Racismo violento

APÓS a morte de João Alberto, espancado violentamente por seguranças do Carrefour, e após o vice-presidente Mourão dizer que no Brasil não há racismo, os jornais de hoje publicam dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública confirmando o que já sabíamos e o vice-presidente parece não saber: os negros representam 80% das mortes provocadas pelas polícias no país.

Mas surgiu também um outro dado: dois terços dos policiais mortos em horário de folga ou em serviço também são negros. Quer dizer, os negros estão pagando com a vida seja quando são reprimidos pela polícia, seja quando integram as polícias para atuar na repressão.

Isso deita por terra a antiga tese de que tínhamos aqui um “racismo cordial”, o nosso racismo é violento – é estrutural e violento. Todo racismo, em si, já é uma forma de violência, mas o racismo brasileiro é praticado com a violência aberta do próprio Estado, como estratégia de necropolítica.

Portanto, está longe da realidade a ideia de que o Brasil vive uma “democracia racial”, onde haveria convivência pacífica e igualitária entre brancos e negros. Isso é um mito, uma mitificação alimentada pela ignorância de uns, pela indiferença de outros, e pelo racismo de todos.

Agora, vêm o presidente e seu vice dizer que o racismo não existe ou não é um grande problema do país. O negacionismo como o desses dois representantes do Estado sempre foi o maior responsável pela resiliência do racismo entre nós, que até hoje tem sido ignorado pela maioria da sociedade brasileira (incluída aí uma parcela de negros) e por nossas instituições estatais.

O racismo é sim um dos nossos maiores problemas, pois, enquanto perdurarem a violência contra os negros, a discriminação deles no mercado de trabalho e a exclusão do sistema educacional, não poderemos falar numa autêntica democracia. Notem que os negros constituem a maioria da população brasileira (54%).

Para combater o racismo, nos ensina Djamila Ribeiro, o primeiro passo é reconhecer que ele existe – bem ao contrário do que fizeram o presidente e o vice brasileiros, numa evidente demonstração de ignorância sobre a história e a realidade brasileira.

O segundo passo, continua Djamila Ribeiro, é tomar consciência e entender que uma sociedade estruturalmente racista produz e reproduz o racismo cotidianamente, e isso nos afeta a todos. Logo, para combater o racismo, torna-se necessário reconhecer que somos todos potencialmente racistas, e direcionar nossas condutas, inclusive no dia a dia, para combatê-lo sem trégua – até nas piadinhas racistas aparentemente inocentes.

Toda vez que alguma autoridade brasileira faz declarações como essas dos dois máximos mandatários da nação significa que ainda não demos, sequer, os primeiros passos para vencer a mazela do racismo. Quer dizer que estamos muito longe de ter plena consciência do momento histórico em que vivemos; ou seja, continuamos mergulhados na escuridão da ignorância.

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