jornalista, mas a própria democracia, a liberdade de imprensa e o trabalho jornalístico. Nem assim. Nossos órgãos de comunicação continuam calados. A mídia brasileira é prepotente, não é livre nem nutre o menor apreço pela democracia – a não ser por uma democracia de fachada, retórica e conveniente.

Quem tem que defender a liberdade de imprensa no Brasil é o povo. Para isso, é necessário democratizar (desconcentrar) a imprensa nativa – despudoradamente concentrada nas mãos de uns poucos barões. Sem imprensa plural e livre não haverá democracia!

Mas, quando se fala em “democratização da mídia”, os seus barões reagem com o cinismo habitual, dizendo que isso é “controle”, “censura” e violação à liberdade de imprensa. Só que, quando é pra defender a liberdade de imprensa em face de um país poderoso e delinquente, como no caso Julian Assange, os barões da mídia desaparecem como os ratos – sorrateiramente.

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