Cadeia e impeachment

NEM bem começou o ano novo e Jair Bolsonaro já está nas manchetes dos jornais. Mas não é por nenhum grande feito do presidente, não; é por um malfeito. Logo no dia 1º saltou no mar em Praia Grande-SP, nadou até onde estavam os banhistas, estimulou aglomeração e voltou para o seu barco, sem quê nem por quê.

É muito óbvio que o presidente não quer outra coisa senão notoriedade. Está de olho na reeleição e precisa manter sua tropa atiçada. Aproveita que as pessoas estão cansadas da pandemia e explora o negacionismo de uma parcela da sociedade que, por uma razão ou por outra, resolveu “cancelar” o novo coronavírus por conta própria.

Sabemos que Bolsonaro é um grosseirão irresponsável. Ignora a progressão da doença (com segunda onda e surgimento de novas cepas do vírus); desdenha as recomendações sanitárias (uso de máscara e distanciamento); não toma as medidas que lhe cabem (campanha de prevenção, socorro aos necessitados e plano de vacinação) e ainda por cima incentiva comportamentos que ampliam a pandemia.

O que o presidente fez em Praia Grande – e o fez tantas vezes – é crime. Está previsto no art. 268 do Código Penal que pune o comportamento daquele que infringe determinação do poder público destinada a impedir introdução ou propagação de doença contagiosa.

Sendo crime comum – e um crime que atenta contra toda a sociedade – constitui naturalmente um procedimento incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo de presidente da República, e constitui-se, pois, num crime de responsabilidade. Trata-se, portanto, de dois crimes que dão cadeia e impeachment.

Pois bem. Analisados os marcos legais de mais essa conduta delituosa do presidente, verifica-se também que sua atitude, leviana e inconsequente, tem qualquer coisa de provocação gratuita, insolência desnecessária.

Não se tratou apenas de uma conduta irresponsável, antipedagógica. Além de crime, foi uma espécie de desaforo, afronta dispensável – ainda mais em se tratando de um presidente da República. Bolsonaro é atrevido e provocador, aliás, como o foi durante toda sua vida pública – no Exército e no Congresso.

Os golpistas estão procurando até hoje o crime da Dilma Rousseff, no entanto, fecham os olhos para o rosário de crimes do senhor Jair Bolsonaro.

Esse filistino que puseram na presidência da República não tem a menor condição de presidir – que dirá liderar – o país. Em dois anos de (des)governo os indicadores são de estarrecer, quer seja na economia, na área social, na educação, na saúde, na segurança pública, na proteção ambiental ou na política externa.

A inaptidão de Jair Bolsonaro para o cargo que ocupa não é perceptível apenas por meio dos indicadores de seu desempenho desastroso. O perfil pessoal do capitão também não ajuda: em apenas dois anos brigou com o Congresso, brigou com o STF, brigou com governadores e prefeitos, brigou com seu próprio partido, brigou com as universidades públicas, brigou com a mídia, brigou com a comunidade internacional… O cara é um chibante desvairado.

A julgar pela rentrée do capitão logo no primeiro dia do ano, podemos esperar muita estrepolia pela frente. Na eleição de 2018, depois que a elite brasileira resolveu pôr fogo na democracia para derrubar um governo popular, estávamos numa encruzilhada – tomamos o caminho errado e agora estamos a pagar o preço, inclusive com vidas.

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