As eleições e o PT

NESTAS eleições municipais de 2020, pela primeira vez em 35 anos, o PT não ganhou em nenhuma capital brasileira. O número de prefeituras petistas encolheu no país todo (179 municípios); elegeu prefeitos em poucas cidades de porte médio ou grande: Diadema, Contagem e Juiz de Fora. Tal desempenho não foi exatamente animador.

No país todo, o PT recebeu em torno de 7 milhões de votos – praticamente a mesma votação de 2016, logo após o golpe-impeachment contra Dilma Rousseff. Isso significa que o antipetismo continua forte; o partido ainda está pagando pelo estigma da corrupção que lhe impuseram a grande mídia e setores da Justiça durante os processos do “mensalão” e “petrolão”; cenário difícil.

Neste ano em que completou 40 anos de existência, o desempenho eleitoral do Partido dos Trabalhadores revela que o partido “quarentão” precisa rediscutir sua identidade, suas estratégias e seu futuro.

Nesse sentido, pretendo realçar três aspectos.

1. A frase que mais se ouviu nesta eleição é que o PT precisa “voltar para suas bases”. Precisa. Mas não é tão simples assim. Começa que as bases já não são mais as mesmas, não há mais o tradicional “chão de fábrica” nem pobres mobilizados na periferia. Então, não é só “voltar para as bases”; é preciso identificar quais são e como estão essas bases.

Porque a classe trabalhadora passou por muitas mudanças nestes últimos anos: trabalhador não é apenas o celetista com carteira assinada. Temos hoje uma grande massa de trabalhadores na informalidade; no trabalho autônomo; na “pejotização” e no “uberismo” (“empreendedores”); temos um exército crescente de desempregados.

Há ainda a “nova classe média”, que já se viu representada pelo PT mas hoje está cooptada pelo pensamento conservador à direita; há também uma massa considerável de trabalhadores e pobres sob a influência político-ideológica das igrejas neopentecostais, atraídos pelo campo conservador fundamentalista.

Em resumo, as bases a que o PT deve retornar não são mais as mesmas; precisam ser identificadas, compreendidas e trabalhadas de acordo com a realidade, as demandas e perspectivas atuais.

2. O PT precisa reorganizar-se internamente. Trata-se de um “partido de tendências”, com várias correntes internas e pequenas diferenças ideológicas entre elas. A existência dessas correntes não é algo bom nem mau – é simplesmente natural. Creio que sejam um sinal de pluralismo de pensamento dentro do PT, democracia e grande efervescência intelectual e cultura política.

Mas é preciso cuidar para que essas correntes não se atraquem em disputas internas que podem minar as energias necessárias para fazer a luta lá fora. É preciso mais planejamento (político e eleitoral), mais debate e menos embate, para evitar os riscos da “tribalização” e da implosão; as tendências têm de ser a força do partido.

Se o PT fala tanto em rever-se e buscar a união “das esquerdas”, numa frente ampla, é natural que comece por fazer a lição de casa, unindo-se por dentro. As diferenças de pensamento entre as correntes devem ficar no campo das ideias, e não da disputa de poder interno. Repito: a disputa de poder é lá fora; e lá, nunca prevalece a orientação político-ideológica desta ou daquela tendência: o programa do PT, o discurso e os objetivos são os mesmos.

Enfim, acredito que será necessário olhar para fora e qualificar cada vez mais as análises que o partido faz dos cenários políticos e de toda a conjuntura externa, a fim de que possa, internamente, debater sua nova identidade, seus papéis e, sobretudo, estratégias de intervenção no contexto externo: político, social, cultural, ambiental e econômico do país.

3. O projeto de país (e de cidades) que o PT defende, popular e democrático, é genuinamente de esquerda. No fundo, constitui-se de um conjunto de políticas públicas bem-sucedidas, implementadas nos últimos anos pelos governos petistas (em todos os níveis), e agora sintetizadas pelo Diretório Nacional no “Plano de Reconstrução do País”, recentemente lançado.

Creio, porém, que, com o plano na mão, os desafios são dois. Primeiro, encontrar a linguagem capaz de “traduzir” esse plano aos trabalhadores, vulneráveis e minorias discriminadas ou oprimidas. É preciso produzir, como se diz, uma narrativa específica para que o partido consiga se fazer entender e tenha um discurso realmente distinto do de seus adversários.

Porque os programas de governo, pelo menos no plano municipal, e a retórica produzida a partir de tais programas, tanto à direita quanto à esquerda, andaram muito semelhantes – ficou a impressão de que o grande público eleitor teve dificuldades para diferenciá-los.

Feito isso, traduzido em miúdos os programas, é preciso convencer trabalhadores, vulneráveis, minorias e oprimidos (pobres, negros, gays, mulheres etc.) que o PT realmente lhes dá espaço e os representa no campo político. Pois o discurso genérico de que o PT defende a classe trabalhadora e os pobres, que o partido é uma alternativa popular contra o elitismo da direita, nestas eleições não pegou; era possível ver isso nas ruas e no contato corpo a corpo com o eleitorado.

E creio que aqui esteja a chave da questão: encontrar não apenas um bom programa de governo (que o PT sempre teve) e uma linguagem que o traduza, mas, sim, descobrir as estratégias, práticas, sujeitos políticos legítimos e os instrumentos adequados para convencer as classes médias e populares de que o Partido dos Trabalhadores realmente é um dos portadores do desafio de transformar e democratizar a sociedade. É isso, parece-me, que o PT, num esforço coletivo, precisa debater e descobrir – urgentemente.

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2 respostas para As eleições e o PT

  1. Haroldo disse:

    Com toda sinceridade, o autor deste blog é um quadro que o PT não merece ter. Digo isso pois é um nome muito superior ao partido. Pois o PT esfacelou-se e atualmente é um partido que levanta-se apenas para defender seus próprios erros do passado recente ou os direitos trabalhistas de servidores públicos – necessários à nossa nação, mas com privilégios e mordomias impagáveis em qualquer ambiente sério e com compromissos fiscais. O PT esqueceu de ser dos trabalhadores e se tornou um “trabalhista”. Como narrado no texto, a classe trabalhadora (de verdade) está na informalidade, nos aplicativos de transporte. Essa defende o pão da sua família e não interesses de sindicatos sorrateiros. A modernização do Estado é necessária e precisa de um partido de esquerda (sério no caso) no protagonismo desse processo. Talvez seja aí que a esquerda deve refletir e buscar a seriedade – que acredito que o autor do blog tem. Entender o presente e livrar-se do passado. Governar para oferecer oportunidades reais a todos e isso só é possível com uma educação pública fundamental e média de qualidade. Onde os filhos dos pobres, ricos, raças, gêneros e credos terão a mesma condição de formação e disputar o mercado trabalho. Sinceramente, isso, na história do Brasil, nem a esquerda, nem o centro e nem a direita tem e teve o interesse de fazer seriamente. Pois todas essas correntes, historicamente, sempre serviram os mesmos patrões quando estão ou estiveram no poder. Abraços.

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