Os cálculos do presidente

             ATÉ agora, o presidente Jair Bolsonaro não fez nada para combater a pandemia do coronavírus – só confusão. Começou negando a gravidade da doença (“gripezinha”). Divulgou a cura da Covid-19 com remédio que nem a medicina aprovou (cloroquina). Fez e faz uma teimosa oposição ao isolamento social, que é a única maneira de conter a epidemia. Demitiu seu ministro da Saúde em plena crise sanitária… Como pode?

      O que pretende, afinal, o presidente da República com esse comportamento inconsequente, que tem deixado a população brasileira atônita?

           Não há dúvida de que ele faz cálculos – não sanitários, mas políticos. Seu grande objetivo não é combater a pandemia – é tirar vantagens eleitorais dessa situação. Seus cálculos parecem arriscados, é verdade, mas a onipotência e a obsessão do presidente já deram mostras de que ele não se importa com riscos.

              Pois bem, quais seriam então os cálculos do capitão? Basicamente, são três.

           Primeiro, Jair Bolsonaro sabe que seus seguidores (ao redor de 28% da população) estão dispostos a apoiar suas ideias e decisões sejam elas quais forem. Mesmo as decisões tresloucadas, como essa de sair pela rua provocando aglomerações e tendo contato físico com as pessoas, disseminando o risco de contaminação pelo coronavírus, serão apoiadas pelo bolsonarismo.

          Isso garante ao presidente um capital político bem acima de 20% dos votos, com potencial portanto para pô-lo no segundo turno das eleições presidenciais em 2022. Não é qualquer político que conta com esse capital. Hoje, somente Lula teria um apoio equivalente. Mas Lula, muito provavelmente, estará fora do páreo.

            Esse cálculo feito pelo presidente é mais ou menos seguro – os seguidores do capitão apoiaram até aqui todas as suas maluquices e leviandades, por que não apoiariam mais um comportamento leviano, como esse que tem assumido em face da pandemia? O presidente vai, portanto, atiçar e apostar na polarização, contando com a fidelidade mórbida de seus seguidores.

            O segundo cálculo é mais ousado. Bolsonaro assumiu a retórica de que o país deve abandonar a quarentena para voltar ao trabalho, pois a economia não pode parar, e, se parar, a recessão e o desemprego serão também causadores de fome e desespero social. Com isso, pretende ser visto em 2022 como o único político que se preocupou com a derrocada econômica.

    Nesse jogo, Bolsonaro empurra para cima dos governadores e prefeitos a responsabilidade pela debacle econômica, que certamente virá, no pós-pandemia. Ou seja, quando a recessão bater à nossa porta, Bolsonaro dirá que é tudo culpa da quarentena adotada pelos governadores, contra a sua vontade, que queria ver o povo na rua, trabalhando.

           A pretensão do presidente, depois da pandemia, é aparecer como o único político corajoso, que teve uma visão de longo alcance, enxergando, antes de todo mundo, o desastre econômico que se anunciava junto com a crise sanitária.

           E há ainda um terceiro cálculo do presidente. Ele usa a chegada do coronavírus como desculpa para encobrir a falência e a incapacidade de seu governo no enfrentamento e superação da crise econômica que já estava instalada, antes da pandemia – “pibinho” em declínio. Ninguém fala mais dos programas (inexistentes) do Paulo Guedes. Assim, o naufrágio da sua política econômica neoliberal fica debitado exclusivamente na conta do coronavírus.

            Em suma, a pandemia é uma variável que será usada pelo presidente em seu projeto de reeleição. Ele faz cálculos políticos. E ainda se dá ao luxo de dizer que quem usa politicamente a crise do coronavírus são seus adversários – e não ele. A falange bolsonária, disposta a acreditar em tudo o que o “mito” faz e diz, acredita piamente que Bolsonaro é um gênio injustiçado.

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