O que os brancos têm com isso?

ESTÁ provado, por meio de estatísticas oficiais, que 80% dos mortos pela letalidade das forças de repressão no país são negros; entre os policiais que morrem em serviço ou no horário de folga, 67% são negros também. A mortalidade infantil e materna é maior entre a população negra: as mulheres pretas estão mais sujeitas a violência obstétrica, e as crianças mais vulneráveis a contaminações.

No mercado de trabalho, o racismo estrutural continua causando seus estragos: 64,3% dos desempregados são negros. O salário dos brancos é 70% maior que o dos negros; as mulheres negras, em média, recebem apenas 44% do salário de um homem branco (menos da metade); o rendimento médio domiciliar (per capita) da população branca é de R$ 1.846, o da população negra ou parda não passa de R$ 934.

Quanto à liberdade, a diferença também é notória: em 2019, dos 657,8 mil presos que informaram cor e raça, 438,7 mil eram negros, ou seja, 66,7% da população carcerária. E pior, essa desproporção está aumentando no sistema prisional, inclusive entre as mulheres negras.

Em suma, no que diz respeito às dimensões fundamentais da existência humana (vida, trabalho e liberdade) – sem contar as necessidades (também fundamentais) de educação, cultura e lazer – há muita discrepância entre a condição dos negros e a dos brancos no Brasil. É uma desigualdade que mata e oprime, não apenas exclui.

Mas essa desigualdade ocasionada pelo racismo brasileiro não é um problema só dos pretos – como à primeira vista poderia parecer. Os brancos têm muito (ou tudo) a ver com isso. E a responsabilidade da população branca pode ser resumida em duas questões apenas: moral e política.

Primeiro a questão política: se os brancos querem mesmo viver numa democracia real (e não apenas formal), então devem começar pelo combate ao racismo que exclui, mata e oprime aqueles que são a maioria da população. Pois, jamais haverá democracia com a exclusão da maioria; isso sabemos desde que fundaram a democracia antiga (Grécia), refundada pelos modernos.

Agora a questão moral: até quando os brancos aceitarão – calados e indiferentes – serem os beneficiários diretos de um sistema injusto, que lhes garante maiores e melhores oportunidades, desde o berço até o túmulo, em detrimento da população negra?

É um clichê (aplicável à ascensão do nazismo na Europa), mas o silêncio dos indiferentes é tão responsável pelo racismo quanto a prática dos racistas; são coisas que acabam se confundindo no plano histórico, pois, praticar a injustiça e permitir que se a pratique dão na mesma, produzem o mesmo resultado.

Creio que não haverá meio-termo para a população branca do Brasil: ou lutamos todos (pretos e brancos) por uma democracia de verdade (substancial), e por uma sociedade efetivamente justa, ou afundamos todos no racismo e na injustiça. Me parece simples assim.

______________________

http://www.avessoedireito.com

Esse post foi publicado em Avesso e marcado . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s