O recado do ministro

            A ENTREVISTA do ministro da Saúde, exibida ontem no programa Fantástico da Rede Globo, só não foi imediatamente explosiva porque Henrique Mandetta preferiu manter um tom racional e sóbrio – mas o conteúdo de suas declarações, esse sim, foi altamente demolidor.

               Quando perguntado se o comportamento do presidente da República, que sai às ruas provocando aglomerações e abraçando pessoas, era um comportamento de risco, contrário às orientações do Ministério da Saúde, o ministro não titubeou e disse com todas as letras: “É um problema!”.

               Ou seja, em plena crise do coronavírus, em vez de ser uma liderança no combate à epidemia, em vez de buscar soluções, o presidente da República é, ele mesmo, uma pedra no caminho, um agravante.

             Na entrevista, o ministro disse também que as autoridades do governo não se entendem, se contradizem, e deixam a população sem saber a quem seguir. Mais uma vez deixa nas entrelinhas – mas nem tanto – que o governo está sem liderança, e o presidente da República não comparece – se comparece, é para atrapalhar.

                   A certa altura, o ministro diz que o povo sofre também com as fake news sobre a epidemia. Muitas vezes as pessoas, diz ele, vão pra rua com base em notícias falsas. Há uma desinformação que gera o aumento do contágio e, consequentemente, das mortes. Essa foi direta para o presidente: Bolsonaro teve postagens excluídas do Twitter, WhatsApp e Facebook justamente por publicar informações mentirosas sobre o coronavírus.

             Por fim, Henrique Mandetta disse que, nesta hora, uma das bases de atuação do seu Ministério é a Ciência. A mesma Ciência que Bolsonaro ignora e insulta, menosprezando cientistas e apregoando a cura da Covid-19 com remédios que não existem.

               Em suma, o ministro da Saúde descolou de vez do seu chefe. Já há rumores de que os militares que tutelam o governo consideram que, desta vez, Mandetta “quebrou a hierarquia”. E Mandetta sabe disso, porque também é militar (médico do Exército). Logo, sabe o risco que está correndo – ou talvez seja um risco calculado, quem sabe desejado. Mandetta não é desses que dão ponto sem nó.

               De tudo isso, infere-se que estamos nas mãos de um governo não só incompetente, mas irresponsável. Aliás, fazer cálculos político-eleitorais em pleno auge de uma crise sanitária que ameaça ser um desastre humanitário, é mais do que simples irresponsabilidade – beira a tentativa de genocídio.

            Mas Bolsonaro é isso mesmo: um fracasso. E o pior é que ele nunca enganou ninguém: sempre fez questão de exibir sua ignorância e vulgaridade. Era um parlamentar do chamado baixo-clero; mas, bem entendido, nunca liderou sequer o baixo-clero; foi sempre um parlamentar obscuro, representante de seu próprio mandato – que exerceu por trinta anos sem fazer nada que preste.

             O médico e parlamentar Henrique Mandetta pode ser tudo, menos tolo. Nunca se aproximou dos ministros maluquinhos de Bolsonaro: Ernesto Araújo, Weintraub, e Damares; nem dos amalucados, Guedes e Sérgio Moro – todos “engolidos” pelo bolsonarismo de orientação bolsolavista.

            Com as últimas declarações, o ministro da Saúde se afasta do posicionamento de Bolsonaro, descolando-se também dos militares que sustentam o presidente. Por tudo isso, o ministro talvez esteja com os dias contados no governo. Só não pede demissão para não arcar com o desgaste de ter abandonado o barco nesta hora difícil; joga a tarefa para o capitão – capitão de um barco à deriva!

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