O novo toma-lá-dá-cá

            O PRESIDENTE Jair Bolsonaro não entende muita coisa, e uma das coisas que ele não entende é que o Brasil tem um “presidencialismo de coalizão”, e que, portanto, o chefe do Executivo precisa dialogar com o Congresso, se quiser governar. Bolsonaro, estúpido como é, optou por xingar o Congresso (e outras instituições). Deu no que deu – até agora não governou um dia sequer.

           Seu argumento, para não dialogar com o Legislativo, é que iria implantar a “nova política” – sem favores nem toma-lá-dá-cá. Os seguidores de Bolsonaro acharam isso o máximo; acharam que a corrupção estava mesmo com os dias contados. O capitão, finalmente, encontrara a fórmula da ética na política. Doce ilusão!

           Nem Bolsonaro nem sua corriola sabem que a política é a arte da negociação, da administração e composição dos conflitos de interesses tendo em vista um bem maior – a governabilidade para o bem comum. O xis da questão está na maneira, na habilidade, na competência com que isso é feito – é aí que se vê o estadista.

             Pois bem, como Bolsonaro ficou politicamente isolado, e depois de um ano e quatro meses na presidência ainda não disse a que veio – só fez confusão – resolveu agora aproximar-se do chamado “Centrão” – ninho do fisiologismo político – para, primeiro, escapar do impeachment, e, segundo, tornar lei suas Medidas Provisórias que ora são revogadas pelo Legislativo, ora anuladas pelo STF.

            O capitão retorna portanto à “velha política” – não há nada mais velho do que o “jeito centrão” de fazer política: na base do toma-lá-dá-cá e de outras práticas menos louváveis. Retorna pelo pior caminho. Bolsonaro vai conhecer agora o jogo dos cargos, das verbas e similares. Ele esteve no Congresso e nunca viu isso porque nunca participou da “festa” – era um deputado à margem de tudo – não tinha moral nem força política para pleitear cargos ou verbas.

       Na verdade, Bolsonaro vivia das suas maluquices e das “rachadinhas”. Ou seja, mantinha suas bases – milícias, polícias e militares de baixo coturno – atiçados com seus rompantes sobre pena de morte, tortura, ditadura, caça aos bandidos e caça aos transviados em geral – era isso que mantinha Bolsonaro, um deputado medíocre, em contato com suas bases; e às vezes até com a mídia.

         E sua campanha, além de financiada por esses colaboradores da base, era irrigada pelas “rachadinhas” – dinheiro público que seus funcionários de gabinete (e funcionários-fantasma) recebiam e depois repassavam ao capitão, para fazer caixa de campanha. Foi tão bem-sucedido nessa prática provinciana, que seus filhos herdaram o “modo rachadinho” de fazer política.

         Quando acordou na presidência da República – levado até lá por uma coalizão golpista – achou que era Napoleão Bonaparte; e que faria tudo do seu jeito, sem dar bola para Congresso, STF, Ciência e coisas que tais. Achou que tinha o respaldo dos militares – atulhados no governo – e que estava por cima da carne-seca: foi uma burrada só, ou melhor, uma burrada atrás da outra.

           Agora, o capitão volta murchinho, com a rabo entre as pernas, e começa a distribuir verbas e cargos ao “Centrão”, suprassumo do fisiologismo no Congresso Nacional; fina-flor do toma-lá-da-cá.

         Por incrível que pareça, isso pode ser até um bom sinal; sinal de que o capitão desistiu de insistir no seu projeto autoritário/bonapartista e resolveu negociar. Ele que até agora batia no peito e dizia que não negociava com ninguém. E, de fato, não negociou (só com evangélicos e militares), mas também não governou; não fez nada, e o pouco que fez era melhor que não tivesse feito.

          Por que o capitão terá mudado de ideia? Duas coisas. Primeiro, sentiu que uma ala importante dos militares não achava que o impeachment era uma má ideia, pois poderiam prosseguir com Mourão na presidência. Segundo, percebeu também que os militares, que o tutelam, não estavam dispostos a embarcar numa aventura autoritária, ou mesmo ditatorial – pelo menos por ora.

           Enfim, Bolsonaro é isso: um pascácio sem bússola. Chegou ao Planalto por obra de uma coalizão perversa entre mídia, empresários e setores do Judiciário e do Ministério Público; achou que tinha chegado lá por méritos (ou deméritos) próprios; não entendeu que o Planalto é só a dimensão simbólica do poder real, e, assim, despreparado como é, meteu os pés pelas mãos. Agora, depois de muito estrago, recolhe-se ao berço esplêndido do toma-lá-dá-cá; e talvez ainda diga à sua plateia que essa é a “nova política”.

______________________

http://www.avessoedireito.com

Esse post foi publicado em Avesso e marcado , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s