Por que Moro saiu

              VÁRIAS razões explicam a saída repentina de Sérgio Moro, que deixa o governo de Bolsonaro após um ano e quatro meses à frente do Ministério da Justiça. Sua saída foi repentina, mas já era esperada – ele vem às turras com o capitão desde o início. E são basicamente três os motivos que explicam o desembarque daquele que era tido como intocável, um superministro.

           Em primeiro lugar, é fato que Moro nunca esteve à vontade no governo Bolsonaro. Seu constrangimento começou logo na chegada, quando teve de engolir (e perdoar) os crimes de caixa-dois do também ministro Onix Lorenzoni, réu confesso. Ali começou seu desconforto, porque sentiu arranhada sua imagem de paladino da moralidade, percebeu que sua figura de “herói” poderia desmoronar em algum momento.

         O constrangimento aumentou quando Moro teve de conviver, calado, com as investigações criminais que recaíram sobre a família Bolsonaro – caso Queiroz; depósito de dinheiro de miliciano na conta da primeira-dama; envolvimento do presidente e seus filhos com milícias; o caso das “rachadinhas”; funcionários-fantasma; suspeitas sobre a morte de Marielle; espalhamento criminoso de fake news etc.

             O auge do constrangimento foi agora, pela maneira insana com que Bolsonaro se comporta na crise do coronavírus, desdenhando a pandemia e cometendo crimes de perigo de contágio (art. 132 do Código Penal), impunemente, sob as vistas do Procurador-Geral da República e do ministro da Justiça. Na verdade, Sérgio Moro sumiu desde que estourou a crise do coronavírus.

              A esses constrangimentos somava-se um motivo ainda maior: os poderes de Moro foram esvaziados. O Ministério da Justiça perdeu o Coaf; estava em vias de perder a gestão da segurança pública; e, por fim, perderia qualquer controle sobre a Polícia Federal, com a exoneração do diretor-geral Maurício Valeixo. O ministro virou peça decorativa no governo, usado apenas para manter a retórica vazia do combate à corrupção.

           Além dos constrangimentos e da perda de poder, há um terceiro motivo para que Moro tenha tomado a decisão de deixar o Ministério da Justiça: o governo de Bolsonaro está desintegrando e atingindo níveis insustentáveis de desmoralização, o que, mais cedo ou mais tarde, atingiria a imagem do ex-juiz “competente e incorruptível” – imagem que já vinha arranhada desde as revelações do Intercept Brasil, a “vaza-jato”.

             O ex-ministro tentou manter sempre sua figura descolada da de Bolsonaro, tinha aprovação popular superior à do presidente, mas quando o Intercept revelou as falcatruas processuais do juiz Moro, este foi amparado pelo capitão e teve de mergulhar de vez no bolsonarismo.

            Ante a progressiva desmoralização do governo e do próprio presidente – com vários pedidos de impeachment protocolados na Câmara – Sérgio Moro começou a fazer cálculos políticos e, numa relação custo-benefício, preferiu perder os holofotes do Ministério e cuidar de sua própria candidatura para 2022.

       Essa candidatura está sendo tramada há muito tempo – no mínimo, desde o impeachment de Dilma Rousseff. Não tem grande sustentação política, mas Sérgio Moro ainda é o nome da grande mídia burguesa (Rede Globo à frente), de parte do capital financeiro e do Departamento de Estado e de Justiça norte-americanos.

           Com a saída de Moro, o bolsonarismo se enfraquece – perde os simpatizantes do lavajatismo e a retórica da moralidade. Sérgio Moro também não sai forte: além dos holofotes, perde apoio político e terá de enfrentar as brigadas digitais da família Bolsonaro, que já estão empenhadas em destruir a imagem (artificial) do ex-juiz defensor da ética e da moral.

              Foi uma decisão difícil, mas Sérgio Moro não tinha alternativa. Agora, sem cargo no governo e sem poder voltar à magistratura, será candidato em 2022. As chances de ser eleito dependerão de muita coisa, e o tabuleiro político não é favorável ao ex-ministro. Ele foi engolido em Brasília e não tem mais unanimidade na mídia, sobretudo naquela que manipula o eleitorado religioso fundamentalista.

                Os próximos meses e o pós-pandemia dirão quais as chances de Sérgio Moro. Faz muitos anos que a Rede Globo não consegue eleger seu candidato à presidência da República – o último foi o Collor – e anda desgastada perante o público eleitor; o futuro político do ex-ministro está, portanto, incerto; a única coisa certa é que o golpe de 2016 continua dando errado.

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2 respostas para Por que Moro saiu

  1. profpadua disse:

    Penso que o artigo poderia ter tratado dos crimes que Moro cometeu. Um Ministro da Justiça que se calou com a questão, por exemplo, das “rachadinhas”, ou que buscou proteger a família do presidente em tantos outros casos obscuros tem que pagar por eles.

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